Para conhecer os Psicanalistas que Falam

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Série de entrevistas em filme traz a palavra de profissionais que ousaram democratizar a psicanálise. No primeiro episódio, Antonio Lancetti destaca a importância dos “territórios marginais”

Inês Castilho
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Exibição especial do filme “Lancetti Brasileiro” (1h15min)
22/11 (terça), às 18h30, na Faculdade de Saúde Pública da USP

seguida de bate-papo com:
* Antonio Lancetti | psicanalista e assessor especial do De Braços Abertos
* Heidi Tabacof | psicanalista, diretora da série, professora do Instituto Sedes Sapientae
* Alexandre Padilha | ex-ministro e atual secretário de Saúde da Prefeitura de São Paulo
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Laura Camargo Macruz Feuerwerker (meadiação) | professora associada da FSP
Atividade aberta e gratuita, realizada em parceria com
Taturana Mobilização Social.
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A psicanálise pode criar novos modos de intervir e pensar a realidade social, para além do divã. Num tempo de grandes desafios a política, os espaços coletivos, os movimentos e as mídias sociais são territórios onde esse saber pode circular mais amplamente para alimentar o diálogo e gestar ferramentas de transformação social.

Foi para pensar essas ideias que Heidi Tabacof e Lúcia Lima, analistas com longa trajetória na clínica, nas ruas e em ambientes de formação – e também realizadoras dos filmes A Mulher do Atirador de Facas e Psicuba – conceberam a série “Psicanalistas que falam”. Os episódios apresentam nomes importantes da psicanálise no país, que intervêm em diferentes territórios para além do consultório. São documentos da história da psicanálise no Brasil, narrada por seus protagonistas – origens, áreas de atuação, formação, paixões. Antonio Lancetti, psicanalista argentino exilado no Brasil desde 1979, é o personagem do primeiro episódio. O segundo traz o psicanalista Chaim Katz, do Rio de Janeiro.


São muitas as provocações, as perguntas, e algumas as pistas apresentadas por Antonio no episódio “Lancetti Brasileiro”, diante da proposta singular de Heide Tabacof e Lúcia Lima: elas pedem aos psicanalistas que falem em livre associação, a partir de um breve roteiro que lhes apresentam antecipadamente.

“Vivemos em meio a um monte de armadilhas. Como ser merecedores de um futuro, o que fazer nesta existência para que ela tenha algum sentido? Ou vamos ficar eternamente envergonhados do nosso desejo, acovardados em tantas circunstâncias, para não perder o emprego? O que será que vai gerar esse impasse? Talvez seja o momento de um caos promissor… A existência está tão achatada, temos tantas ameaças à nossa subjetividade contemporânea, que urge encontrar as próprias forças, a própria potência”, diz Antonio, afirmando a importância dos territórios marginais – esse, o tema do bate-papo entre ele, as realizadoras e o público ao fim da projeção.

Lancetti é um dos personagens centrais da luta antimanicomial no Brasil. Hoje consultor do Ministério da Saúde, trabalha com a questão das drogas e do crack, um grande desafio para a saúde pública no país e particularmente em São Paulo. É autor dos livros “Clínica Peripatética” e “Contrafissura e plasticidade psíquica”. Dirige a coleção “SaúdeLoucura”, de 50 títulos com artigos de grandes analistas brasileiros e estrangeiros.

Para expressar sua visão de saúde mental, Lancetti faz a metáfora da pilha – se ela é normal, chega uma hora não suporta, descarrega e deve ser descartada. “Claro que a análise é importante, mas a fórmula é a da pilha autocarregável, a capacidade de se autocarregar no seio da própria experiência, e o momento de cura é quando se escuta o outro. A gente se trata com os pacientes.”

Supervisor das equipes de atenção básica do programa de saúde da família no centro de São Paulo, Antonio considera que, para trabalhar em territórios além do divã – no hospício, na rua, na Cracolância – o analista precisa ter capacidade de escuta, formação, alto grau de plasticidade psíquica. Precisa ser um atleta emocional, diz, citando Artaud; precisa pensar, ir além do bom senso e do senso comum, afirma, citando Luiz Fuganti. E ter plasticidade psíquica – este, um conceito freudiano “fundamental”.

“Num de seus textos machistas, Freud disse que depois dos 30 anos as mulheres não podiam se analisar, porque não conseguiam mudar. Mas em seguida dizia: como não entendo nada de mulheres, perguntem aos poetas. Machista, ma non troppo. Em outros textos, Freud já fala que a plasticidade psíquica não depende da idade, que certas pessoas não perdem essa plasticidade no decorrer dos anos.”

No filme, Lancetti recorda a história do movimento antimanicomial brasileiro em seu nascedouro – a gestão de David Capistrano na Secretaria de Saúde de Santos, com a prefeita Telma de Souza, do PT, em 1989 – e fala sobre os ataques ao movimento. “A reforma psiquiátrica brasileira é triunfante, mas vem sofrendo derrotas: foram desativados 60 mil leitos, mas outros tantos foram criados. Desde quando começou a campanha da mídia em cima da epidemia do crack, em 2012, há um fenômeno que chamo de contrafissura e afeta a sociedade: acham que podem salvar as pessoas.”

A extinção do programa De Braços Abertos, anunciada durante a campanha por todos os candidatos a prefeito de São Paulo, à exceção de Fernando Haddad e Luiza Erundina, seria um equívoco – afirma Lancetti no filme, assim como em artigo à revista Brasileiros.
Considera reducionistas as ideias convencionais, de que o problema do crack é só a droga, e cita a última pesquisa da Fiocruz: 80% das pessoas em zonas de uso são homens negros e pardos; 80% não completaram o ciclo primário; mais de 50% são egressos dos sistema prisional. “E o problema é o cérebro”, ironiza.

A resposta que apresenta é outra: ao invés de esconder ou eliminar, oferecer um pacote de direitos: moradia, alimentação, trabalho – sem pedir nada em troca. “O que nós, diante da situação de crise, podemos fazer? Um campo de combate é o que chamamos de política de redução de danos, uma clinica de redução de danos. Oferecer moradia, alimentação e trabalho, sem exigir nada. É de uma complexidade enorme, exige muita plasticidade psíquica, e tem gente que não consegue.”

O nosso é um trabalho de combate, precisa transformar. A pior coisa no Brasil é a “cordialidade”, isso de deixar como está para ver como é que fica. São lições que Lancetti aprendeu com David Capistrano: “Tenho o que chamaria de paixão Capistrano. Com ele aprendi que primeiro é a vida, depois a lei; primeiro faça, depois pense. Sou uma das viúvas do David, aliás participo de um grupo que se chama Orfanato – órfãos do Davi e do comunismo. Mas é muito pouco, é muito acanhado diante da situação grave que vivemos.”

Acesso à série
As entrevistas ficarão disponíveis na internet, sob licença Creative Commons, ou seja, podem ser copiadas e remixadas para fins não comerciais, com o crédito original e as derivações compartilhadas sob a mesma licença. Qualquer pessoa pode assisti-las no site do projeto e também organizar uma sessão coletiva, contribuindo para ampliar o alcance e a democratização do acesso à psicanálise.

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