Brasil agora tem uma esquerda “valente”, caçadora de estagiários

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Estudante de Engenharia foi demitido da empresa após escrever contra feministas

Em vez de defender trabalhadores e debater temas econômicos, vem aí a “esquerda que pede a cabeça de pecadores”; combater o capitalismo ou o Estado, nem pensar

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Durante a ditadura de 64, milhares de jovens, senhores e senhoras ousaram desafiar os tanques e coturnos. Foram exilados, torturados, assassinados. Não que o enfrentamento revolucionário fosse o único caminho. Houve quem desafiasse o sistema de outra forma. Com um jornal, com textos, com músicas. Foi também por essa legião de resistentes que pudemos voltar ao esboço de democracia que vivemos (com todos os seus defeitos) durante 30 anos. E que hoje é um títere na mão leve de farsantes.

Antes, durante a era Vargas, outros brasileiros corajosos arriscaram seus pescoços em nome de ideais. E de compromissos perenes. Basta pensar nos homens descritos por Graciliano Ramos em “Memórias do Cárcere” para se ter uma ideia da tenacidade, da capacidade de resignação, da necessidade de desenvolvimento de códigos (e de silêncios), de respeito aos companheiros – pois se sabia que a luta era longa e que qualquer vacilo podia ser fatal. Falhava-se, sim, sem dúvida – mas não sem um certo senso de disciplina. Continuar lendo

FHC, Alckmin, Serra, Blairo Maggi e o Vale das Notícias Ignoradas

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Governador recebeu o ex-presidente e os dois ministros no Palácio dos Bandeirantes; em pauta, a defesa do agronegócio; mas leitores não deram bola

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Todo jornalista deve ter sua lista de notícias-que-não-emplacaram. Você vai lá, apura, descobre algo, sente aquele comichão de repórter, algo entre o orgulho e a expectativa de que repercuta, e… simplesmente a notícia não vinga. Até é publicada, não necessariamente desprovida de destaque. Mas ninguém dá bola. E a notícia não precisa ser sua. Às vezes você percebe que um colega deu algo importante. Espera que aquilo vá rodar o país. Mas nada.

Acaba de acontecer comigo. Duplamente. Lia distraidamente a Coluna do Estadão, nesta terça-feira (07/02), quando me deparei com a seguinte informação: o governador Geraldo Alckmin recebeu em pleno Palácio dos Bandeirantes o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e os ministros José Serra e Blairo Maggi. Em pauta, o agronegócio. O ministro da Agricultura queixa-se da percepção da sociedade em relação ao setor. E FHC se dispôs a abrir o espaço de seu blog, em prol da causa.

Não vi ninguém – absolutamente ninguém – comentar a notícia. E escrevi a seguinte nota, no De Olho nos Ruralistas, observatório sobre agronegócio que coordeno: “Alckmin recebeu FHC, Serra e Blairo Maggi para defender agronegócio“. Mas novamente… nada. Uma das piores repercussões da história do site. O leitor não se interessou. E fiquei pensando…

… no Vale das Notícias Ignoradas. Um imenso vale com notícias soterradas, ignoradas ou instantaneamente esquecidas (o Vale das Notícias Esquecidas é outro, contém notícias que ao menos foram destaque por algum tempo), criaturas natimortas. Notícias que atravessaram algum Rubicão, driblaram os muros de pauteiros e editores, interesses dos patrões, foram estampadas. O leitor que as rejeitou.

Sim, bem sei que leitores são induzidos. Que as notícias que se repetem, sistematicamente, que aparecem nos editoriais e nas colunas dos articulistas, que ganham suítes, têm muito mais chance de entrar na memória coletiva, de fazer parte do debate público efetivo. Mas não estou a falar do Vale das Notícias Censuradas, rejeitadas, derrubadas, vetadas. E sim de notícias que saíram.

Qual a importância, então, de um governador receber – em pleno Palácio dos Bandeirantes – um ex-presidente da República, estrela de seu partido, um dos intelectuais mais influentes de certas décadas do século 20, junto com dois ministros de um governo golpista, um deles de seu partido, o conhecidíssimo José Serra? O outro, o vice-rei da soja, cotado em alguns círculos até mesmo para a Presidência da República?

(Foto: Marcos Corrêa/PR/Portal Planalto)

(Foto: Marcos Corrêa/PR/Portal Planalto)

Eu não estou louco. Vejo relevância do encontro no contexto da própria nomeação de um tucano, Alexandre de Moraes, outro ministro do constitucionalista Michel Temer (nesta terra de constitucionalistas distraídos), para o Supremo Tribunal Federal. Vejo relevância na reunião de três grão-tucanos nesse lugar específico – mesmo que fossem só eles. Vejo importância política na costura entre governo estadual (e entre outro presidenciável, Alckmin) e ministros de Temer.

Por fim, e como editor de um site sobre o universo dos ruralistas, vejo com certa perplexidade Fernando Henrique Cardoso abrir o espaço de seu blog – tradicionalmente reservado para a defesa da legalização da maconha – para promover um setor econômico que se vende por um preço muitíssimo maior do que aquilo que realmente oferece. Ultrasubsidiado, com uma fatia do PIB muito menor do que sugere sua auto-estima nas alturas, patrocinador de violências históricas no campo e de uma das desigualdades estruturais da sociedade brasileira, a que diz respeito ao acesso à terra.

“FHC vai abrir seu blog para defender o agronegócio”. Esse foi outro título que pensei. Será que daria certo? A notícia subiria para algum morro, eventualmente o Morro das Notícias Sobre Tucanos, ou o Pico dos Leitores que Odeiam FHC (ou o Planalto das Notícias sobre Agronegócio, ou sobre Blairo Maggi), ou continuaria no Vale das Notícias Ignoradas? Não sei.

O capitalismo precisa de Celso Roth para substituir o Celso Roth

Quem levará a culpa no capitalismo contemporâneo? (Foto: Ricardo Duarte/Divulgação)

Quem levará a culpa no capitalismo contemporâneo? (Foto: Ricardo Duarte/Divulgação)

O sistema precisa de medidas mirabolantes – e duras – para se dar a impressão de que está sendo consertado, quando se está fazendo apenas um remendo

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Com o Inter de Porto Alegre praticamente rebaixado no Brasileirão, as piadas de adversários tomaram as redes sociais. A melhor delas – e a mais inquietante – é a seguinte: “O Inter precisa contratar o Celso Roth para substituir o Celso Roth”.

Celso Roth comandou o time – que nunca caiu – durante a maior parte do campeonato. Não é um técnico conhecido pela criatividade, ou por um vasto repertório de jogadas, pelo conhecimento tático. Mas como aquele que vai “dar um jeito”, nem que seja na base do grito, da pressão. Por isso ficou conhecido como técnico que salva times do rebaixamento. Paradoxalmente, participou do rebaixamento do Vasco, no ano passado, e do provável rebaixamento do Inter. Continuar lendo

Brasil precisa de uma Crítica da Aceleração Cínica

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O cinismo no Brasil virou um atropelo. Uma disparada. Uma manada de cínicos tomou o Planalto, referendada por cínicos de toga e por multidões de cínicos políticos

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O filósofo alemão Peter Sloterdijk escreveu sua “Critica da Razão Cínica” em 1983. Mais de 30 anos depois, podemos usar o mote para pensar na extensão do cinismo em terras brasileiras, nestes tempos recentes. A ética das conveniências – uma ética às avessas, portanto – tem sido invocada por atores políticos de diversos matizes. Particularmente pelos que pretendem preservar o estado atual das coisas. Como os cínicos descritos pelo alemão.

Não falo dos cínicos originais, claro. Como o grego Diógenes, aquele da Lanterna. Assim como outros termos (“prudência”, por exemplo), a palavra cinismo foi ganhando, ao longo dos séculos, um contorno oposto. De uma postura libertária, provocativa, contestadora, iconoclasta, foi aos poucos se tornando isso o que está aí – uma palavra em sintonia com as práticas cotidianas da burguesia. Ligada a um fingimento – mas um fingimento conservador, quase violento. Continuar lendo

Lochte, o vilão? Ora, o Brasil tem os próprios mentirosos

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Disputa narrativa durante as Olimpíadas ganhou uma unanimidade; em pleno Golpe do Pato, nadador americano rouba a cena dos que dilaceram há meses nossa democracia

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Cê ta pensando que eu sou Lochte, bicho..
Sou malandro velho, não tenho nada com isso

(Arnaldo Baptista, “Lóki?”, revisitado)

E eis que o nadador americano Ryan Lochte alcança a unanimidade. Nem a judoca brasileira medalhista (Rafaela Silva), nem o francês vice-campeão do salto em altura (Renaud Lavillenie) – ninguém a obtivera. Nem Usain Bolt. Nem Galvão Bueno. Em plenas Olimpíadas, o espetáculo esportivo de mitificações e demonizações tem agora um vilão para chamar de seu. Da mídia brasileira à mídia americana, que o apelidou de “americano feio”.

Mas quem tem medo de Ryan Lochte? Sua traquinagem um tanto limítrofe (apesar dos 32 anos nas costas largas) foi descoberta pela polícia brasileira, ótimo. E? E o que mesmo? Sim, não somos patetas. E temos uma história folclórica, que logo será esquecida. Mesmo assim, ela ganhou um destaque estratosférico, roubando a cena de Simones e Phelps, Neymares e velas, das torcidas pouco fleumáticas e da mais nova higienização promovida pelo poder público no Rio. Continuar lendo

Depois da Lei de Gerson, Brasil tem a Lei de Cristovam

Senador pelo DF inventa a “violência constitucional necessária”; frase para justificar impeachment lembra Jarbas Passarinho; e entra no panteão brasileiro da infâmia

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Quem se lembra do tricampeão Gerson fazendo propaganda de cigarro, nos anos 70? “Eu fumo Vila Rica porque gosto de levar vantagem em tudo, certo? Leve vantagem você também!”

Virou uma lenda. Um código de ética às avessas. Passados os anos, porém, a Lei de Gerson vai se tornando esquecida. Afinal, diante de tanta gente levando vantagem em tudo, seguiríamos culpando… o Gerson? Continuar lendo

Comentários a respeito de José Luiz Penna

O tempo andou mexendo com o presidente do PV, ex-comunista (e compositor da música de Belchior), agora nomeado secretário da Cultura de Geraldo Alckmin

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Saia do meu caminho, eu prefiro andar sozinho
Deixem que eu decida a minha vida
Não preciso que me digam de que lado nasce o sol
Por que bate lá meu coração

Sonho e escrevo em letras grandes (de novo)
Pelos muros do país
João, o tempo andou mexendo com a gente sim

José Luiz Penna assina com Belchior uma das obras-primas do compositor cearense: “Comentários a respeito de John”. Era uma homenagem a John Lennon. Corria o ano de 1979 – um ano antes do assassinato do beatle por um louco de pedra. Continuar lendo

Sobre as regras nos albergues e as pessoas que morrem de frio

Cinco moradores de rua morreram nos últimos dias em SP; tuberculose e rejeição a animais de estimação como fatores de rejeição a abrigos mostram limites do Estado

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Há muito mais coisas entre os albergues e os moradores de rua que o senso comum possa imaginar. Uma das consequências concretas: as pessoas estão morrendo de frio. Em São Paulo, nos últimos dias, foram cinco. Notícia de hoje da Folha mostra que as regras nos albergues afugentam o povo de rua. Entre elas, proibição de casais. Outra, dificuldade para abrigar os animais de estimação.

Mas não só: há o medo da tuberculose. Nada menos que uma das principais causas de morte nos presídios, por exemplo. Todos esses fatores estão listados na reportagem. E mostra que a recusa dos moradores de rua em relação aos abrigos nada tem de capricho. Muito menos de suicida: há os que preferem andar à noite para se aquecer; e, portanto, dormir de dia. Continuar lendo

Resposta ao delegado deputado: somos todos “famosos quem”

Coronel Telhada (PSDB) e Delegado Olim (PP) dão show de truculência na Assembleia Legislativa de SP; o segundo perguntou a quem discordava: “Você é o famoso quem?”

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A sequência inicial do vídeo acima mostra o deputado estadual Coronel Telhada (PSDB) sendo enfrentado por uma das estudantes que ocupam a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. A postura corporal e o tom de voz dele já dizem tudo. O deputado é machão, o deputado é viril, e o deputado diz que vai prendê-la. Por quê? Porque ela está pedindo legitimamente uma CPI para apurar os desvios de merenda no governo paulista? “Sim, é por isso mesmo”, balbucia ele.

Mas eis que surge seu colega Delegado Olim (PP) e consegue deixar o palanque dos parlamentares (não chamemos de picadeiro, em consideração aos profissionais do circo) ainda mais barulhento. “E você, é o famoso quem?”, grita. O deputado chama um homem de louco, invoca a autoridade – vocês-pensam-que-estão-falando-com-quem-aqui – e quase consegue tornar Telhada o deputado bonzinho ao lado do deputado malvado. E repete: “Você é o famoso quem? Aqui quem fala é deputado.”

Pois é isso que os nobres deputados ainda não entenderam. Nós somos todos os Famosos Quem. Continuar lendo

Do roubo de merenda em SP à dentista que fura gengivas de crianças

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Ocupação de secundaristas em SP (Foto: Marco Estrella/ Jornalistas Livres)

Estudantes de Odontologia da USP torturam pacientes para “acalmá-los”; enquanto isso, secundaristas enfrentam corajosamente policiais da Tropa de Choque

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A crise é ética. E está do lado dos mais fortes. O que têm em comum os ladrões de merenda em São Paulo e as estudantes de Odontologia da USP que não veem problemas em furar gengivas de crianças para “acabar com a birra”? Poder, claro. E um profundo desprezo pelos direitos específicos dessas pessoas, como se elas fossem meros objetos, ou números (no consultório ou na dança dos orçamentos públicos).

A história das torturadoras de crianças está circulando pela internet. Não é o caso de colocar o nome delas. Quem sabe o Ministério Público tenha interesse. Um pouco mais do que certas feministas que cobraram sororidade (solidariedade entre mulheres) como motivo para não expor as estudantes. Não é o caso porque não se deve fazer linchamentos virtuais. Nem de homens nem de mulheres. Mas as crianças, sim, essas devem ser protegidas. Continuar lendo