Reitor da USP demoniza “mascarados” para justificar violência da PM

Excessos de alguns manifestantes não podem servir de justificativa para transformar um espaço de moradia (com crianças, deficientes) em uma praça de guerra

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A reitoria da USP divulgou nota sobre os acontecimentos de ontem. Vamos observar atentamente a narrativa, para identificar até onde o reitor Marco Antonio Zago pode ter razão e onde ele perde completamente as estribeiras, a justificar o injustificável. O texto da USP vai em itálico. Em corpo normal, meus comentários. Vejamos:

Reitoria é invadida violentamente por mascarados

“Mascarados”, caro reitor? Eles são estudantes. Isso me lembra o Willian Bonner, em 2013, falando dos “vândalos e baderneiros” das manifestações pelo passe livre. (Zago compõe uma narrativa para identificar os inimigos: os “mascarados”. Assim, qualquer coisa que os estudantes façam ou tenham feito estará errada.) Continuar lendo

Crônicas do Golpe: “A Patada” x “A Patranha”

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Em plena ditadura, redatores brasileiros utilizavam jornal do Tio Patinhas para questionar papel da mídia; na democracia, jornais de verdade perpetuam status quo

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Muito antes da Veja, uma revista decidiu a sorte e a fortuna da editora Abril: chamava-se Pato Donald. Foi com os direitos de reproduzir o gibi da Disney que o italiano Victor Civita começou a erigir seu império de comunicação.

Quac, quac, mil vezes quac! As exclamações suscetíveis do pato fizeram parte de muitas infâncias. E de muita teoria marxista da conspiração. Em 1971, o chileno Ariel Dorfman e o belga Armand Mattelart escreviam um clássico apocalíptico: “Para ler o Pato Donald”. Sobre a ideologia da Disney, portadora das maldades do capitalismo. Mickey era descrito como agente da CIA. Tio Patinhas era o símbolo do sistema, a nadar em seu mar de moedas. Continuar lendo

Fascismo está nas ruas, e a imprensa é artífice ou conivente

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O nome é esse: fascismo. Por que os jornalistas se calam? Por que não pronunciam a palavra exata? Por que não divulgam a escala das agressões e ameaças?

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O nome é esse: fascismo. Por que os jornalistas se calam? Por que não pronunciam a palavra exata? (Eles que não hesitam em chamar alguém de “terrorista”, “vândalo” ou “baderneiro”.) Que cursos de história nunca terão frequentado? Será possível que vamos reproduzir em um regime democrático – cada vez mais enfraquecido – a pusilanimidade que outros tiveram durante regimes autoritários plenamente definidos?

Vejamos: agressões sistemáticas e histéricas a quem vista vermelho, declare-se contra o impeachment ou a favor de um determinado partido ou liderança política. Cenas de perseguição, encurralamento, ameaças, urros. Intolerância brutal a discordâncias, como se viu ontem em relação à decisão do ministro Teori Zavascki. Provocações, como na PUC-SP, na segunda-feira, em plena aliança com forças policiais. Macartismo. Discriminações. Tentativas de linchamento. Continuar lendo

Hipertrofia do debate sobre babá abafa incitação golpista da mídia

Debate à esquerda sobre cena política é atropelado pela era da imagem e pela necessidade de se eleger vilões anônimos; donos do Estadão e da Globo agradecem

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Fato 1: um casal caminha de verde e amarelo com seu cachorro, durante protesto anti Dilma no Rio, ao lado da babá negra (de branco), a conduzir um carrinho com dois bebês. A fotos em rede social viralizam. Fato 2: um dos maiores jornais do país pede “Basta!”, nesse mesmo domingo, com as mesmíssimas palavras do Correio da Manhã no dia 31 de março de 1964. Fazendo coro à torcida explícita da grande imprensa – Globo à Frente – por uma derrubada de governo incitada por gente como Ronaldo Caiado e Jair Bolsonaro.

Qual dos dois fatos motivou desde ontem o grande debate nacional, à esquerda? O primeiro. E o que isso significa? Continuar lendo

“Empresas”, 7, “vítimas”, 1 – uma análise do discurso de Dilma sobre Mariana

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Como Dilma enxerga a tragédia de Mariana? (Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

Pescadores e povos indígenas receberam uma menção cada durante a fala de 21 minutos da presidente; ela celebrou 24 vezes o acordo e não citou a palavra “crime”

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Que palavras a presidente Dilma Rousseff utilizou no discurso que anunciou o polêmico acordo com Samarco, Vale e BHP, na quarta-feira, relativo à catástrofe em Mariana (MG)? “Catástrofe”, por sinal, não foi um termo enunciado. Ela preferiu “tragédia” (5 vezes), “desastre” (8) e “acidente” (1). Mas uma oposição específica sintetiza o espírito do evento: aquela entre “empresas” e “vítimas”. O placar foi de 7 x 1.

Claro que análises de discurso qualitativas são mais do que bem-vindas. Mas essa abordagem quantitativa traz algumas informações no mínimo curiosas. Outras, bastante representativas. Seja pela quantidade de vezes que a palavra foi utilizada – ela enunciou 24 vezes o termo “acordo” -, seja pela absoluta ausência ao longo dos 21 minutos de fala. Por exemplo: Dilma não mencionou a palavra “crime”. Continuar lendo

Estadão diz que MST “invade” fazenda de político; só que a terra é pública

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Jornal utiliza o verbo “invadir”; mas se esquece de informar que as terras ocupadas são públicas; nos anos 50, veículo classificava de criminosos os esbulhos na região

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Utilizemos a própria notícia do Estadão para demonstrar que a notícia do Estadão não tem nenhuma sustentação. Apenas o propósito de defender proprietários de terra que  não são proprietários de terra. E sim senhores que se apropriaram de terras públicas.

Em pauta, a velha utilização do verbo “invadir”. Mas somente quando se trata de movimento social reivindicando seu espaço. Vejamos: “MST invade fazenda de político no extremo oeste paulista“.

Trata-se de Agripino de Lima, ex-prefeito de Presidente Prudente. Um pobre e inocente proprietário de uns nacos de terras, importunado injustamente pelos camponeses? Não exatamente. E é o próprio texto que informa isso: Continuar lendo

Reflexões sobre corrupção “organizada” e “imprópria”

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Pensata de FHC precisa ser mais bem detalhada; reflitamos, então, sobre organicidade e acaso, e sobre as características centrais dessa palavra-fetiche, “corrupção”

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O príncipe Fernando Henrique Cardoso admite que em seu governo a corrupção existia, mas não era “organizada“. À tentação de imaginar a Mancha Verde, a Gaviões da Fiel e a Jovem Fla como símbolos do que seria algo “organizado”, permito-me mais uma vez pesquisar a origem do termo. Ele vem de “orgânico”, “que possui órgãos cujo funcionamento determina a vida”. Desconhecíamos até então essa influência naturalista – biológica – na visão do sociólogo.

O Dicionário Houaiss descreve este sentido para a palavra organizado:

que constitui um conjunto definido, estruturado, fundamentado

E este para a palavra orgânico:

relativo ou pertencente à constituição ou estrutura (de qualquer conjunto, totalidade etc.); caracterizado pelo arranjo sistemático de suas partes; estrutural
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SP: a quem interessam as notícias sobre “depredação” nas escolas?

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EE Fernão Dias Paes, em Pinheiros, na 1ª semana de ocupação (Foto: Alceu Castilho)

Existe risco de alunos que se mobilizaram em SP serem responsabilizados por um problema de segurança pública anterior às ocupações, que foram pacíficas

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Como jornalista, sou a favor da liberdade de expressão e da circulação de informações de interesse público. Se houve algum tipo de destruição em escolas, que isso seja noticiado. Mas com responsabilidade. Não de forma a culpar os estudantes que as ocuparam; muito menos todos os estudantes que ocuparam todas as escolas. Até porque a versão dos alunos é bem diferente. Interessa muito aos derrotados políticos passar à população a ideia de que as ocupações não foram tão pacíficas e politizadas (e artísticas, culturais) como vimos nas últimas semanas.

Vejamos o caso de Osasco, neste sábado. Foi o segundo caso em uma semana. Título no G1: “Osasco registra novo caso de escola estadual depredada“. Subtítulo: “Governo culpa manifestantes por vandalismo na escola Francisca Peralta. Alunos que ocupavam o espaço afirmam que não fizeram depredação”. Atentem a um detalhe: não é que eles somente afirmam que não fizeram depredação. Eles acusam diretamente um grupo de jovens que entrou nas escolas e os ameaçou. Continuar lendo

Estudantes de SP refundam a cidade; Alckmin não é o único derrotado

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A revogação do decreto que fechava 93 escolas comprova que ocupações são um método político legítimo; jornais que falaram em “invasões” também perderam

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O governador Geraldo Alckmin levou um xeque-mate já na primeira semana de ocupações em São Paulo. E demorou a perceber. Mais até do que a presidente Dilma Rousseff levou para perceber a dimensão da catástrofe em Mariana (MG). Os estudantes fizeram uma jogada de mestre. Ocupar as escolas que seriam fechadas levou ao governo estadual a imagem de truculento – que só seria agravada em caso de reintegrações de posse.

Foi uma alternativa aos protestos de rua, precocemente abortados pelos black blocs. Estes foram isolados pelos secundaristas, em frente do Palácio dos Bandeirantes, enquanto tentavam derrubar as grades. O método violento servia para o governo – e para a opinião pública – desqualificar o movimento. Mas a nova geração de adolescentes paulistanos mostrou-se mais madura que os militantes tradicionais. Não desistiu. Reuniu-se em assembleias e conquistou territórios. Continuar lendo

Jornais definem agressões da PM em SP como “confusão”

Lógica de guerra e violência é atenuada por certos títulos e textos; seria um jornalismo impreciso, se não fosse um jornalismo com compromissos políticos

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O vídeo acima mostra a consagração da palavra “confusão” nas chamadas para os filmes da Sessão da Tarde, na Globo. A falta de imaginação do redator acaba nos fazendo rir. O problema maior é quando o jornalismo brasileiro revive o clichê para atenuar um confronto político – ou simplesmente agressões praticadas por policiais militares.

Notícia do G1, na noite de terça-feira (01): “Protesto de estudantes em São Paulo termina em confusão“.

Título no UOL, também na noite de ontem: “Após confusão, quatro são detidos em protesto contra reorganização“. Continuar lendo