Clemente Ganz vê o futuro do movimento sindical

Em meio a contrarreformas e à precarização da vida, trabalhadores precisam de respostas ousadas e criativas. Caminho requererá a territorialização dos sindicatos, uso de novas tecnologias para a organização política e juventude na liderança

A Contrarreforma Trabalhista que, entre outras medidas, desestruturou o sistema de negociação coletiva, que media a relação capital-trabalho por meio de sindicatos e acordos coletivos, e retirou a obrigatoriedade do imposto sindical (e reduziu em até 90% suas arrecadações), pode ter representado o fim de um ciclo do sindicalismo brasileiro – e, talvez, o início de um novo. No entanto, “essa construção leva tempo, exige trabalho continuado, inovativo e de articulação em novas condições de trabalho, que estão cada vez mais atomizadas”, aponta o sociólogo Clemente Ganz Lúcio, diretor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE).

Os trabalhadores não estão mais, necessariamente, reunidos em um mesmo espaço de trabalho, como em fábricas ou sedes empresariais. Quase oito milhões, dos 40 milhões de assalariados no Brasil, trabalham em home-office nesta pandemia – e muitas das empresas pretendem continuar com essa prática, de forma integral ou parcial. Uberização é apenas o começo – em breve, a mediação do trabalho via aplicativos ocupará, cada vez mais, espaço nas atividades e negócios das empresas, dificultando ainda mais a articulação dos sindicatos. “É muito provável que o movimento sindical do futuro seja fortemente estruturado a partir de uma comunicação por aplicativos e com uma organização sindical territorial, organizando os trabalhadores por locais de moradia, por exemplo”, aponta Ganz Lúcio. “Para isso, precisaremos de força política capaz de fazer com que o enorme ganho de produtividade, que nossa capacidade humana de produzir máquinas quase inimaginável, sejam capazes de redistribuir as riquezas para o bem-estar de todos, gerando vida digna e equilíbrio ambiental”.

De acordo com ele, é urgente que a juventude ocupe espaço nos sindicatos, formulando estratégias que respondam às mudanças e aos novos desafios do mundo do trabalho – e não apenas diretorias compostas por sindicalistas que lutaram nos anos 1970/80, com saídas para a crise econômica, ditadura militar e reestruturação produtiva. “Estamos em uma nossa etapa da história econômica – e novas estratégias são necessárias. O sindicato, ou aquilo que lhe suceder, continuará a ser um instrumento de representação coletiva, mas sob novas condições de trabalho, não mais, necessariamente, reunidos em um mesmo prédio, com mesmos horários de entrada, no mesmo portão, tomando os mesmos ônibus, trabalhando no mesmo local. A organização sindical deverá ser repensada para esses novos desafios”, propõe ele. “A agenda é pesada, há um tsunami passando, destruições e derrotas em curso, mas o que a história mostra é que o tsunami passa e nós temos que ter capacidade de, em algum momento, quando ele passar, fazer com que as nossas sementes novamente consigam brotar: uma força política capaz de reverter essa tendência”.

A fala de Clemente está no vídeo acima. A série continua na próxima terça-feira, 23/2. Dari Krein, professor da Unicamp, analisa o “inferno” da “reforma” Trabalhista – e as possíveis saídas à classe trabalhadora.

Marilane Teixeira e o mapa da regressão produtiva

Pochmann vê esquerda atônita e voltada para trás

Danilo Pássaro: resistência à precarização vem das ruas

Belluzzo: saídas para reverter a desindustrialização

Sebastião Neto e as lembranças do Brasil operário

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos

Leia Também: