Anatomia de um erro grosseiro

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“Dilma quis evitar, a todo custo, um segundo turno em que estivessem presentes ela própria e Marina. Empenhou-se em desconstruir, a todo custo, a candidata adversária e em poupar Aécio Neves”

A campanha Dilma queixa-se com razão das ações golpistas de Aécio. Mas quem colocou no segundo turno o candidato das elites?

Por Antonio Martins | Colaborou Graziela Marcheti | Imagem: Henri Cartier-Bresson


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Alguns militantes do PT reagem com indignação ao argumento de que a campanha de Dilma foi despolitizada. Em 9/10, Breno Altman escreveu, na Folha de S.Paulo, que a candidata promoveu “discussão programática implacável, densa e minuciosa”. Teria feito isso ao “apresentar, ponto a ponto, os interesses representados no programa de Marina”, “expor a verdadeira natureza de seus projetos” e “colocar sob o sol (…) ideias e providências que ela desejava manter à sombra”.

Breno confunde politização com estridência, e choque de projetos com agressividade. O ato político essencial da campanha Dilma não foi o tom – de fato, extremamente belicoso – que adotou, mas o objetivo, adversário e estratégia que elegeu. O sentido destas escolhas ficou claro. A presidente quis evitar, a todo custo, um segundo turno em que estivessem presentes ela própria e Marina. Empenhou-se em desconstruir, a todo custo, a candidata adversária e em poupar Aécio Neves. Justificou tal atitude com um argumento que, apesar de precário, foi repetido ad nauseam nas redes sociais. Marina seria a “nova face da direita”. Aécio seria, segundo este raciocínio, o passado e, nas palavras do presidente do PT, Rui Falcão, caminhava para a irrelevância.

TEXTO-MEIO

Não foi difícil desgastar Marina até o ponto de excluí-la do segundo turno. Dilma contou, para isso, com tempo na TV quase seis vezes superior ao da adversária1. Os ataques não se limitaram a questionar o programa da candidata do PSB (sobre estes, se falará em seguida). Apresentaram-na ou como pessoa volúvel, ou como subordinada secretamente ao grande poder econômico. Exploraram vulnerabilidades reais. Convertida em candidata a apenas quarenta dias das eleições, vendo-se subitamente com chances concretas de tornar-se presidente, Marina compôs um arco de alianças vasto e heterogêneo, que descaracterizou seu programa e desgastou o perfil que procurava construir para si mesma.

Mas o resultado final da estratégia dilmista foi o tiro pela culatra que tornou o segundo turno totalmente indefinido. Poupado de ataques, Aécio manteve-se à tona. Buscou amparo e forças no que a política brasileira tem de mais tradicional. Beneficiou-se do financiamento das grandes empresas (sempre generoso e desproporcional a suas intenções de voto), das alianças regionais do PSDB com as velhas oligarquias (nunca submetidas a constrangimento nos noticiários), da eterna proteção da velha mídia. Chegou à disputa final sem alarde ou desgaste, contando essencialmente com o empenho anti-Marina da campanha Dilma.

Mas em torno dele se refez, no instante seguinte e de modo quase automático, a grande coalizão conservadora e seus métodos golpistas. Assim que foi aberto o segundo turno, toda a mídia passou a alardear, como se fosse verdade comprovada, o suposto caso de corrupção na Petrobras. É denúncia feita por um criminoso confesso. Refere-se a práticas que, segundo afirma o próprio denunciante, remontam ao período Sarney e atravessaram os governos de todos os seus sucessores – Collor, FHC, Lula, Dilma. Alguém se surpreende de que sejam despejadas, pela mídia, nas costas do PT, e de ocuparem, a cada dia, um latifúndio de tempo no Jornal Nacional? Em que mundo estavam Dilma e seus estrategistas da campanha, quando tomaram a decisão de desconstruir Marina e ter Aécio como adversário? Em que pensava Lula, quando festejou, logo depois de votar no primeiro turno, a ultrapassagem do tucano sobre a candidata da Rede?

Os limites da política institucional

Se a lógica destes estrategistas fosse presidida por política – e não pelo mero cálculo de marketing eleitoral –, haveria alternativas. Um segundo turno entre Dilma e Marina, livre da sombra da restauração conservadora, produziria um cenário muito distinto do atual – marcado pela troca de acusações pessoais entre os candidatos, por choques ásperos em torno de temas secundários (como a inflação) ou irrelevantes (como os parentes empregados por cada presidenciável…), pela ausência completa de reflexão sobre os avanços do país, seus impasses e os projetos de longo prazo para superá-los.

Ambas as candidaturas expressavam, de alguma maneira, as lutas sociais que marcaram a sociedade brasileira nas últimas quatro décadas. Dilma e o PT encarnam os movimentos sociais nascidos a partir dos anos 1980; a emergência das periferias, no início deste século; as conquistas alcançadas nos governos pós-2002 – redistribuição de renda tímida, porém efetiva e inédita; questionamento, ao menos parcial, dos dogmas impostos pelo Consenso de Washington; papel autônomo do Brasil no cenário internacional. Marina dialoga com a emergência do ambientalismo; a crítica aos velhos padrões de “desenvolvimento” e à noção protocapitalista segundo a qual a natureza deve ser “dominada” pelo ser humano e reduzida a “recurso”. Além disso, recupera ecos dos Fóruns Sociais, das manifestações de junho de 2013, da busca de uma nova democracia.

Estas relações permitiriam aos movimentos cobrar compromissos. Entrariam na berlinda, é claro, o estranho posicionamento de Marina a respeito do “independência” do Banco Central, ou sua atitude hesitante em relação ao Pré-Sal. Dilma, em contrapartida, seria pressionada a responder sobre os empréstimos favorecidos do BNDES aos maiores grupos econômicos (enquanto faltam recursos para financiar a pequena empresa), ou a opção preferencial pelo agronegócio (em prejuízo da reforma agrária). Neste ambiente, não seria estranho se entrassem em debate temas hoje considerados tabu. Que impediria Dilma e Marina de abordarem medidas contra o oligopólio da mídia? Ou a mudança da matriz energética, para favorecer as fontes renováveis? Ou a tributação da riqueza financeira?

Este tipo de debate, contudo, exporia as contradições das duas candidaturas. Por estarem vivas, e imersas numa sociedade em que as velhas estruturas de dominação não foram abaladas, ambas são “impuras”. Marina, é certo, precisou fazer concessões, para manter sua impressionante trajetória política. Ao terminar as eleições de 2010 com vinte milhões de votos, ela percebeu – mais ou menos como Lula, em 1989 – que, nas condições atuais de correlação de forças da sociedade brasileira, não avançaria para outro patamar apoiando-se apenas em seu eleitorado mais politicamente comprometido. No campo programático, procurou respaldo de economistas neoliberais (em especial, Eduardo Gianetti e André Lara Rezende), que lhe conferiram passaporte para o diálogo com o grande capital, especialmente o financeiro. Para continuar a crescer eleitoralmente, procurou consolidar sua ascendência junto ao imenso público evangélico – chegando, para tanto, a agir para suavizar as críticas ao pastor Feliciano. Em busca de diálogo com o mundo institucional, trocou a construção imediata de sua Rede por um compromisso de médio prazo com Eduardo Campos e o PSB, só alterado quando sobreveio uma tragédia imprevisível.

Mas o campo de Dilma não é igualmente contraditório? Tanto na campanha da presidente, quanto na da grande maioria dos parlamentares do PT e seus aliados, estão presentes o dinheiro e a influência dos grandes grupos econômicos. O leque inclui o grande capital industrial – nacional e transnacional – que se beneficia do aumento do consumo interno; os produtores de commodities exportáveis (agronegócio e mineração, especialmente), que surfaram na onda da valorização internacional de bens primários e foram poupados de oferecer à sociedade contrapartidas sociais e ambientais; e as empreiteiras de obras públicas, que voltaram a crescer, quando os dois últimos governos retomaram os investimentos em infraestrutura, depois de décadas de sucateamento, e em habitação. No terreno institucional, o PT optou por construir “governabilidade” sem tensionar o atual sistema político. Tal escolha exigiu alianças com um partido nitidamente fisiológico, o PMDB, e com os velhos caciques do Parlamento, cujas práticas são fartamente conhecidas.

Dilma rejeitou uma estratégia eleitoral que pudesse expor estas contradições. A campanha e o PT poderiam ter dialogado com a ideia de “nova política” enunciada por Marina. Tinham espaço, inclusive, para reivindicar este papel, disputando a bandeira com a adversária e recorrendo à tradição rebelde e mobilizadora que marcou a origem do partido. Nada disso implicava desconstrução. Os confrontos com a adversária, por esta defender a autonomia do Banco Central (BC) e ser evasiva a respeito da exploração do petróleo, eram justos e importantes. Mas não a tentativa de sugerir que a oponente fosse marionete de banqueiros nem, em especial, a caricaturização do debate. A subordinação atual das decisões do BC à presidência da República tem, acaso, colocado o Estado brasileiro a salvo da rapinagem da oligarquia financeira? Não pagamos as taxas de juros mais altas do mundo? Elas serão reduzidas, num eventual segundo mandato? Há intenção de interromper os leilões do Pré-Sal e oferecê-los à Petrobras, como a lei já permite e o governo não tem feito? A empresa continuará obrigada a fortes perdas e descapitalização, para subsidiar o combustível consumido pela classe média? Se a intenção for realmente debater o futuro do país – e não apenas vencer em outubro – estas questões bastante simples deveriam ter sido colocadas na mesa.

Se Dilma e seus estrategistas furtaram-se ao debate político e optaram por desconstruir a adversária é porque, num certo sentido, chegaram a seu limite. Estão muito colonizados pela política tradicional para questioná-la – e questionar, portanto, a si mesmos. Perderam a capacidade de dialogar com fenômenos como Junho, de aceitar a emergência de novas gerações de ativistas, de aceitar que sua visão de esquerda não é a única possível, de dialogar com uma nova cultura política. Seu limite ficou claro na peça emblemática de propaganda eleitoral em que disseram, no início de setembro: “sonhar, a gente sonha sempre; votar é com o pé no chão” ou nos ataques que lançaram a Marina pela “irresponsabilidade” de questionar “os partidos e o Congresso”. Num certo sentido, ao desconstruírem a oponente, desconstruíram também a si mesmos…

1Onze minutos contra dois, nos blocos contínuos transmitidos à tarde e à noite, seis inserções diárias de 30 segundos contra apenas uma, durante a programação normal das emissoras

TEXTO-FIM
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Antonio Martins

Antonio Martins é Editor do Outras Palavras