Contra o retrocesso, o “voto Duvivier”

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Dilma será incapaz de realizar transformações de que país necessita. Mas elegê-la, evitando grande passo atrás, interessa especialmente a quem percebe este limite

Por Antonio Martins | Colaborou Graziela Marcheti


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TEXTO-MEIO

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A polarização estridente e de baixa densidade, que marcou as eleições de 2014, atordoou a esquerda não ligada à candidatura de Dilma. A tensão foi menor no PSOL – onde Marcelo Freixo, Jean Willys, Gilberto Maringoni o outros posicionaram-se, desde o início do segundo turno, anunciando voto crítico em favor de Dilma. Mas agudizou-se entre os que, identificando-se com ideias pós-capitalistas, apoiaram Marina ou simpatizaram com ela. Até a véspera da eleição, continuavam indefinidos intelectuais como Luiz Eduardo Soares e Ricardo Abramavay, artistas como Gilberto Gil e jornalistas como Eliane Brum.

Enquanto isso, jovens pensadores como Bruno Cava e Moysés Pinto Neto, que têm se destacado nas redes sociais por suas análises instigantes sobre o cenário brasileiro, sugerem que votarão nulo em 23 de outubro. Ecoam as inquietações de milhares de ativistas que se identificaram com Junho de 2013. Moysés revela ter votado no PT em diversas ocasiões anteriores, e apoiará Tarso Genro, para o governado gaúcho. Mas pergunta: como votar em Dilma, se ela recusa-se a assumir compromissos com o que as manifestações exigiam – e até mesmo a rever o apoio do governo federal à brutalidade das PMs contra os manifestantes? Bruno, no Rio, assombra-se com entre aliança a presidente e personagens emblemáticos na repressão a Junho: o ex-governador Sérgio Cabral, seu vice e atual candidato Pezão, o prefeito Eduardo Paes. Diante destas atitudes, pensam eles, optar por qualquer dos postulantes que chegaram ao segundo turno seria assumir compromissos inaceitáveis.

Com enorme respeito aos que foram citados, este texto sustenta opinião distinta. O Brasil viverá, a partir de 2015, um período decisivo e possivelmente turbulento. As tensões políticas – que, como apontou Guilherme Boulos, intensificaram-se desde que a economia estancou e tornou-se impossível contentar ricos e pobres – tendem a se acirrar. As possibilidades de reviravoltas bruscas, também. Um governo Dilma será incapaz de articular as grandes transformações de que o Brasil precisará, ainda mais urgentemente, diante dessa conjuntura. Mas será também, por sua própria natureza, contraditório. A eventual vitória de Aécio engendraria uma grande coalizão das forças mais retrógradas. Alinharia o Executivo, a maioria do Congresso, a cúpula do Judiciário e a Velha Mídia, produzindo um ambiente político tão mortiço como o que se vive hoje em São Paulo.

Não se trata, como se viu até aqui, de um “choque de projetos”: assim como Aécio, Dilma também não questiona as estruturas políticas, econômicas e sociais que fazem a sociedade brasileira desigual, injusta e predatória. Mas três aspectos fundamentais, em que as eleições farão enorme diferença, merecem ser observados.

O primeiro diz respeito ao papel do Brasil no mundo. Aqui, parte-se de um retrocesso. O governo Dilma abandonou grande parte da ousadia rebelde que caracterizou seu antecessor. Dirigido por dois chanceleres sombrios, o Itamaray jamais repetiu iniciativas que desconcertaram a geopolítica eurocêntrica – como organizar em Brasília uma Cúpula Sulamericano-Árabe, ou articular uma saída para a disputa entre Estados Unidos e Irã, em torno da energia nuclear. Além disso, flerta recorrentemente com perspectivas regressivas, como um eventual acordo de “livre” comércio entre União Europeia e Mercosul.

Mas são deslizes incomparáveis com a perspectiva de Aécio – submissa aos EUA e à ordem eurocêntrica, avessa a qualquer arranjo geopolítico alternativo, hostil às tentativas de afirmar a independência da América do Sul. O ex-governandaor mineiro sabe: aqui, não encontrará a resistência que barraria medidas como um ataque ao Bolsa-Família, ou ao Mais Médicos. A política externa é assunto acompanhado por muitos poutos poucos, hoje incapaz de mobilizar a sociedade. O presidente tem o privilégio da decisão unipessoal – e ela muda muito…

Pode ter consequências dramáticas e duradouras, não irreversíveis por muito tempo. O esforço pela chamada “Segunda Independência” da América do Sul é um movimento vibrante, porém frágil. Governantes de países como Venezuela, Equador e – principalmente – Argentina, Uruguai e Bolívia não escondem: a ascensão de um governo alinhado aos Estados Unidos, em Brasília, reverteria acordos fundamentais. Além disso, atiçaria as elites locais. O papel estabilizardor que os três últimos governo brasileiros desempenharam em favor de Evo Morales ou Hugo Chávez seria revertido.

No plano dos BRICS, o papel do Brasil é muito menos relevante. China e Índia, ao menos, têm papel geopolítico maior que o nosso – e parecem mais empenhados em questionar a ordem mundial favorável a Washington. Mesmo nesse bloco, porém, um eventual realinhamento pró-EUA de Brasília teria consequências desastrosas, dada a parcialidade orwelliana da mídia internacional. E viria no preciso momento em que a Casa Branca, diminuída política e economicamente, tenta compensar estes declínio nos terrenos militar e de vigilância, abrindo novas frentes de guerra, recusando-se a rever a espionagem sobre a internet, mantendo o terror de Estado por meio do assassinato de oponentes.

O segundo ponto de desalinhamento claro entre as candidaturas é a política econômica – em especial, o vasto guarda-chuvas de assuntos relacionados à riqueza do Pré-Sal. Também aqui, estamos diante de algo decisivo e desconhecido.

O novo governo precisará lidar com a deterioração das contas externas, a desindustrialização da economia, a possível desaceleração da China – grande importadora de nossas matérias-primas. A posição de Dilma é incerta. A presidente anunciou que troará o ministro da Fazenda. Algumas especulações falam na volta de Antonio Palocci, o que seria trágico.

Mas e Aécio? Sua ligação – sempre reafirmada – com Fernando Henrique Cardoso e sua decisão precoce de indicar Armínio Fraga (um mega-especulador) para o ministério da Fazenda não sugerem, não sugerem que retomará o impulso de proteger a oligarquia financeira – e deixar todos os demais ao desabrigo – sempre que surgirem dificuldades no horizonte? A existência de imensas reservas de petróleo não convidará a usá-las em proveito desse setor, desperdiçando-as, sem que resultem em benefício algum para as maiorias?

A terceira grande diferença é a que se refere ao título deste texto, quando alude ao “voto Duvivier” Não tem relação colm as posturas dos candidatos, mas diz respeito a algo de enorme importância: sua base social. Dois comícios – um de Dilma, no Rio (Cinelândia), outro de Aécio em São Paulo (Pinheiros) evidenciaram algo ontem (22/10).

Com Dilma , esteve uma multidão heterogênea e colorida, parte da qual opõe-se, na prática, aos compromissos políticos da candidata. Havia, por exemplo, defensores da democratização das comunicações, da garantia de direitos civis aos casais LGTB, da redução da jornada constitucional de trabalho a 40 horas por semana. Já em São Paulo, havia uma pequena multidão cinzenta, que gritava insistentemente: “Viva a PM”.

* * *

Oito dias antes, o ator e escritor Gregório Duvivier havia manifestado sua singular declaração de voto. Ao fazê-lo, não escondeu certa desesperança. “Não voto feliz em nenhum dos dois candidatos”, disse. Explicou o motivo, em clara referência às misérias do sistema político: “não importa quem ganhe, já começa endividado – e vai quitar a dívida com dinheiro público. Ambos contraíram empréstimos milionários com empreiteiras, bancos, com a Friboi (sim, a Friboi doou a mesma quantia para os dois candidatos -não quis correr riscos) e fizeram acordo com os setores mais reacionários da sociedade. Ambos os governos – não se enganem – vão ser ruralistas, fundamentalistas e corruptos”.

Por essas e outras”, frisou Duvivier, “poderia votar nulo”. Se preferiu não fazê-lo, foi devido ao que vai além do que cada candidatura diz pretender – os grupos sociais que a apoiam e o ambiente que se arma em torno dela. Ao descrever a “onda Aécio” que parecia contagiar o Rio há dez dias, o ator destacou: “Estou voltando para casa a pé, tarde da noite, quando percebo que uma enorme SUV me acompanha – lustrosa, reluzente, cheirando a blindada. (…) Um sujeito põe a cabeça para fora da janela e berra: ” Vaza, PT! Volta pra Cuba!” Foi este clima que fez Duvivier decidir seu voto: “A militância de jipe e os comentaristas de portal não me dão essa opção [de anular o voto]. Se quem defende causas humanitárias e direitos civis é tachado de petista, não me resta outra opção senão aceitar essa pecha”…

A epidemia das SUVs aecistas, no Rio, ou a multidão bradando pela PM, em São Paulo, não são detalhes desimportantes. No cenário de dificuldades econômicas e turbulências internacionais que se conformará logo após as eleições, a eventual vitória do PSDB desencadearia, tudo indica, uma onda regressiva, uma caça às bruxas cujos alvos seriam as principais conquistas políticas e culturais dos últimos anos.

Já a eleição de Dilma – ou seja, o que resultará de um “voto Duvivier”, tão crítico quando seu criador – abrirá, quase imediatamente, pelas próprias contradições que cercam a candidata, uma espécie de “terceiro turno”, uma disputa pelo futuro do país. Nela, terão o espaço o governo, a oposição de direita e também os que, não querendo abrir mão das conquistas dos últimos doze anos, consideram-nas limitadas e insuficientes.

Qual dos dois cenários interessa a quem busca transformar a sociedade brasileira, enfrentar a camisa de força do atual sistema político e a avançar muito além do que o governo Dilma pode oferecer? Qual deles torna mais próxima uma experiência semelhante à do Podemos e mais visível o novo horizonte utópico de que precisamos?

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Antonio Martins

Antonio Martins é Editor do Outras Palavras