Quantas imagens um lago pode refletir?

Documentário O Reflexo do lago mostra que a represa de Tucuruí não projeta apenas um Narciso de concreto. Lá estão os fantasmas do Antropoceno, as queimadas e os dilemas políticos que os “ventos do progressos” tentam apagar

“A natureza à imagem e semelhança do homem é algo terrível, devastador.” São essas palavras, do jornalista e crítico de cinema Adolfo Gomes, que abrem O lago do esquecimento, de Paula Sampaio. Foi esse livro fotográfico que inspirou a escolha estética do filme “O reflexo do lago”, de Fernando Segtowick, que estreou dia 11 de outubro no Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba. O lago a que ambas as obras se referem é o que serve de reservatório para a hidrelétrica de Tucuruí, resultado da inundação de 2875 km² – área um pouco maior que duas cidades de Belém – de terras adjacentes ao rio Tocantins, no estado do Pará. Sua construção, conta Sampaio, se deu fazendo árvores, cidades, animais, modos de vida, sonhos e histórias submergirem nas águas e no esquecimento, afogados pelos delírios de grandeza dos que se dão como tarefa “conquistar a terra, dominar a água, sujeitar a floresta”, como bem lembra o trecho de abertura do documentário. Algumas cenas à frente, uma tomada aérea da monumental hidrelétrica instalada no coração da floresta não deixa dúvidas: a imagem “terrível e devastadora” que se reflete no lago é a de um imenso Narciso com “rosto de concreto”,1 ali debruçado como quem admira a si próprio.

Uma das etimologias possíveis para a palavra grega anthropos é “aquele que tem a face de um homem”. Nada mais apropriado, portanto, do que um rosto de concreto para caracterizar esse agente que, levando a cabo as tarefas enumeradas na abertura do filme, vem provocando uma verdadeira catástrofe ecológica (mas também política, social e existencial), a ponto de ter empurrado o planeta para uma nova época geológica – não à toa batizada de Antropoceno.2 Porém, é de suma importância lembrar que, apesar da pretensão universalista implícita na palavra, há muitos povos na Terra que não se reconhecem como anthropos. De fato, a julgar pela caracterização oferecida pelo xamã Yanomami Davi Kopenawa em A queda do céu, o anthropos parece ser o avatar por meio do qual “homem branco” – aquele que “dorme muito, mas só sonha consigo mesmo” e cujo “pensamento é cheio de esquecimento” – se reconhece.3

Sabemos, porém, o que acontece com Narciso, ao menos na versão mais conhecida do mito, narrada por Ovídio: inebriado por sua própria imagem, ele se esquece de prestar atenção a tudo o que lhe permitia continuar vivo e acaba definhando até a morte. Destino melhor não nos aguarda, já que, no Antropoceno, os ecossistemas que abrigam a vida complexa da Terra e que levaram milhares, até milhões de anos para se formar estão sendo destruídos num piscar de olhos. Em especial a Amazônia é hoje mais que nunca acossada pelo desmatamento, pelo garimpo, pelo avanço da fronteira agropecuária, pela biopirataria e por outras atividades econômicas predatórias que ali têm lugar. Os efeitos combinados dessas ações já vêm provocando mutações ecológicas muitíssimo preocupantes, algumas irreversíveis, situação que é agravada ainda mais pelas mudanças climáticas globais em curso.

Diante dessa catástrofe, aprenderemos a não mais negligenciar os seres e processos de que dependemos para viver? Saberemos redirecionar nosso olhar para as árvores, cidades, animais, modos de vida, sonhos e histórias que os projetos narcisistas do anthropos fazem submergir? Poderemos nos deixar transformar por esses seres e histórias, e saberemos honrar seus fantasmas que ainda nos assombram? O filme de Segtowick, nesse sentido, convida ao exercício de olhar ao redor como forma de resistir às mensagens que nos pedem para esquecer.4

O concreto avança…

Mesmo sem carregar em tintas maniqueístas, “O reflexo do lago” explora de forma muito potente as fricções entre a hidrelétrica e a floresta. A escolha pelo preto e branco torna difícil delimitar uma e outra de forma clara: é como se as nuances de cinza encerrassem a tentativa permanente do concreto de se espalhar pelo resto da paisagem. Em algumas cenas, as árvores, à primeira vista, parecem até esculturas de cimento…

Esse espalhamento do concreto não se dá apenas no espaço, mas também no tempo. A hidrelétrica de Tucuruí foi um projeto gestado e implementado durante a ditadura civil-militar. No entanto, ainda que tenha havido consideráveis diferenças entre as estratégias implantadas por governos de direita e de esquerda no Brasil, por mais ou menos autoritários que fossem, quando o assunto é a dita “exploração do potencial econômico” que serve de pretexto para grandes intervenções extrativistas e megalômanas por ali, o imaginário desenvolvimentista prevalente permite traçar muito mais continuidades que divergências. De Getúlio Vargas a Dilma Rousseff, passando por Médici, Geisel e tantos outros, a Amazônia sempre foi alvo privilegiado da pilhagem de recursos – pilhagem que se tornou ainda mais mortífera sob o governo fascista de Bolsonaro, como é insinuado por uma transição de imagens espetacular, já quase no fim do filme.

De fato, o histórico das intervenções econômicas na região, como o próprio Vargas admite no já mencionado trecho que abre o documentário, as insere numa “luta” – mais certo seria dizer numa tradição genocida e ecocida – “que se estende por séculos”, na qual os conquistadores têm obtido “vitória sobre vitória”. A frase soa como uma inversão da perspectiva de Walter Benjamin em suas famosas Teses sobre o conceito de história: se vivo fosse, o filósofo poderia encontrar na Amazônia uma demonstração muito clara de que “[o] inimigo não tem cessado de vencer”5. Ou ao menos isso é o que o inimigo pensa; em “O reflexo do lago”, vemos que a história não é bem assim.

A continuidade entre os projetos de exploração da Amazônia é marcada no filme de forma muito contundente: em primeiro lugar, a semelhança no teor dos discursos de Vargas e Bolsonaro traça uma espécie de arco que conecta o início e o final da narrativa. Ainda mais impressionante é a sobreposição das imagens do lago com as do incêndio: dois procedimentos distintos, mas intimamente relacionados, de aniquilação da floresta.

Artes de perceber

Talvez o que mais tenha me encantado em “O reflexo do lago” seja a sutileza e o cuidado com que a tensão entre hidrelétrica e floresta é abordada. Sem dúvida, o anthropos cujo rosto de concreto reflete no lago, e cujos ventos do progresso o impelem a destruir e esquecer, se faz presente o tempo todo: nas inúmeras imagens da imponente construção que barra o rio e cria o lago, cujo gigantismo parece querer rivalizar com o da própria floresta. Nos relatos dos moradores sobre as promessas não cumpridas, os direitos violados, o sentimento de desterro causado pelas remoções e o abandono pelo poder público, problemas que são a regra em megaprojetos como os da hidrelétrica. No depoimento contundente do jornalista Lúcio Flávio, que evidencia que toda aniquilação da diversidade ecológica é também aniquilação da diversidade política. Nas sequências que mostram as paisagens de algumas das 1.100 ilhas formadas pelo represamento, que provocam uma certa desolação quando pensamos nas espécies que foram apartadas daqueles ecossistemas. Aliás, a aparição de animais no filme é mínima, se reduzindo a um pato, pequenos insetos, alguns pássaros (dos quais só ouvimos o canto) e um cachorro. De uma forma geral, vemos a imagem do anthropos refletida na imensidão de uma floresta desmatada e de um lago esvaziado de vida.

No entanto, o filme não se esforça em definir seu rosto com absoluta precisão. Diferentemente do que tem sido a tônica em documentários com temática socioambiental, “O reflexo do lago” não faz uso de imagens propositalmente chocantes, não exibe dados alarmantes, tampouco lança mão de discursos panfletários; e essa, me parece, é uma escolha política muito feliz. Isso porque, suspeito, obras que se pautam sobretudo pela “denúncia”, cujas narrativas estabelecem de forma peremptória vítimas e culpados e que fazem por nós todo o trabalho de imaginar, especular e estabelecer causas e consequências podem acabar, paradoxalmente, não suscitando o engajamento desejado – ou gerar apenas um engajamento momentâneo, motivado em grande parte por culpa, ódio ou ressentimento. Ao contrário, o filme de Segtowick mobiliza de forma exemplar aquilo que o filósofo Bruno Latour define como a principal potência da obra de arte: a capacidade de nos engajar em suas muitas dobras, de nos emaranhar na sua trajetória, a ponto de não sabermos distinguir se é o artista ou a audiência que a produz.6 Há uma imensa força política nesse chamado à complementação da narrativa pelo espectador, pois exige dele uma postura ativa e inventiva que o incita a construir junto a experiência da qual participa.

Essa decisão política demonstra também um grande respeito pelo território retratado: como disse o montador Frederico Benevides numa conversa recente sobre o filme, a preocupação que orientou a equipe foi a de desaprender para não supor que já se sabia o que poderia ser dito.7 Nesse sentido, o documentário põe em prática, de forma magnífica, aquilo que a antropóloga Anna Tsing chama de “artes de perceber” (arts of noticing). Entendo tais artes como dizendo respeito a duas posturas complementares. Em primeiro lugar, tratam-se de práticas direcionadas a desacelerar conclusões, abrindo espaço para que outros sentidos, ideias e percepções se façam presentes. Isso é propiciado, por exemplo, pelas longas tomadas sem “função” ou sentido evidentes que permeiam o filme, pela forma generosa, não moralista e não exotizante, como os personagens são retratados, mas também pelas aparições do diretor, da equipe e dos materiais de filmagem: o tempo todo somos lembrados de que as imagens e discursos estão sendo construídos uns com os outros, e que não há moral da história definida.

Em segundo lugar, liberados da pressa por conclusões, ficamos mais propensos a notar o que persiste nas ruínas das paisagens devastadas. Há sim uma melancolia, mesmo luto, ligados aos seres aniquilados, sonhos destruídos e histórias interrompidas pela instalação da hidrelétrica, mas há também as tardes tranquilas, as festas animadas, as histórias de amor duradouro; sociabilidades recompostas, ecologias regeneradas, vidas seguindo seu curso. O filme não deixa nossa atenção ser monopolizada pela antinomia anthropos/natureza, fazendo dos elementos do lago e de seu ecossistema agentes centrais na narrativa e resgatando também a memória dos seres e histórias antes relegados ao esquecimento.

Ao desacelerarmos o passo, percebemos que há sempre muitas histórias dentro de uma história, e que mesmo as explicações mais sistematizadas dão margem ao improvável e imprevisível. Ser capaz de notar os afluxos de histórias que persistem onde um olhar apressado só veria destruição abre caminhos para possibilidades políticas surpreendentes, não determinadas pela nostalgia ou pelo desespero. Em suma, tornamo-nos capazes de “olhar em volta para perceber esse estranho mundo novo, e podemos expandir nossa imaginação para captar seus contornos”.8 “O reflexo do lago”, nesse sentido, nos convida a atentar para a vida que persiste e resiste nos cruzamentos entre trajetórias humanas e não humanas parasitadas pelo desenvolvimentismo incurável das forças políticas e econômicas.

Fantasmas

Entre os protagonistas humanos e não humanos do filme, as árvores parecem ocupar um lugar de destaque. Logo nos primeiros minutos, ouvimos Segtowick comentar que a primeira coisa que gostaria de fazer seria filmar uma castanheira. “Tem castanheira ainda?”, pergunta seu interlocutor.

A resposta chega algum tempo depois, na cena que considero a mais impactante de todo o filme: não uma, mas muitas castanheiras mortas, secas, fossilizadas junto a um sem número de troncos no mesmo estado. Um verdadeiro cemitério de árvores espalhadas ao longo de um trecho do lago. Seus troncos retorcidos e quebrados se assemelham a braços erguidos pedindo socorro – uma imagem de massacre que irrompe na aparente placidez do lago, a lembrança mais visível dos mundos asfixiados pela hidrelétrica, os fantasmas dos afogados clamando por justiça. Sobre essas árvores, Segtowick conta numa entrevista:

“Elas são como guardiãs dessa floresta inundada, como fantasmas que nos observam e nos assombram. Quando a gente olha para elas fica imaginando quantos animais habitavam ali, quanto conhecimento e biodiversidade se perdeu com a construção daquela barragem. Eu me preocupo muito com iniciativas de revisionismo histórico de parte dos brasileiros. Quando me perguntam por que não fiz um filme sobre a hidrelétrica de Belo Monte, que é mais recente, digo que a gente não entendeu nada com o exemplo de Tucuruí. É uma forma de voltar no tempo para tentar entender o presente”.9

Tsing e outros colegas antropólogos chamam de fantasmas do Antropoceno os “vestígios e sinais de formas de vida do passado ainda carregados no presente”. Para eles, todo arranjo ecológico carrega consigo os traços da história que o constituiu; para reconhecê-los, é precisamos treinar o olhar. Fantasmas, assim, são uma espécie de portal temporal por meio do qual múltiplos passados se atualizam, fazendo com que as histórias esquecidas/submersas passem a assombrar o presente e, quem sabe, influenciar o futuro. Como no conto New Atlantis, de Ursula Le Guin,10 em que irrompem no presente os sinais de uma civilização (antiga?) que emerge das profundezas do oceano:

“Mas no escuro agora estão surgindo outras luzes, muitas delas: lâmpadas, pontos, fileiras, cintilações – algumas próximas, outras distantes. Como as estrelas, sim, mas não são estrelas. Não são as grandes Existências que estamos vendo, mas apenas as pequenas vidas”.11

Outros olhares?

Ao direcionarmos o olhar para as trajetórias humanas e não humanas que povoam e assombram a Amazônia, que outras imagens o lago pode refletir? Que outros olhares sobre a floresta, seus habitantes e suas histórias podem surgir? O que muda quando, onde antes só parecia haver destruição, percebemos os rearranjos das vidas que persistem? Quantas possibilidades de ação e resistência se abrem se, em vez de apenas um rosto de concreto, vemos refletidas no lago as imagens dos seres de que dependemos para existir?

Diante da ofensiva orquestrada contra a Amazônia e seus povos, a qual não deixa de se inserir num contexto mais amplo de catástrofe socioambiental, é difícil resistir à tentação de recorrer à denúncia como estratégia política central. Mas “O reflexo do lago” mostra de forma primorosa a potência que reside em desacelerar conclusões e deixar que as imagens e os discursos se combinem de maneiras imprevistas: o filme se torna muitos filmes, e o/a espectador/a se torna um/a aliado/a na produção da narrativa. Recusar um didatismo adestrador abre espaço para uma forma muito especial de política. Mais que problemas a denunciar, o filme mobiliza questões que convidam a pensar e sentir diferentemente, o que abre espaço para que outros elementos se agreguem, para que novos possíveis sejam vislumbrados.

É dessa forma que “O reflexo do lago” se situa de forma muito feliz entre a melancolia e a esperança, encontrando beleza e leveza onde muitos só veriam desalento e aniquilação. E isso não é pouca coisa: como afirma a filósofa Donna Haraway, no Antropoceno precisamos mais que nunca manter nossas histórias “abertas e ávidas por conexões inesperadas, novas ou antigas”12, recusando as narrativas (utópicas ou distópicas) que bloqueiam a inventividade política. Essa é a única maneira de recuperar nossa capacidade de intervir no presente.


1 http://paulasampaio.com.br/projetos/lago-do-esquecimento/

2 https://piseagrama.org/o-antropoceno/

3 Davi Kopenawa; Bruce Albert. A queda do céu: Palavras de um xamã yanomami. Tradução de Beatriz Perrone-Moisés. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p. 390; 410.

4 Anna Tsing, Heather Swanson, Elaine Gan e Nils Bubandt (eds). Arts of Living in a Damaged Planet: Ghosts and Monsters of the Anthropocene (Minneapolis, London: University of Minnesota Press, 2017, p. G1.

5 Walter Benjamin. “Sobre o conceito da História”. Em: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Tradução de Sergio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1987. 3a ed., p. 225. (Obras escolhidas – Vol. I)

6 Bruno Latour. An Inquiry into Modes of Existance: an anthropology of the moderns. Trad. Catherine Porter. Cambridge, London: Harvard University Press, 2013, p. 242.

7 https://www.youtube.com/watch?v=R-Vo-hGnCuY, por volta de 10’15”.

8 Anna Tsing, Arts of living, p. 3-4.

9 https://oglobo.globo.com/cultura/festival-de-berlim-filme-brasileiro-narra-impacto-da-hidreletrica-tucurui-na-vida-de-centenas-de-ilheus-24269997

10 Provavelmente a primeira ficção científica a mencionar o aquecimento global, diga-se de passagem.

11 Ursula Le Guin, “New Atlantis”. Em: Isaac Asimov, Martin Harry Greenberg; Charles G. Waugh. Catastrophes! New York: Fawcett Crest, 1981, p. 199, tradução minha.

12 Donna Haraway, Staying with the Trouble: Making Kin in the Chthulhucene. Durham and London: Duke University Press, 2016, p. 101.

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