Tartarugas marinhas, GPS e o antropoceno

Ameaçadas de extinção, elas possuem inteligência espacial prodigiosa. Há milhões de anos antes dos humanos, elas guiam-se pelo sol e estão sempre atentas às novas rotas do presente. O que este animal pode ensinar sobre natureza e mobilidade?

A teoria da seleção natural, conforme descrita pelo biólogo inglês Charles Darwin no século XIX, afirma que o aparecimento e a evolução das plantas e animais que hoje são mais familiares ocorreram há 550 milhões de anos, quando surgiram os invertebrados marinhos – seguidos dos peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos, respectivamente.

Há 220 milhões de anos surgiram as primeiras tartarugas do planeta. Os quelônios surgiram derivados de ancestrais terrestres e passavam a maior parte do tempo na água. A característica principal entre todos os tipos de tartarugas (da terra e do mar) é o casco protetor, formado pela fusão de costelas e vértebras e coberto por placas de queratina.

Mas alguns milhares de anos depois, há 150 milhões de anos, os vertebrados terrestres daquela era, incluindo as tartarugas e suas centenas de ovos, passaram a estar na base alimentar dos seus maiores predadores terrestres: os dinossauros. Nesse mesmo período, a deriva dos continentes começava. Os blocos separaram-se geograficamente e há 110 milhões atrás de anos surgiram as primeiras tartarugas marinhas (cheloniidae).

Na escala das eras biológicas, o ancestral das espécies que conhecemos hoje surgiu na água, cresceu na terra e retornou em bando para água quando a terra se tornou um perigo, um intervalo de estimados 110 milhões de anos de migrações entre os dois ambientes. Uma série de mudanças no clima da Terra provocou a extinção em massa dos dinossauros há 65 milhões de anos.

Neste contexto arqueológico, as tartarugas marinhas, preparadas para resistir, sobreviveram à extinção dos seus maiores predadores, evoluindo em diferentes espécies, adaptadas conforme a geomorfologia do habitat que adotavam, sobretudo nas zonas de oceanos e praias tropicais.

A ameaça antrópica nos trópicos

Supõe-se que os humanos alimentam-se das tartarugas marinhas desde a pré-história, iniciada no período Paleolítico Inferior, há 2,5 milhões de anos, quando seus ancestrais começaram a fabricar os primeiros utensílios técnicos. Há 40 mil anos, a Arqueologia estima a chegada de grupos migrantes de humanos à atual América. Imagina-se que povos originários ao longo do atual litoral coletavam os ovos e caçavam as tartarugas durante o ciclo natural de desova, sobretudo por serem de locomoção veloz na água e lenta na terra, território de domínio humano desde então.

A maior ameaça desde os dinossauros para a vida da tartaruga no planeta é a atividade das navegações do humano, no primeiro período da globalização. Ao longo do século XV e XVII, a relação homem e tartaruga marinha passou a representar o risco para as espécies. Na América, a chegada dos colonizadores de Portugal e Espanha transformou a tartaruga marinha viva em valiosa mercadoria de comércio: fonte de alimento para uma tripulação inteira, mantendo-as vivas nos porões dos navios, os grumetes garantiam na alimentação diária a proteína e a gordura animal, que eram raras durante as viagens transoceânicas de dietas pouco calóricas.

Com o advento da industrialização, entre os séculos XIX e XX, além da perda de habitat para alimentação e reprodução, a pesca predatória também acelerou o processo de redução destas tartarugas em todo o mundo. Após 220 milhões de anos habitando os oceanos, apenas 400 anos de exploração humana foi o suficiente para que os quelônios marinhos passassem a correr risco de “desaparecer completamente”, segundo dados do projeto Tamar.

A extinção das tartarugas marinhas é um reflexo da globalização. Ora, mas quais as relações entre as tartarugas marinhas, o ser humano e o GPS? A resposta talvez esteja na relação paradoxal entre a “velocidade da resistência” da tartaruga marinha e a “velocidade da existência” do ser humano: o GPS é a materialização do sonho humano de ser um “animal racional”, mais perfeito que a própria natureza, um nítido reflexo que se forma no espelho do antropoceno, uma era marcada pela aceleração humana na Terra.

Sexto sentido e o GPS

O ser humano utiliza o Sol para medir o espaço há 2.300 anos, com Eratóstenes, considerado “pai da Geografia”. Já as tartarugas marinhas utilizam o Sol para medir o espaço há cerca de 100 milhões de anos: 50 mil vezes mais. Essas resistentes espécies tropicais e subtropicais se comunicam com o espaço a partir da observação da posição nascente do Sol, como uma “bússola interior” que indica a direção da navegação a cada despertar.

De acordo com resultados de experimentos científicos do japonês Takahiro Shimada, que capturaram algumas tartarugas e implantaram transmissores de GPS de alta precisão, os animais foram distanciados propositalmente algumas milhas das suas rotas para observar os comportamentos em comum entre o grupo estudado na volta para a sua rota no mar.

Com essa pesquisa, foi atestado que ao longo do seu ciclo de existência, entre as migrações pelos oceanos, que estas tartarugas, por instinto, não esquecem o seu passado – da sua pertença – e estão sempre atentas para a rota do presente – da sua presença. De certo que os seres humanos não possuem essa capacidade de inteligência espacial superior em relação a todos os seres vivos.

O “sexto sentido” das tartarugas marinhas é real, no entanto aqui serve como uma metáfora para refletirmos e respondermos algumas questões-chave do antropoceno.

Até que ponto, de fato, nos comunicamos com o espaço utilizando o GPS e os mapas? Até que ponto, de fato, nos comunicamos com as paisagens que nos sentimos pertencidos ou não pertencidos?

Talvez as respostas, assim como as rotas das tartarugas, estejam na íntima relação entre a memória sensorial de cada ser humano da Terra e as paisagens coletivizadas. A “incógnita sensorial” do antropoceno parece estar entre a autonomia do GPS para mobilidade e a autoridade do habitante de um território sobre as transformações, manutenções ou conservações dos espaços habitados.

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