E se a internet deixar de ser capitalista?

Em alternativa a sistemas como Uber e AirBnb, duas ideias: plataformas de Cooperativismo Digital; e uso da rede para controle social sobre finanças e poder

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Em alternativa a sistemas como Uber e AirBnb, crescem duas ideias: as plataformas de Cooperativismo Digital; e o uso da rede para controle social sobre as finanças e o poder. Por que isso tem muito a ver com o Brasil?

Por Rafael Zanatta

O ensaio inicial desta coluna, Para subverter o capitalismo de compartilhamento, defendeu a tese de que as tendências neoliberais das economias digitais – baseadas no discurso do indivíduo consumidor, na prioridade do acesso, nas vantagens dos usos eficientes de recursos mediados por plataformas e na monetização dos afetos – estão sendo combatidas por alternativas que retomam o significado relacional do compartilhamento e da tradição cooperativa e solidária.

Um dos projetos mais importantes nessa tradição alternativa é o platform cooperativism lançado nos Estados Unidos no ano passado, um projeto de reconstrução das economias digitais em bases democráticas e solidárias. Pretendo explicar nesse texto o significado do “cooperativismo de plataforma” e sua importância para o Brasil hoje.

Uma reação contra Uber e AirBnb

A origem do termo “cooperativismo de plataforma” está em um ensaio do professor e ativista Trebor Scholz, da The New School – um tradicional centro intelectual de esquerda nos EUA, por onde passaram John Dewey, Franz Boas e Hannah Arendt –, intitulado Platform Cooperativism v. The Sharing Economy.

Nesse ensaio, Trebor analisa as transformações do capitalismo digital e a ascensão do “capitalismo de plataforma” avançado pela Uber, AirBnb e outras plataformas mundialmente conhecidas. Seu argumento inicial é que tais empresas utilizam o termo “economia do compartilhamento” para uma agenda extrativista, direcionada à monetização de serviços prestados entre indivíduos em escala global. Além disso, segundo Scholz, essas empresas se estruturam como multinacionais tradicionais, com alto grau de verticalização, opressão dos “funcionários” de baixa escala (os “usuários”) e conselhos de administração voltados à maximização do retorno de investidores capitalistas.

Por trás do discurso do “compartilhamento” se esconde uma agenda de concentração de riqueza, precarização do trabalho, destituição de direitos trabalhistas e altos retornos para o setor financeiro que “banca” tais plataformas globais. É o que ele chama de “capitalismo de plataforma”.

Mas, para Trebor e outros críticos, seria possível hackear esse sistema. A proposta do “cooperativismo de plataforma” é que a estrutura e a lógica das plataformas de serviços e de produção sejam tomadas pelos usuários e trabalhadores.

A ideia, lançada em 2014, seria criar uma espécie de Uber dos próprios motoristas, ou um AirBnb de propriedade de uma comunidade local. Nesse programa econômico e político, é imperativo um retorno aos princípios do cooperativismo: a propriedade deve ser coletiva, o negócio deve ser democraticamente controlado, a missão deve ser garantir empregos e a solidariedade deve embasar mecanismos de apoio mútuo.

Um seminário que inaugura um projeto político

O ensaio sobre “cooperativismo de plataforma” chamou atenção de vários grupos e ativistas nos EUA. Logo após sua publicação, o jornalista e ativista Nathan Schneider se prontificou a organizar um grande seminário sobre o tema juntamente com Trebor Scholz no ano de 2015.

O conceito também invadiu a agenda progressista estadunidense no ano passado. No ensaio coletivo Five Ways to Take Back the Tech, publicado em maio do ano passado no The Nation, Janelle Orsi, Frank Pasquele e Nathan Schneider discutiram exemplos concretos de cooperativismo digital, como o FairCoop e sistemas de trocas baseados em moedas criptografadas e códigos abertos. Os diferentes ensaios reforçaram a agenda de alternativas para a economia digital, colocando “controle real e propriedade nas mãos dos usuários”.

A proposta reverberou no próprio ecossistema de cooperativas dos EUA, apesar de alguns discordâncias. Como afirmou um criador de uma plataforma cooperativa de mídia, “nós não estamos tomando nada de ninguém, mas simplesmente construindo algo com valor a partir de um empreendimento de propriedade compartilhada”. O segredo, portanto, reside aí: a propriedade é compartilhada; as decisões são compartilhadas e não apenas o “objeto de consumo” – uma ideia frontalmente oposta ao modelo privatista de grande parte do Vale do Silício.

Em novembro de 2015, Scholz conseguiu reunir dezenas de ativistas, intelectuais e cooperados no evento Platform Cooperativism. O seminário consolidou o projeto do “cooperativismo de plataforma” por meio de uma ampla discussão sobre “ecossistemas alternativos”, substituição do “acesso” pela “propriedade”, e crítica ao “solucionismo tecnológico” (nos termos de Evgeny Morozov). Como afirmou o próprio Schneider na palestra da abertura, “o cooperativismo de plataforma não é uma solução, mas um processo”.

Desde o evento, o projeto tem se expandido e ganhado força nos EUA. Trebor Scholz publicou uma versão expandida do ensaio pela Fundação Rosa Luxemburgo, Schneider organizou listas e comunidades online sobre o tema, e cooperados criaram uma “rede de cooperativas digitais” para troca de informações.

Cooperativismo digital: três desafios para o Brasil

O Brasil é um país com uma forte cultura de cooperativismo, especialmente no setor produtivo rural. Segundo relatório recente da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), são mais de 6.500 cooperativas no país, reunindo 13 milhões de cooperados – mais que a população de Áustria e Noruega juntos. Indiretamente, o número de envolvidos chega a 33 milhões, segundo dados da FEA/USP.

O primeiro desafio para avançar o “cooperativismo de plataforma” no país, portanto, é transportar essa cultura cooperativista para o universo da produção imaterial e tecnológica. O cooperativismo é, como afirma a OCB, “uma alternativa de inclusão produtiva e de transformação da vida das pessoas”. Porém o Brasil não promoveu ainda uma discussão robusta sobre cooperativismo digital. É sintomático, aliás, que das treze categorias de atividades econômicas de cooperativas no Brasil não exista a categoria “tecnologia” ou “cooperativas digitais”. Os setores de agropecuária, crédito e transporte dominam o cooperativismo no país.

O segundo desafio é tornar essa possibilidade mais visível, por meio de circulação mais intensa de ideias e projetos de democratização da economia na Internet. Há esforços isolados, como do Partido Pirata, de divulgar tecnologias de blockchain e o projeto de “cooperativismo de plataforma”. Mas precisamos de mais iniciativas e mais grupos nessa agenda. Nesse sentido, a iniciativa da Fundação Rosa Luxemburgo de discutir “economia solidária” e novas tecnologias é louvável e mais do que necessária.

Por fim, o terceiro desafio é incluir a questão da produção econômica democrática dentro da agenda de ativismo digital no Brasil. Nosso país é admirado mundo afora pela força dos ativistas e da sociedade civil na construção do Marco Civil da Internet. Os brasileiros também são admirados pelo combate ao vigilantismo e grandes eventos de ativismo como a CriptoRave. Mas a questão de uma “economia democrática digital” não entrou na agenda do cyberativismo.

As coisas não podem estar descoladas – e não estão. Cooperativas de plataforma não são somente alternativas a grandes empresas com Uber e AirBnb, mas são também estratégias de maior controle sobre transações financeiras e sobre os dados pessoais, na medida em que os usuários são os proprietários e gestores dessas plataformas.

A democratização das formas de produção também implica em empoderamento dos usuários e maior capacidade de decisão sobre os fluxos de dados e tecnologias de privacidade. Aí reside a conexão entre o “cooperativismo de plataforma” e a luta por direitos tão vigorosa no Brasil.

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8 comentários para "E se a internet deixar de ser capitalista?"

  1. Texto bastante interessante. A partir dele, eu acessei o sítio do autor que vale muito a pena ser acessado.
    Eu gostaria de compartilhar também uma atividade na mesma linha que eu estou iniciando chamada Commons University Association: http://commons-uni.weebly.com/ que visa enfrentar a privatização do conhecimento
    Eu moro na Finlândia e estou procurando pessoas para iniciar um projeto em paralelo no Brasil. Quem se interessar, entre em contato comigo.
    E parabéns Rafael pelo excelente trabalho.

  2. Pepe disse:

    Primeiro,devemos saber quem esta por detras de Uber………?
    Nem mais nem menos que Gooldman & Such, que enviam os lucros para Holanda e logo,para ,paraisos fiscais……….por que nao se faz nada?

  3. TUDO DEPENDE DE NÓS
    O pensamento é energia que irradia por todo nosso corpo físico. É como uma usina distribuindo energia pela cidade a fora. Portanto, nós somos o que pensamos. Através do pensamento podemos trazer para nós, tanto a saúde como a enfermidade, dependendo da qualidade do pensamento, que são as energias boas ou más com que envolvemos nosso físico.
    Assim entendemos que tudo depende de nós. Toda enfermidade do corpo inicia-se na mente, a região do pensamento. Por ser a mente a região onde o pensamento atua, e o pensamento pertencendo ao espírito, dizemos que a enfermidade inicia no espírito, transmitindo-se ao corpo. É assim que se diz mente sã corpo são.
    O cérebro é o órgão onde o pensamento atua. E sendo o espírito que pensa automaticamente ele espírito está mais ligado ao cérebro, irradiando por todo físico. Portanto, o pensamento é a força eletromagnética do espírito. É assim que dizemos que o pensamento é a maior força que possuímos. É assim que em todas nossas realizações é o espírito que pensa primeiro, para depois o corpo que é a ferramenta, ou seja, o instrumento de trabalho do espírito que realiza o trabalho material.
    É assim que vamos gradativamente adquirindo nossa evolução individual ou coletiva em nosso planeta Terra. Depois que realizarmos todo trabalho necessário a nossa evolução aqui, passaremos para outros mundos realizando o progresso, que se faz necessário ali, a fim de atingirmos nossa evolução espiritual. Foi por isso que Jesus nos disse, na Casa de meu Pai há muitas moradas de acordo com o grau de evolução de cada filho seu.
    Dessa forma ele também nos disse nada se perde na Casa de meu Pai e todos retardatários terão novas oportunidades. É como o aluno repetente na escola que se submete a nova prova, até atingir o grau supremo, afim de que todos um dia poderemos estar com Ele na eternidade, foi assim que Jesus nos disse eu vou preparar-lhes o lugar, afim de que onde eu estiver todos vocês possam estar também!
    Que Jesus nos abençoe hoje e sempre.
    Graças a Deus.
    FORMATAÇÃO E PESQUISA: MILTER -27-03-2016 – ADDE

  4. VOCÊ JÁ SE DEU CONTA DE QUE DEUS NÃO TEM PRESSA?
    A pressa é um dos maiores males dos tempos modernos. É como se a Humanidade desejasse acelerar os acontecimentos num período de tempo muito curto.
    E a educação das nossas crianças não foge à regra.
    Quando nosso filho procede com infantilidade aos cinco anos de idade, por exemplo, dizemos: Por que não se comporta como um homenzinho?
    Qualquer pessoa sensata sabe que ele não é um homenzinho. Mas queremos que a criança aja como adulto, não porque seja bom para ela, mas porque é conveniente para nós. Talvez não porque achemos isso certo, mas porque estamos impacientes.
    Roubamos os nossos filhos quando os fazemos atravessar às pressas a infância. Também a nós logramos porque perdemos a oportunidade de nos deixar contagiar pela sua inocência, sua curiosidade espontânea, sua admiração natural, sua alegria sem restrições.
    Muitas vezes, a nossa impaciência impede o desenvolvimento de grandes inteligências e de grandes almas, porque esquecemos de que a assimilação do bem é um processo lento.
    Certa vez, um pai perguntou ao Diretor de uma Universidade se o Currículo Escolar não poderia ser simplificado para que seu filho pudesse ir por um caminho mais curto.
    Sem dúvida, respondeu o educador. Tudo depende, porém, do que o senhor queira fazer do seu filho. Quando Deus quer fazer um carvalho, por exemplo, leva cem anos. Quando quer fazer uma abóbora, precisa apenas de três meses.
    É comum nos esquecermos de que as engrenagens das nossas vidas estão interligadas com as do Criador. Assim sendo, como os dentes das engrenagens dos planos de Deus são mais fortes do que os das nossas, quando aceleramos mais que Deus, as nossas se quebram. E por essa razão, cansamo-nos, despedaçamo-nos.
    A natureza nos oferece muitas indicações de que o nosso ritmo alucinado não é normal.
    Quando saímos dos lugares superlotados, fugimos dos horários e andamos por entre as árvores que crescem devagar e as montanhas silenciosas que parecem estar sempre tranquilas, absorvemos um pouco da serenidade e da calma da natureza.
    No entanto, não devemos confundir paciência com passividade, inércia, e esperar que tudo seja feito por nós. Paciência é determinação de começar cedo a empregar o tempo para realizar coisas úteis.
    A melhor ilustração de tudo isso pode ser o caso da menina que disse à mãe, logo depois que uma senhora de cabelos brancos saiu de sua casa: Se eu pudesse ser uma velha assim, tão simpática e tão boazinha, não me importaria de envelhecer.
    Está muito bem, respondeu a mãe. Se você quer ser uma velha assim, convém começar desde já, pois ela não ficou assim às pressas.
    * * *
    O Sol leva todo o tempo que lhe é necessário para nascer e se pôr. Não é possível apressá-lo.
    O gelo no lago se derreterá quando a temperatura do ar for apropriada.
    As aves migratórias chegarão e partirão quando estiverem prontas para isso.
    Até as invenções, sobre as quais o homem aparentemente exerce absoluto controle, só chegam no tempo próprio, quando a oportunidade amadureceu e a cultura está pronta para recebê-las.
    Uma vez mais o Mestre de Nazaré tinha razão ao dizer: Primeiro a erva, depois a espiga, e, por último, o grão cheio na espiga.
    Quis com isso dizer que tudo vem a seu tempo, sem pressa nem desespero.
    Pensemos nisso!
    Redação do Momento Espírita
    FORMATAÇÃO E PESQUISA: MILTER -03/04/2016
    A D D E

  5. Rafael,
    Seu texto me fez ver com outros olhos o “cooperativismo digital”. Pensar sobre as Redes de Cooperativas digitais como fomentadoras do Cooperativismo de Plataforma, na qual não é só o “objeto de consumo partilhado”, mas sim a propriedade e as decisões me fizeram atentar para elementos que estavam me passando despercebidos. Creio que as universidades precisam estar mais conectadas com essa alternativa de inclusão produtiva, não digo isso, porque sou professora de empreendedorismo, digo isso, porque os jovens desejam identificar esses novos espaços e novos arranjos. O novo sempre vem (eu sei, mas criar espaços para refletirmos é sempre bem interessante), precisamos pensar mesmo na questão de uma economia democrática digital, assim como, se faz também urgente, que o Cyberativismo traga isso em sua agenda de ação. Ou seja, precismos avançar….compartilhar!! Obrigada pelo seu compartilhamento.

  6. Seria incrível se essa discussão penetrasse nas universidades, Marcia. Espero que isso aconteça. Há toda uma tradição do cooperativismo e das economias solidárias a ser resgatada e reprojetada na agenda das economias digitais.

  7. Giani disse:

    É fato de que muitos ‘setores’ da internet são sim capitalistas, assim como grande parte também não é.
    Utilizar como exemplo empresas, tais como Uber e AirBnb (capitalistas) no conceito “cooperativismo de plataforma” é ingenuidade demais. É logico que empresas que movimentam dinheiro, de maneira geral, são capitalistas.
    Ah, e aconselho o autor pesquisar mais sobre o Uber e o AirBnB. Que são ótimas alternativas de um sistema ‘capitalista’ que até então era absoluto. Estas são algumas das muitas alternativas e soluções que temos hoje contra o que até então, era opção de uma classe mais favorecida.
    AirBnd por exemplo, proporciona às pessoas hospedagens e moradias até 10 vezes mais baratas do que os tais sistemas capitalistas vigentes (hoteis, etc.
    O Uber, pra quem usa (sim eu uso ) proporciona as pessoas pagar até 30% menos do que os meios convencionais (taxis etc).
    Concordo que tais meios precisam ser regulamentados com força maior, mas devemos considerar também que tais opções movimentam empregos e inclusive desenvolvimento sócio-econômico.
    Claro que existem grandes empresas (capitalistas opressoras) entranhadas na web, até porque a internet hoje é mais que uma tendencia GLOBAL, é também o futuro da humanidade, seja na comunicação, ferramentas de trabalho, tecnologias, educação,ciência etc etc.
    Os governos (capitalistas, comunistas, etc) estão sim colocando rédeas nos meios da internet, vide o marco Civil no Brasil que traz para o meio ‘digital’ os conceitos de direitos. Ou seja, estão cada vez tentando ‘controlar e impor regras’ num plano até então ‘virtual’, para interesses políticos (controle), sociais, capitalistas (sim) dentre tantos outros interesses de seres ‘humanos’ (aqueles que estão por trás da web).
    Sobre a ‘democratização’ da web, ela sempre foi (no passado) democrática, exceto no que diz respeito ao ‘acesso’ a mesma. Aí já é problema de outra vertente (politica, social e econômica de cada sociedade), mas que também deve ser discutido.
    A internet de modo geral ainda é um meio anárquico que está cada vez mais de desfazendo. Ainda.

  8. Yuri Sanson disse:

    “O Brasil é um país com uma forte cultura de cooperativismo, especialmente no setor produtivo rural.” (…) “O primeiro desafio para avançar o “cooperativismo de plataforma” no país, portanto, é transportar essa cultura cooperativista para o universo da produção imaterial e tecnológica.”
    O que temos no Brasil é uma agenda liberal patrocinada por corporações estrangeiras que através dos braços de organizações globalistas influenciam as políticas públicas para implantação de modelos de cooperativas gerenciados pelo Banco Mundial e pelo FMI.
    Algo do tipo ‘tome aqui emprestados os nossos dólares, o nosso know-how, façam cooperativas, usem nossos agrotóxicos, usem nossas sementes, usem nosso maquinário. E vocês, políticos, façam disso uma moeda de troca eleitoral.’
    Não há como não citar também sobre o modelo de reforma agrária brasileiro: totalmente falido, sem presente e sem futuro. A “coletivização do campo” praticamente se exauriu nos últimos anos, resultando com taxa zero de novos assentamentos em 2015 e 2016.
    REFORMA AGRÁRIA
    Muito se fala “ah, na Europa teve reforma agrária. Nos EUA teve reforma agrária. Até no México teve reforma agrária.”
    O que lá ocorreu foi uma proposta totalmente diferente da nossa aqui: foi reconstituído o campo em bases individualistas, redistribuindo a terra para que cada camponês pudesse usufruir dos ganhos de seu próprio trabalho.
    Não deve ser confundida com o que ocorre aqui: para adquirir um lote, para ter acesso a micro créditos, é obrigatório ser parte de um “movimento sem terra” e obrigatoriamente fazer parte de uma “cooperativa” — todas ligadas a algum tipo de coronelismo político.
    Muitos falam do MST, mas existem ao menos uma centena desses grupos, e outros milhares muito parecidos, que obviamente se escondem da imprensa e não são lembrados como “movimentos sociais” no dia a dia tal como o MST. Imagino que uma simples investigação neste sentido encontraremos verdadeiras fachadas para latifundiários e grileiros. Todos, é claro, com selo de “cooperativa”.
    Em menor escala tbm estão os bicheiros — hj donos de casas lotéricas — os milicianos donos de vans, e por aí vai todas essas “cooperativas”, com chefes, caciques e donos.
    O texto ainda tenta diferenciar setores produtivos “digitais”, “tecnológicos” com todos os outros. Ora, não há diferenciação. E replicar o modelo atual de cooperativas no Brasil para outros setores irá replicar igualmente a falência, corporativismo, politicagem e verticalização.
    LOBBY MADE IN USA
    “Nosso país é admirado mundo afora pela força dos ativistas e da sociedade civil na construção do Marco Civil da Internet.”
    Marco Civil foi construído com lobby de milhões do Facebook e Google, Fundação Ford e OpenKnowlodge, de George Soros.
    Bancaram políticos, organizações, acadêmicos e aprovaram a lei. Depois perfumaram com “construção coletiva.” Um embuste.
    O único interesse dessas corporações era tirar a responsabilidade de conteúdo gerado pela usuários dentro de suas plataformas em território brasileiro. Uma resposta a prisão e ameaças judiciais que tais grupos sofriam e sofrem no nosso judiciário.
    Tanto este é o ponto que só mesmo ignorando a letra fria da Lei que obriga guarda obrigatória de logs de acesso, uma medida retrógrada de vigilância em massa, que é possível fazer um elogio a essa monstruosidade chamada Marco Civil. Não há garantia de privacidade, de neutralidade nem de nada. Marco Civil, parafraseando fundador do Partido Pirata, foi e é um FIASCO.
    COOPERATISMO DE PLATAFORMA VS CAPITALISMO?
    Eu sei, capitalismo é um palavrão. Então de dentro do coração, do âmago do capitalismo, surge o “cooperatismo de plataforma”.
    Ah, faça-me o favor! Entender uma suposta mudança da relação patrão-empregado como essencialmente o “fim do capitalismo” chega a ser infantil.
    Analisando o capitalismo estatal, nos nossos setores industriais com cinco empresas cartelizando tudo, o corporativismo politiqueiro nas nossas políticas públicas (das cooperativas às organizações sociais) chegando ao sistema falidos representativo da eleitoral-partidário e o ativismo profissional que hoje faz leis financiado pelo grande capital, acho melhor dar uma ré aí: não seria melhor combater o FEUDALISMO antes de mais nada?

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