Toni Negri: as duas renúncias do Papa alemão

Ao colocarem uma pedra sobre o Concílio Vaticano II, Wojtyla e Ratzinger confundiram Igreja com Ocidente, e cristianismo com capitalismo

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Por Toni Negri | Tradução: Antonio Martins

Há mais de vinte anos, saiu a encíclicia Centesimus Annus, do Papa polonês Wojtyla, por ocasião do centenário da Rerum Novarum. Era o manifesto reformista, fortemente inovador, de uma Igreja que se pretendia, dali em diante, única representante dos pobres, depois da queda do império soviético. Àquele documento, meus companheiros parisienses do Futur Antérieur e eu dedicamos um comentário que era também o reconhecimento de um desafio. Teve por título “A V Internacional de João Paulo II”.

Vinte anos depois, o Papa alemão renuncia. Declara-se não só esgotado no corpo, e incapaz de se opor aos imbroglios e à corrupção da Cúria Romana, mas também impotente no ânimo para enfrentar o mundo. Esta abdicação, porém, só pode surpreender os curiais. Todos os que estão atentos aos assuntos da Igreja romana sabem que outra renúncia, bem mais profunda, dera-se antes. Ocorrera em parte sob João Paulo II, quando, com o apoio fervoroso de Ratzinger, a abertura aos pobres e o empenho por uma Igreja renovada pela libertação dos homens da violência capitalista e da miséria terminaram.

Fora pura mistificação, a encíclica de 1991? Hoje, devemos reconhecer que, provavelmente, sim. De fato, na América Latina a Igreja católica destruiu cada foco da Teologia da Libertação. Na Europa, voltou a reivindicar o ordo-liberalismus. Na Rússia e Ásia viu-se quase incapaz de desenvolver o discurso que a nova ordem mundial permitia. E nos países árabes e Irã viu os muçulmanos – em suas diversas seitas e facções – assumir o posto do socialismo árabe (e frequentemente cristão) e do comunismo ortodoxo, na defesa dos pobres e no desenvolvimento de lutas de libertação.

A própria reaproximação com Israel não foi feita em nome do anti-fascismo e da denúncia dos crimes nazistas, mas… em nome da defesa do Ocidente. O paradoxo mais significativo é que o grande impulso missionário (desenvolvido de modo autônomo depois do Concílio Vaticano II) refluiu em favor de ONGs católicas, rigidamente especializadas e depuradas de qualquer característica genericamente “franciscana” Estas ONGs terminaram dedicadas à prática dos “direitos do homem” que a Igreja (e dois Papas: o polaco e o alemão) recusava-se a reconhecer nos países europeus ou na América do Norte, onde ainda expressavam, com ressonância anticlerical e republicana, as conquistas (residuais, ainda que eficazes) da laicidade humanista e iluminista. Ao invés de se colocar à esquerda da social-democracia, como a Centesimus Annus propunha, o papado situou-se à direita, no cenário social, e junto a uma direita política próxima aos Tea Parties (inclusive os europeus).

Agora, o Papa alemão abdica. É quase divertido ouvir a mídia do mundo que ainda se interessa pelo assunto (muito limitado, se considerarmos o espaço global). Ela pede ao novo Papa que reconheça o ministério eclesiástico das mulheres; que estabeleça uma administração colegiada burguesa da Igreja, que assegure uma posição de independência em relação à política… propostas banais. Mas tocam o essencial? Seguramente, não: é a pobreza, o que falta à Igreja. Seria enfim o momento de compreender que o Papa não é um Rei: deve ser pobre, só pode ser pobre.

Tentarão mascarar o problema promovendo um africano, ou um filipino, ao papado? Que horrível gesto racista seria, se o Vaticano e os seus ouros e os seus bancos e a sua dogmática política a favor da propriedade privada e do capitalismo permanecessem brancos e ocidentais! Pedem conceder às mulheres o sacerdócio: não é pura hipocrisia, quando não lhes passa nem pela antecâmera do cérebro que Deus possa ser declinado ao feminino? Querem gestão colegiada da Igreja: mas já Francisco ensinou que o compartilhamento só poderia se dar na caridade. Etc, etc.

A Igreja do Papa polaco e do alemão concluiu o processo de aniquilação do Concílio Vaticano II, e esta liquidação infelizmente não representou jamais uma “guerra civil” no interior da instituição, mas apenas um torneio de esgrima entre prelados – ainda que sangrenta, como no caso da neutralização do cardeal Martini – mas sempre esgrima. Ao colocarem uma pedra sobre aquele Concílio, os dois últimos Papas bloquearam um impetuoso movimento de renovação religiosa. Sobretudo, confundiram a Igreja com o Ocidente, o cristianismo com o capitalismo. Era justamente o que a Centesimus Annus prometia não voltar a fazer, uma vez acabada a histeria anti-soviética.

Não bastava, porém, proclamar a pobreza, para subordinar à cristandade as formas de vida do Ocidente capitalista. Era preciso praticar a pobreza, alimentá-la, como uma revolução. Diante das crises monetárias, de produção e sociais, os cristãos teriam desejado da Igreja uma definição nova e adequada de “caridade”, de “amor pelo próximo”, da “potência da pobreza”. Não a obtiveram. No entanto, muitos militantes cristãos refutam o declínio que o Vaticano e o Ocidente parecem percorrer juntos.

Alguns pensam agora que “a renúncia de Bento poderia finalmente tirar a Igreja do século XIX”; outros ,que haverá uma reflexão profunda e o reconhecimento da necessidade de uma reforma. Mas, ao contrário, não terão razão aqueles para os quais estamos diante da “agonia de um império doente?”. E que o gesto de Bento não é outra coisa além de um álibi oportunista, uma tentativa extrema para fugir da crise? A única coisa de que estamos certos é que qualquer reforma doutrinária será inteiramente inútil se não for precedida, acompanhada e realizada por meio de uma reforma radical das formas de presença social da Igreja, de suas mulheres e homens. Se estes desistirem de associar a esperança celeste e a terrena. Se voltarem a falar da “ressurreição dos mortos”, ocupando-se dos corpos, do alimento, das paixões dos homens que vivem. Significa romper com a função que o Ocidente capitalista confiou à Igreja – pacificar, com esperanças vazias, o espírito de quem sofre; tornar culpada a alma que se rebela.

A descontinuidade produzida pela renúncia de Bento suscitará efeitos de renovação se a ela se associar a recusa a representar a “Igreja do Ocidente”. Talvez tenha chegado o momento de realizar o que havia proposto a Centesimus Annus há vinte anos, e reconhecer aos trabalhadores a condição de explorados, no Ocidente, pelo Ocidente. Mas se o Papa polonês de então não conseguiu, é dúbio que possa fazê-lo um aluno seu, de frágil carisma. A obra está confiada, portanto, aos cristãos. E a nós todos.

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12 comentários para "Toni Negri: as duas renúncias do Papa alemão"

  1. marcio ramos disse:

    É impressionante como tem gente que leva a serio uma religião institucionalizada com toda sua hierarquia e tal. A primeira empresa privada do mundo eu acho, a que mais matou tenho certeza, a que maIS TEMPO dissemina a ignorância…
    Uma ilusão total. Uma bobagem. Papa? Que papo é este? Por mim, pode acabar amanha, todas as religiões institucionalizadas, deixem os homens com seus sentimentos religiosos e basta. Tudo bem as pessoas precisarem de familia, amigos, amantes, mas precisar de herois? da papas? de patroes? de governos? é demais da conta…
    … e assim seguimos, comendo comida envenenada, evacuando nos rios e preocupados com o que??? Com o Papa que é Pop… ploft!

  2. Prof. Edinei M. Grison disse:

    Parece impressionante o declínio da Igreja Católica e a relação com o ocidente em pleno colapso.
    A plena separação do Estado com a Igreja ignorantemente defendido por muitos nunca houve. O catolicismo sempre almejou o poder, inclusive determinando a salvação e a perdição.
    Poderes discretos e aparentes sempre negociaram aristocraticamente os destinos comuns, sejam na terra como no céu.
    Interessante seria o povo esclarecer-se que culturalmente a Igreja é como o Estado, uma instituição burocrática plena de poderes de dominação.
    E com o próximo conclave, o que ocorrerá?

  3. A renúncia do Papa nos caminhos que a Igreja escolheu
    Bento XVI se despede do Papado e uma luta desbragada pelo poder e pelos destinos da Igreja se desenrola nos bastidores do Vaticano. Enquanto isso o “povo de Deus” decide a vida a partir da realidade que lhe é possível viver. Entre uma modernidade fracassada, um iluminismo falido e guiados pela razão técnica que nos leva sabe Deus e o Diabo para onde, a Igreja romana vem nas últimas décadas empreendendo uma meia volta até o passado remoto.
    Afastados da América Latina, o maior contingente católico do mundo, e da África, os dois últimos Papas se voltaram para as questões relativas ao ateísmo europeu. Entre um mundo latino espiritualizado e pobre e um continente rico e sem religião, a Igreja tem preferido falar com segundo. E falando com os ricos deixa de pensar e se preocupar com o que realmente importa; o que fazer, como atuar e de que forma dar sentido a uma religiosidade latino americana sedenta de justiça social e econômica e onde religião ainda faz sentido.
    Paralisada pela grandeza da estrutura burocrática, pela distância que mantém dos leigos e clérigos da periferia do mundo, a Igreja que vemos tem uma grande dificuldade de debater os temas da atualidade e que conformam a vida diária dos católicos e, com isso, se reformar. Entre a modernidade falida e as perspectivas de uma reforma que aponte caminhos aos leigos, a Igreja romana está andando para trás e na melhor das hipóteses, inerte.
    Casais gays, contraceptivos, fecundação in vitro, biotecnologia, falência da família tradicional são realidades do mundo moderno que não podem ser revertidas ou transformadas a golpe de cartas papais. Lembremos que outras possibilidades existiram antes e não contaram com o apoio amoroso da Igreja. A destruição da Teologia da Libertação, um dos mais importantes movimentos religiosos surgidos no mundo e que se desenvolveu na América Latina desde os anos 1960, era uma perspectiva real de uma sociedade melhor, mais justa e certamente muito próxima daquilo que são os evangelhos e a mensagem de Cristo. A perseguição implacável dos teólogos e bispos que davam vida a essa perspectiva teológica na América Latina acelerou, ou pelo menos abriu caminho, para o estado de desagregação familiar, de secularização social, pandemia de drogas e de individualismo consumista que agora se consolidam como forma de vida societária.
    Devemos nos lembrar de que João Paulo II foi um dos grandes articuladores políticos do desmanche do mundo socialista, mundo esse muito distante de uma realidade minimamente decente para a vida em sociedade. O que se quer dizer é que a Igreja não ponderou, com a qualidade que deveria tê-lo feito, os caminhos que se aprofundavam com a vitória do capitalismo neoliberal que passou a tomar conta do mundo a partir de então. O mundo ateu e hiperindividualista que a Igreja agora aponta corretamente como uma doença civilizacional é um mundo que a própria Igreja Católica ajudou a disseminar ou, pelo menos, não tentou impedir que se disseminasse. O Concílio Vaticano II, de 1961, foi uma resposta certa, madura e à altura daquilo que a sociedade e os católicos esperavam de sua Igreja, mas não foi o caminho que essa mesma Igreja trilhou depois. O abandono do Concílio Vaticano II e a perseguição até o aniquilamento total da Teologia da Libertação foram duas das mais importantes contribuições da Igreja em favor daquilo que hoje ela condena como uma crise civilizacional.
    Ao impedir violentamente uma perspectiva teológica e social alternativa, a Igreja ao mesmo tempo empurrou os católicos do mundo ou, para uma cultura religiosa espiritualista desvinculada da vida social e concreta e baseada apenas na adoração sem obras, um tipo de religiosidade esvaziada, pobre, sem sentido nem ritualístico nem de missão, ou para um tipo de religiosidade self service em que Deus é um banco que patrocina desejos mundanos. O resultado disso é que a Religião Católica deixou de ser uma dimensão profunda do Ser, ao mesmo tempo em que a vida se tornava empobrecida pelo consumismo hedonista, narcísico e hiperindividualista que se tornou a única forma de vida possível às pessoas neste século.
    Interessante observar que o cardeal Joseph Ratzinger, o Papa que agora renuncia, foi o grande arquiteto do fechamento da Igreja ao diálogo com a Teologia da libertação, e foi ele também quem fechou as janelas que arejavam a Igreja depois do Concilio Vaticano II. Ironicamente, toda a força retrógrada por ele posta em movimento e que triturou qualquer manifestação de transformação, insurge agora, escondida por trás do trono de Pedro e que, certamente, explica as razões da renúncia do Papa.
    À Igreja não resta alternativa senão a retomada de um diálogo franco e aberto com o mundo católico levando em consideração suas necessidades e demandas. Diálogo este que poderá ai sim, possibilitar que a Igreja volte a se colocar como um norte real onde as pessoas possam viver outra vida diferente dessa que vivem e se entristecem.
    A Igreja precisa ser mais que um espaço religioso, precisa a partir de agora ser uma possibilidade de vida abundante.

  4. Ruy Silva disse:

    Bem feito, Wojtyla e Ratzinger.Auf Wiederseh'n.Heil Hitler! Volkswagen über alles!

  5. Cleo Ella disse:

    Falando em hipocrisia…

  6. Enfim, não esqueçamos que ainda há inteligência sobre a crosta terrestre, pouca, mas há.
    E por mais que muitos insistam na ignóbil idéia de que o destino nos orienta, lá, lá no fundinho todos temos algo a não temer, nem dos daqui nem dos de além, e, para cada arrepio imposto, sobra um revés de coragem para irmos adiante e dizer não aos incautos the fé e do poder.
    Que assim seja o próximo Pai nosso que estai em todos os lugares e não somente no céu.
    Aleluia (alegria), jamais amém!

  7. Mataram a Teologia the Libertação e a opção pelo ser humano (e não o dinheiro)l, idolatraram o ouro e a riqueza, o grande capital e querem agora que o o povo cristão desorientado salve a igreja…infelizmente outros mercadores se especializaram e já conquistaram as mentes do povo; a barca do vaticano está indo em direção aos arrecifes, sem capitão e a tripulação já começa a baixar os botes… é o começo do fim!

  8. Marco Brito disse:

    A Igreja, meus caros, contudo, seguirá em frente, o capitalismo também, o humanismo como meta, e o socialismo nosso objetivo, cristão em seu princípio… A humanidade the Igreja é, desde os primórdios, o Projeto de Deus. Se assim não o fosse a teria arquitetado com anjos, arcanjos e querubins, e em vez de tentar salvar os humanos se dedicaria a reconciliação com o "Diabo". A toda pedra colocada sobre os homens sempre haverá Jesus para removê-la (como fez a Lázaro, morto e fétido jazido há três dias…) e dar-nos de novo a possibilidade the vida, que ressurge, ressuscita… O Concílio Vaticano II sempre poderá ser avançado pelo III, IV,…, e tantos quantos forem necessários a plenitude de vida que Cristo nos lega… A Teologia the Libertação, mais que um slogan exegético, doutrinário, litúrgico, propriedade de clérigos ou teólogos, como as vezes nos quer fazer crer, Leonardo Boff, e outros iluminados teósofos, transcende a cada vida que luta contra a exclusão e a opressão. Segue, ora firme, ora cambaleante, mas segue, entre as comunidades de base, boa parte permanece dentro do PT, outra parte está por aí no mundo maligno de meu Deus… Há teólogos que insistem que está moribunda… Há outros que publicam que esses "papas" (João Paulo II e Bento XVI) a mataram… Tem também os que afirmam que a Cúria Romana matou a todos primeiro (começando pelo João Paulo I)… Há os, eu entre esses, que na fé, na esperança e no amor sempre acreditam no Cristo libertador, e no 'Homo Revolucionarum', ambos essência de Deus, e que renova todas as coisas… O inimigo a ser vencido é Satanás… Este se transmuta em muitas coisas… No entanto só Jesus Cristo nos demostra como transfigurar-nos para o exercício the transcendência, que não é mística ou sobrenatural, que deve começar já, desde sempre, no aqui e agora, entre os homens de boa vontade, numa conjuntura complexa e cenários obscuros que nos reservam a realidade imanente e secular de nossa etapa mundana… Até que retornemos a Casa do Pai… Paz e Bem! Marco Brito – Enfermeiro-sanitarista, Administrador público e Teólogo franciscano (O.F.M.)

  9. Albino Silva disse:

    Está chegando ao fim a "igreja" católica. Depois de tantos crimes cometidos, e que continuam a cometer, "rezemos" para que o fim se apresse.

  10. Milton Mgg disse:

    A ja vinha tomando conta do Vaticano desde de Paulo VI. Quem não lembra o "banco ambrosiano" o arcebispo que dominava a economia do Vaticano um aarcebispo do EUA, um tal de Marckinus , deram u prejuizo imenso. Ocorreram suicidio , assassinatos etc.O Papa Paulo VI indicou pra Papa um homem que nao fazia parte the "mafia". Eleito, quiz acabar com a "mafia", aparaceu morto, motivos ignorados"em 32 dias.Impediram the sua famila mandar fazer autopsia. O EUA mandou eleger um "polones" anti comunista fanatico e deu-lhe todo apoio politico economico. Tinha mais prestigio no mundo qua ator de de cinema ou jogador de futebol. Foi no seu papado os horripilantes casos de pedofilia.

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