Espetáculo da violência, sociedade doente

Que sentimentos ligam a barbárie nos estádios, a glorificação midiática das lutas sangrentas e a indiferença diante da desigualdade social

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Por Celso Vicenzi | Imagem: Nicola Verlato

As cenas exibidas no jogo Atlético Paranaense e Vasco da Gama, em Joinville (SC), na última rodada do Brasileirão – para além de todos os erros das autoridades públicas e privadas, que poderiam ter evitado ou minimizado o problema –, são a confirmação da falência do Estado e das instituições democráticas para lidar com um fenômeno que se repete com enorme frequência diante da passividade de quem deveria buscar soluções e acionar mecanismos para evitar atos de selvageria, dentro e fora dos estádios.

Para uma parcela das torcidas, o jogo de futebol deixou de ser a principal motivação para ir aos estádios. A adrenalina de confrontos com torcedores adversários parece produzir mais sensação de prazer do que um grito de gol. Parece haver uma glorificação da brutalidade, como, por exemplo, na ascensão como fenômeno de massa, com direito a cobertura permanente da televisão, das lutas sangrentas do UFC e MMA. Não é isso, isoladamente, que produz violência nas ruas ou nos estádios, mas algo está errado numa sociedade que elege esses confrontos à condição de espetáculo até mesmo na principal rede de TV do país. Não demorou, é claro, para que seus principais lutadores se transformassem em ídolos para crianças, adolescentes e adultos.

Talvez não seja apenas uma coincidência que o principal narrador esportivo do “país do futebol” leve também todo o seu entusiasmo às lutas marciais. Não, não há relação direta entre uma coisa e outra, eu sei. Mas ninguém pode fugir à contradição de, numa determinada hora e lugar, animar o “vale-tudo” e, em outra, fazer a apologia da paz e do fair play.

Profissionais da mídia, donos de emissoras, patrocinadores e governos que promovem lutas encarniçadas à condição de show, não podem lavar as mãos como se não houvesse, por ínfima que seja, uma incoerência. O que se exibe nos meios de comunicação, não raro, é modelo para milhões de pessoas, modela consciências. Emissoras de TV – e rádio – são concessões públicas cuja principal finalidade (artigo 221, parágrafo primeiro da Constituição) é dar “preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas”. Pergunta: Quem cumpre? Quem fiscaliza?

Há muitos interesses em jogo e muito dinheiro para bancar essas lutas, que remetem aos tempos das arenas de gladiadores romanos. O espetáculo da brutalidade, nos ringues ou nos estádios de futebol, é sintoma de algo muito mais profundo que acontece com a sociedade brasileira.

Se não bastasse a violência das guerras entre torcidas, que choca pela sua crueldade e estupidez, é cada vez mais difícil explicar e compreender por que seres humanos agem com tanta desumanidade, covardia e irracionalidade quando, mesmo diante de um corpo já inerte, pessoas continuem motivadas a dar socos, chutar e até a golpear com pedaços de pau ou barras de metal, numa atitude que, evidentemente, poderá resultar em morte. Ausência total de sentimentos, nenhum remorso, a desumanidade em close nas câmeras. O amor a um time elevado à máxima potência do ódio ao adversário, seja ele quem for. Uma exibição de horror e perigosa bestialidade a nos relembrar, a todo momento, até onde a insensatez humana pode nos levar. E de quanto terror, tortura e ódio já fomos capazes de produzir ao longo da nossa história.

O ovo da serpente está sendo gestado. O que acontece com o futebol é só o sintoma de algo mais profundo: o diagnóstico de uma sociedade que está doente. Na qual cada vez mais pessoas desdenham do espírito público e só querem viver seu egoísmo consumista. Uma sociedade que esqueceu os valores fundamentais à convivência; que não abre mão da enorme desigualdade. Um povo massacrado pela falta de educação, cultura e oportunidades. Uma mídia manipuladora, demagógica, que se especializou em “anestesiar” as consciências e impedir o verdadeiro exercício da cidadania. Uma sociedade que continua racista, preconceituosa e discriminatória – a última a abolir a escravidão no planeta. Com uma das mais violentas polícias do mundo, para manter a segregação entre ricos e pobres. Um sistema político quase impraticável se os eleitos não aderirem aos coronéis que mantêm o poder desde as capitanias hereditárias. Um parlamento em que a maior parte dos que ali estão legislam em causa própria ou em favor de grupos muitos restritos, com vistas ao enriquecimento fácil e rápido. Um poder judiciário que pune, seletivamente, de modo casuístico, e que se mantém de olhos vendados diante das injustiças sociais. Enfim, a lista de nossas mazelas é ampla, geral e irrestrita, e explica boa parte do caos que se vê no interior de muitas famílias, nas ruas, nos bairros, na guerra que se trava em cada cidade e que toma conta do país, numa explosão de violência que parece não ter fim e que não será solucionada com mais violência policial. Somente em 2012, morreram assassinadas 50.108 pessoas. Faça as contas: durante os 90 minutos de uma partida de futebol são quase nove assassinatos, no país que também registrou mais de 50 mil estupros no último ano e 50 mil mortes anuais no trânsito.

Se é necessário, circunstancialmente, reprimir e punir, é muito mais eficaz educar, dar oportunidades, propor leis e mecanismos que diminuam o abismo social entre ricos e pobres; ensinar a respeitar toda diversidade, étnica, cultural, religiosa, política, de gênero e opção sexual; criar uma polícia para proteger o cidadão, mais que o patrimônio; produzir informação, cultura e entretenimento de qualidade, com uma democrática divisão das concessões de rádio e televisão, consolidar, enfim, uma sociedade mais justa e solidária. Sem isso, a barbárie vai se espalhar e produzir cada vez mais vítimas. Dentro e fora de estádios e ringues.

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11 comentários para "Espetáculo da violência, sociedade doente"

  1. Marcio disse:

    Isso. A solução é a censura realizada por esse mesmo estado …… Viva a esquerda brasileira ….

  2. Paulo Piza disse:

    A barbárie já se instalou em todos os niveis sociais.A única regra é que não há regra nenhuma!!!São sómente negócios!!!

  3. Luiz disse:

    Última a abolir a escravidão nas América, correto?

  4. Pedro disse:

    Pois é, no Japão onde o mma é muito popular , o pau come solto nos estádios não é?

    • Celso Vicenzi disse:

      Em 2011, um dos maiores pesos-pesados do MMA japonês, Enson Inoue declarou: Os melhores atletas do país migram constantemente para eventos nos EUA, enquanto as organizações nipônicas reduzem cada vez mais os valores das bolsas. De acordo com o Enson Inoue, a Yakuza (máfia japonesa) é a grande responsável pela falência do esporte no país. (fonte: http://esportes.r7.com). Máfia, MMA, violência, tudo a ver…

      • Mas sua afirmação sobre relação entre a Yakuza e UFC, apenas mais um exemplo das ligações entre as máfias e o esporte, não invalida a questão acima levantada pelo Pedro sobre como a popularidade do MMA no Japão não torna o cotidiano daquela sociedade mais violento. Sem contar que não podemos esquecer as relações históricas que o Japão guarda com as artes marciais, e também como a violência é retrata em mangás e animês, mídias muito populares em várias faixas etárias naquele país, e que também não tornam o cotidiano japonês mais violento.

        • Celso Vicenzi disse:

          Correto, Fernando. Mas cada sociedade precisa ser analisada em seu contexto. O texto procura fazer uma reflexão sobre o impacto dessa exaltação a um esporte violento em rede de comunicação de massa de um país como o nosso, com tantas deficiências, de educação e de cidadania, por exemplo, para citar apenas duas. Numa leitura mais atenta do meu texto você não encontrará nenhuma afirmação de que lutas de MMA resultam em mais violência nas ruas ou estádios do Brasil. Só para lembrar: “Não é isso, isoladamente, que produz violência nas ruas ou nos estádios, mas algo está errado numa sociedade que elege esses confrontos à condição de espetáculo até mesmo na principal rede de TV do país.” E mais adiante: “Não, não há relação direta entre uma coisa e outra, eu sei. Mas não dá para fugir à contradição de, numa determinada hora e lugar, animar o “vale-tudo” e, em outra, fazer a apologia da paz e do fair play. As artes marciais estão muito ligadas ao caráter de autodefesa e quando foram transformadas em atividades esportivas, em tempos mais modernos, visaram, sobretudo, o objetivo de aperfeiçoar o corpo e a mente. Um pouco diferente desse “vale-tudo” do MMA que, sintomaticamente, tem seu principal “templo” em Las Vegas (EUA), um lugar onde máfias do jogo e da prostituição ganham muito dinheiro. Que tevês pagas queiram transmitir esses “espetáculos” é até compreensível. Mas uma emissora aberta, que é uma concessão pública, deveria respeitar o artigo 221 da Constituição, que afirma que essas emissoras devem dar prioridade em suas transmissões a programas com “finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas”. Não parece ser o caso. Este é o centro do debate a ser feito.

          • marcio disse:

            O centro do debate é a censura? Esportes violentos n devem ser vistos, em breve os escolhidos serão a verdade transmitida e depois teremos que inventar verdades para n aumentar esse risco ………. desculpe esse é o inicio de uma ditadura velada, sempre com boas intenções …..

  5. Paulo Antônio de Almeida Bastos disse:

    Tenho por mim que a violência tem uma origem muito clara. Enquanto tivermos matadouros, teremos campos de guerra. Enquanto escravizarmos, torturarmos e assassinarmos com requintes de crueldade bilhões de animais por ano, animais que sentem dores iguais a nós, que sentem tristeza, alegria, empatia, são inteligentes… tudo igual a nós, não teremos o menor problema em violentar os nossos semelhantes, já que lidamos diariamente com sangue em nossos pratos.
    No Natal, os humanos hipócritas vivos em volta da mesa, tendo ao centro os inocentes torturados, assassinados, cremados e esquartejados, brindam PAZ e AMOR e desejam SAÚDE, violentando seres indefesos e se entupindo de gordura animal. É muita hipocrisia!
    O dia em que eu respeitar um pintinho, um porco sequer, respeitarei o meu vizinho que põe o som alto, a pessoa que me fecha no trânsito, que torce para o outro time, que me deu uma má resposta…
    Pensem nisso, sem falar que a produção animal, além da mais cruel, é a que mais devasta o meio ambiente. Ademais, ninguém precisa de cadáveres para viver. Proteína, sim, mas proteína vegetal é o suficiente. Assim teremos um planeta melhor em todos os sentidos e uma saúde bem melhor (sem diabetes tipo 2, cânceres diversos, gota, depressão – só se come sofrimento – enfartes, colesterol alto.e mais um tanto de doenças provocados pelos produtos animais).
    Saudações de um vegano.

  6. Artur disse:

    No meu entendimento, a prática da luta é um esporte saudável, que permite a canalização da violência de uma maneira saudável.
    A violência é um comportamento que pode ser manifestado de muitas formas, não apenas física, e todas formas podem machucar.
    Canalizar essa energia violenta em uma prática orientada, me parece inteligente. E a divulgação dessa prática, não constitui um problema.
    Será que dizer que o U.F.C. é uma barbárie não é um pouco de preconceito?
    Abraço

  7. Vinicius disse:

    O autor diz que “Não é isso, isoladamente, que produz violência nas ruas ou nos estádios”. A boa interpretação de texto nos indica que, se essa não é a causa “isolada” da violência, é apontada pelo autor, no mínimo, como uma das causas. Afirmação da qual discordo totalmente. Para não me alongar no assunto, e a fim de contrapor o preconceito que foi exposto contra o mma, sugiro a leitura de outro texto, publicado aqui mesmo no Outras Palavras, intitulado “O MMA Sem Preconceitos”, de Marília Moschkovich.
    A prática de artes marciais, inclusive das artes marciais mistas, é um meio útil para canalizar a agressividade humana, principalmente dos jovens, em um ambiente controlado e disciplinado. Concordo que é um esporte polêmico, que não agrada a todos pelo nível de agressividade. Mas o que dizer do automobilismo, em que pilotos arriscam a vida em velocidade insanas apenas para promover montadoras de automóveis? Eu vi Anderson Silva quebrar a perna, Minotauro quebrar o braço, Lyoto desmaiar… mas nenhum deles teve o destino de Ayrton Senna, Robson Kolling e tantos outros.
    Tirando esse injusto ataque ao MMA, concordo com o restante da análise. Abraços.

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