Doutorado Informal, criar sem depender da Academia

Como desenvolver um projeto de aprendizado autônomo e consistente, estabelecendo redes de colaboração com quem acredita em saber além dos certificados

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Como desenvolver um projeto de aprendizado autônomo e consistente, estabelecendo redes de diálogo e colaboração com quem acredita em conhecimento além dos certificados

Por Alex Bretas Vasconcelos | Imagem: Kiddaikiddee

Kathryn começou a ter coceira nas ideias. Mais especificamente, ela alimentava uma curiosidade cada dia maior em relação a carros esportivos: na verdade, ela queria comprar um Fiero antigo e restaurá-lo das rodas ao teto, um trabalho que pelas contas de Kathryn demoraria uns quatro anos. Argumentos pensados, convenceu os pais a deixarem-na comprar o carro com um dinheiro que ela mesma havia economizado.

Ao longo dos trabalhos de restauração, Kathryn sentiu-se inspirada pelo seu pai, que sempre a acompanhava, e por mensagens que trocava num fórum que reunia entusiastas do Fiero na internet. Dia após dia, ela construía, sujava as mãos, e depois as limpava para ler coisas sobre funilaria, pintura, sistemas elétricos e mecânicos. Como não poderia deixar de ser, conciliava a reforma do automóvel com várias outras atividades, como frequentar a escola, jogar bola e trabalhar como babá.

Depois de algum tempo, os amigos que Kathryn fez no fórum deixaram de somente postar elogios admirados e mensagens de motivação e passaram a perguntá-la seriamente sobre assuntos relacionados à restauração do Fiero. Ela começou a ser reconhecida pelo que aprendia, e isso devido a um projeto autônomo que partiu de um desejo corajoso.

Assim como Kathryn, que ousou colocar no mundo a sua curiosidade mais genuína, eu também o fiz. E estou arriscando chamar isso de doutorado informal. Toda essa história começou com o André Gravatá, que passou a utilizar o termo para nomear o projeto de aprendizagem autônomo que criara para si. O doutorado, aquele nível que certifica as pessoas que já podem inovar no mundo acadêmico, quando informal, aponta numa outra direção: todos já carregam consigo a sabedoria e a criatividade necessárias para inovar, e podem fazer isso sem depender da universidade.

Simples, só não é fácil. Yaacov Hetch – educador israelense e estudioso da educação democrática – diz que muita gente acha que a vida das crianças que estudam nas escolas democráticas não requer muito esforço. Elas não têm que se submeter a aulas e disciplinas, mas  precisam sustentar-se num caminho autônomo de aprendizagem, escolhendo o que e como aprender, em interação com o mundo. Yaacov afirma exatamente o oposto do que tantas pessoas acreditam: buscar uma área de interesse, agir e refletir de forma auto coordenada demanda uma enorme reserva de força interior. E é exatamente assim com o doutorando informal: para seguir na espiral de aprendizagem que mais lhe encanta, é preciso empreender-se continuamente.

Olhando para o meu processo, a partir do momento em que tomei a decisão de seguir pelo doutorado informal, mundos se abriram. Criei o Educação Fora da Caixa, um projeto de investigação cujo objetivo é irradiar aprendizagens a respeito de experiências, histórias e autores relacionados à educação de adultos. Duas palavras têm sido guias nessa jornada: curiosidade e autonomia. Assim, a opção de conduzir a pesquisa como um doutorado informal ficou bastante coerente. Compreender um pouco mais esse formato é uma das coisas que quero fazer no livro que será a principal entrega do projeto. À medida que interajo com pessoas que se interessam pela proposta, o doutorado informal vai ganhando alguns contornos.

Até o momento, entendo-o de dois jeitos. O primeiro é o doutorado informal como prática ou abordagem, e o segundo é o seu valor como metáfora. O lado prático tem a ver com como as pessoas que têm começado seus doutorados informais estão fazendo isso. Já estou começando a mapear essas práticas, e muitas possibilidades interessantes têm surgido – mentorias, grupos de diálogo, comunidades de prática, jornadas de aprendizagem, viagens, canais e redes de compartilhamento na internet, imersões, enfim, meios para materializar a intenção de aprender (e vivenciar) algo.As metodologias comumente utilizadas no meio acadêmico também podem servir ao doutorado informal, a questão é não se restringir a elas. Não colocar o método científico nem os resultados da ciência acima de qualquer outro domínio do conhecimento humano é justamente no que Paul Feyerabend, filósofo austríaco, acreditava. O meu entendimento é que o  doutorado informal segue nesse mesmo sentido: os caminhos são múltiplos, assim como as verdades.

O doutorado informal também pode ser visto como uma metáfora. Doutor, no Brasil, até bem pouco tempo eram os engenheiros, médicos e advogados. Em muitos lugares ainda se diz e se acredita nisso, quem “pode” é tratado como doutor. Tião Rocha, educador mineiro, conta que no Vale do Jequitinhonha, norte de Minas Gerais, empoderamento virou “empodimento”. “Ah, então quer dizer que nóis pode?” O doutorado informal surge também para promover empodimentos de aprendizagem: todos podem fazer um doutorado, mas não precisa ser aquele, da universidade, pode ser um que aproveite da sua curiosidade mais viva e emerja da sua realidade, e então, subitamente, aquilo vai fazer sentido pra você. Aqui, vale destacar que o doutorado informal não pretende imitar (nem rivalizar com) o doutorado acadêmico; antes, trata-se de um outro universo que sabe conviver com o mundo das instituições.

Neste novo território que se apresenta, cada um escolhe como vai trilhar seu caminho e como vai entregar os frutos do seu trabalho ao mundo. Pode ser livro, dança, tecnologia, política pública, exposição, metodologia e até mesmo tese.

Mas, quem vai atestar que o resultado obtido pelo meu doutorado informal é bom, ou mesmo válido? Quem vai poder me certificar como especialista no assunto que escolhi?

Augusto de Franco diz que a árvore vai sendo reconhecida pelos seus frutos, e não por um certificado emitido pela corporação dos botânicos. Cada vez mais, o que está em jogo numa contratação, por exemplo, não são os diplomas que uma pessoa possui, e sim a qualidade de seus frutos. Se eu provo e gosto, a árvore é boa e seus frutos são válidos.

Não questiono as razões que levaram ao surgimento das instituições que certificam o ensinamento, mas o que temos vivido hoje aponta para um resgate da nossa liberdade e responsabilidade para valorar produções e pessoas por nós mesmos.

O doutorado informal tem sido cocriado a diversas mãos e a ideia é que continue sendo assim. No dia 4 de agosto, realizamos o primeiro encontro em São Paulo, e a intenção é fazermos mais conversas. Tenho trabalhado no formato dos Círculos de Doutorandos Informais (CDIs), espaços de colaboração que promovem trocas e apoio mútuo para pessoas que já começaram um doutorado informal ou têm uma ideia, questão ou desejo que gostariam de destrinchar de forma autônoma. Também criamos um grupo aberto no Facebook, disponível neste link.

Enquanto nós desenvolvemos, por meio do par reflexão-ação, a ideia do doutorado informal, pessoas como Kathryn já captaram a essência desse caminho mais livre de aprendizagem. Recentemente, ela conseguiu seu primeiro emprego formal e começou a fazer faculdade, mas continua trabalhando firme no seu Fiero. Alguém duvida que ela vai conseguir chegar lá? Eu acredito que ela já chegou. Que tal aprendermos com ela a coçar nossas ideias com vontade, como dizia Rubem Alves?

Para entrar em contato, meu e-mail é [email protected] . Se você tiver qualquer percepção ou comentário sobre o texto e o doutorado informal, por favor, compartilhe comigo!

Para saber mais:

Vídeo que conta a história de Kathryn DiMaria

Educação Fora da Caixa no Catarse

Matéria no Porvir sobre o Educação Fora da Caixa e o doutorado informal

Blog sobre o doutorado informal do André Gravatá

 

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13 comentários para "Doutorado Informal, criar sem depender da Academia"

  1. ana disse:

    Muito interessante a ideia. Poderia ter um site que fosse abastecido com as pesquisas autonomas para serem compartilhadas em áreas de interesse ou áreas do conhecimento.

  2. Ricardo disse:

    Ótimo! Daqui a pouco não vai ser mais preciso ter faculdade de medicina para ser médico.
    Alguém se lembra, por favor, da definição do crime de charlatanismo???

  3. Fabio disse:

    A tendência é essa. A universidade poderia apenas reconhecer, através do diploma, se a pessoa está apta ou não a exercer a atividade. Mas a forma que essa pessoa utilizou para adquirir o conhecimento não é tão importante (seja através dos bancos escolares ou sendo um autodidata). Antigamente tínhamos os “práticos” que eram os dentistas, eles podiam até ser melhores profissionais do que os dentistas formados, mas por não possuírem um título acadêmico não puderam mais atuar. Por outro lado os advogados pegam seu diploma após a conclusão do curso, mas não podem atuar sem a aprovação na OAB.
    Hoje temos os cursos EAD, internet, etc e a informação está disponível a quase todos. Acredito que uma nova forma de aprendizagem vai surgir e pessoas que buscam conhecimento fora das universidades deverão ter algum tipo de reconhecimento por parte de órgãos competentes para atuar legalmente.

  4. Carlos Delgado disse:

    Não sei se isso é mera demagogia, se é a mistificação da ignorância ou se é só propaganda safada mesmo. Sim, está com cara de charlatanismo misturado a auto-ajuda.

    • Ricardo Salles disse:

      A proposta vale mais por questionar o saber cada vez mais ossificado e “certificado” que se produz na academia. Isso não está dando certo. Pode até ter cumprido um papel no passado, mas hoje, burocratiza a criatividade. O caminho é reformar a Universidade, e outras instâncias e instituições de ensino e pesquisa.
      A ideia de um certificado de competência que não seja conferido pela instituição que forma, mas por uma instância independente e qualificada – tipo OAB – e sem a obrigatoriedade de cursar determinados cursos é boa. A proliferação de armazéns de venda de diplomas através do ensino superior privado de baixa qualidade, e que não valem nada, é o avesso da proposta informal.

  5. Ricardo, por favor, leia o trecho abaixo (retirado do texto):
    “Aqui, vale destacar que o doutorado informal não pretende imitar (nem rivalizar com) o doutorado acadêmico; antes, trata-se de um outro universo que sabe conviver com o mundo das instituições.”
    Eu ainda não posso avaliar o doutorado informal do autor, mas a sua interpretação de texto sim. E ela é sofrível.

  6. José Carlos Abrão disse:

    O meu Doutorado Informal
    Prezado Bretas, achei interessante o título do seu trabalho e fui até o fim. Ao terminar a leitura, aí me veio a pergunta: “aonde ou até onde o autor quis chegar?”. Com todo o respeito, o autor nada me trouxe de novidade. Para tanto, vou fazer aqui um breve arrazoado, historicamente delineado, afinal esse Doutorado Informal adquire-se na prática, e nisso eu concordo com Bretas. Então, vamos lá.
    O meu “D.I.” teve um batismo inicial, se assim posso dizer. Foi numa tarde de uma aula de Filosofia da Educação, em setembro do ano seguinte ao do famigerado AI-5. O meu professor, João Eduardo Rodrigues Villalobos, de saudosa memória, costumava chegar meia hora antes à FEUSP, quando então se colocava a conversar sobre assuntos variados, até que pontualmente às 13:30 fechava a porta e dava início à aula. E que senhora aula, diga-se de passagem! Só que, naquele dia, 10 minutos depois eu acabei interrompendo o discurso do Villa com um solene “consegui”. E o Villa ficou todo comovido, deixou o assunto que estava discorrendo, saiu do canto da sala em que estava acomodado, e veio sentar-se `perto da lousa voltado para a classe. Aproveitou da minha espontaneidade acadêmica para elaborar um discurso filosófico-pedagógico.
    Esta “espontaneidade” a que estou referindo-me foi provocada, se assim posso dar uma razão prática à complexidade do ser ou agir espontâneo, pelo próprio Prof. Villa. A conversa inicial dele conosco naquela meia hora se referia a uma certa dificuldade que ele passou até entender o desafio proposto pelo filósofo Leibniz por vários dias: qual o número que, somado a si mesmo tem como resultado o próprio número menos dois? A solução para o próprio Villa era desafiante para ele terminar a tese que estava escrevendo para a defesa do concurso de, se não me falha a memória, Professor Titular em Educação na FEUSP. Demorei vinte minutos para resolver o problema, foi quando eu dei um grito: “consegui”. Ao ver o Prof. Villa se levantar de onde estava, achei que ele fosse me colocar prá fora. Pelo contrário, ele aproveitou o meu “heureka’ para teorizar o que havia acontecido comigo.
    Fiz algumas anotações sobre as considerações do Villa e as guardei. Anos depois resolvi fazer o pós-doc tendo como tema os passos envolvidos naquele “consegui” estalado numa tarde de setembro em que as ondas e nuvens negras asfixiantes exaladas do Palácio do Planalto envolviam a educação brasileira de alto a baixo.
    Entre outros pontos que eu descortinei para o desenvolvimento deste pós-doc, eu coloquei um bem central e que eu gostaria de desenvolver numa conversa inicial com o Mestre Villa. Eu havia percebido espontaneamente um outro ponto naquela tarde que eu gostaria de discutir com o Villa posteriormente e que ficava sempre para depois. Para mim, e isto o Villa não havia esclarecido, com a resolução daquele problema certamente Leibniz chegava à concepção de infinito e com isto resolveria um outro problema que tanto preocupava aquele filósofo alemão: a existência de Deus… Este seria o meu pós-doc espontâneo! Seria, pois dias antes de me dirigir à FEUSP, fiquei sabendo que o querido VILLA já não estava entre nós…
    E este foi, prezado Bretas, o meu batismo inicial de envolvimento com a espontaneidade ou “grito” da criança ao nascer. Vai aqui, da minha parte, uma pergunta a V.S.: a espontaneidade ou o grito, não vejo muita diferença, se insere no contexto da epistemologia ou da dialética?…

  7. Paulo Braga disse:

    Meu caro José Carlos
    Isso é “informal”????

  8. Alex Bretas disse:

    Ana: a ideia de um site é muito legal, sim! Penso nisso também. E se fizéssemos um protótipo para amadurecermos a ideia? 🙂
    Ricardo: o doutorado informal não pretende combater a universidade. Não há uma tentativa de generalização ou institucionalização. De fato, quem ousar ir por esse caminho precisará lidar com muitos preconceitos e pressupostos vindos de uma sociedade que funciona por meio da certificação terceirizada.
    Fabio: bem legal, meu caro! Recentemente ouvi uma história que tem a ver com os “práticos” de que você fala: os Journey Men, que buscam conservar ofícios antigos e viajam pelo mundo para ganhar maestria nas suas especialidades. Achei demais a história!
    Ricardo Salles: o caminho de reformar a universidade é muito importante, estou contigo. O que o doutorado informal pretende é inaugurar um outro caminho, ou talvez, fortalecer o caminho de tanta gente que já produz sabedoria de tantas formas diferentes no mundo. Vejo que as duas coisas poderiam ocorrer em paralelo (ou até mesmo se cruzar em algum ponto, por que não?). Pra mim, não precisa ser uma coisa “ou” outra.
    Leonardo: de fato, meu caro, esta ressalva que você destaca é muito importante para o doutorado informal! Estamos aqui para dialogar, não para debater.
    José Carlos: meu caro, em primeiro lugar, gratidão por ter compartilhado comigo esta história maravilhosa! Ao que me parece, a espontaneidade que você narra é peça central para o doutorado informal. Aliás, talvez seja elemento-chave da aprendizagem e da vida, também (cada vez mais vejo como é difícil separar essas duas coisas). Sobre a sua pergunta, permita-me adicionar outra: como poderíamos evidenciar ou aproveitar a espontaneidade no sentido de permitir “a-hás” e “heurekas” para cada vez mais pessoas? Talvez, o que me vem é que a espontaneidade localiza-se no território do diálogo, da cocriação.
    Meus caros, foi muito legal ler os comentários de vocês. Me ajudou a ter mais percepções sobre o doutorado informal. Obrigado!

  9. Edson disse:

    Bem, a ideia em si é interessante, mas o termo está mal empregado. A concepção acadêmica do doutorado sugere que você produza uma trabalho intelectual consistente (uma tese), que pode ser submetido e ela ser aprovada ou não, ou seja refutada por outra tese (antítese), por pares que tenham conhecimento no tema.
    Além disso, a academia já não é necessariamente tão estanque ou preconceituosa quanto o texto do Alex sugere, o que é mais próprio do século XIX. Existem diversos mestrados e doutorados interdisciplinares, que realizam uma diálogo bastante produtivo entre os diversos conhecimentos acadêmicos. Também há muito tempo a academia reconhece e dialoga com outros saberes que não os acadêmicos. Existe até mesmo o chamado Doutor Honoris Causa, que é como a academia reconhece a contribuição destes saberes.
    Nada disto é novidade, talvez falte um pouco de informação no texto.

  10. Ana disse:

    Doutorado não é um bom termo empregado para esse processo de aprendizado. Por que não graduação informal? Já que a entrada na universidade começa pela graduação.. Ainda assim, há muitos cursos interdisciplinares e até transdisciplinares que dialogam entre si em mestrados e doutorados. ‘Doutorado Informal’ não faz sentido, poderia chamar de ‘pesquisa informal’, aprendizado informal ou outra nomenclatura. “Não pretende rivalizar com as instituições e o mundo acadêmico”, certo, é sabido, mas e aí o que pretende? esse termo nada tem de novo nem suas nuances no processo de aprendizado. A própria academia, em diversos cursos, há linhas de pesquisa que facilitam e promovem o diálogo entre o ‘eu e o outro’, o pesquisador e objeto, a interação social, a transformação de uma realidade social, etc. Isso aí que vocês chamam de ‘doutorado informal’ não tem nada de novo. E o termo é inapropriado. Em vez disso, poderiam pensar formas de transformar o próprio ambiente acadêmico no que há de melhorar no processo de conhecimento/aprendizado e seu impacto social.

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