Classe média: o fetiche do igual

Apesar de oportunidades, escolhem o mesmo caminho e caem na fuga perfeita para amar os iguais e execrar os diferentes

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Vive de aparências e acha isso chique. E se tudo isso te parece apenas medíocre e inofensivo, não se engane: há garras e dentes. Pois é nela que é feita a engorda do ódio. É ela que legitima atrocidades

Por Maria Bitarello

Há uns anos ouvi um podcast de rádio americana, não me lembro mais qual, em que o entrevistado daquele dia dizia que o fator determinante da pobreza – econômica, não de espírito – é a possibilidade de escolha. O pobre, dizia o entrevistado que também o era, muito mais do que carecer de coisas, pertences, bens, é privado de escolhas, de alternativas. E, salvo as exceções que sempre existem, a vida lhe impõe um caminho, muitas vezes sem bifurcações no percurso. O que o dinheiro compra, portanto, segundo o tal entrevistado, são escolhas. Fiquei pensando sobre isso muito tempo. Claro que se trata de uma dentre tantas formas possíveis de interpretação e que, de certo, é limitada. Mas vamos seguir nessa via, limitada que seja. Porque acho que ela traz insights.

De acordo com esse raciocínio de pobreza, por menor que possa ser minha identificação com essa classe amorfa chamada de média, de fato, é dela que eu vim. Eu cresci num lar de classe média. Tive oportunidades de escolhas. Muitas. Como a de ter uma infância e crescer na hora em que estava pronta pra crescer; a de estudar, o que e onde fazê-lo; as de viajar, trabalhar, aprender línguas, música, esportes, conhecer culturas diferentes, ser exposta à leitura, às artes; a de votar; a de não virar, cedo demais, nem esposa nem mãe; a de me relacionar com quem meu coração eleger; a de mudar de ideia, voltar atrás, andar pra frente, jogar tudo pro alto e começar de novo; a de viver da forma que é verdadeira pra mim. E isso é ouro. Alguns diriam que não tem preço, mas se isso fosse verdade, todos teriam um pouquinho pra si. O que sabemos não ser o caso.

As escolhas às quais tive acesso não estão disponíveis a todos e me foram concedidas, em grandíssima medida, devido à classe social à qual pertenço. Eu as tive porque outra pessoa não as teve. É uma lei básica e pervesa do capitalismo. Ao mesmo tempo, a classe média não é só uma fatia social; é uma cultura também. E uma das características constitutivas dessa classe cultural é o medo. A classe média é apavorada. Tem medo de perder suas regalias disfarçadas de segurança e estabilidade. Ela paralisa sua vida em função desse medo. Segrega. Empurra o diferente pra longe. Vota mal. Não quer pretos nas escolas dos filhos brancos. Nem a boca no fim da rua. Tem medo do flanelinha que cuida dos carros. Da puta. De sair do carro, de andar na rua. Acha que a riqueza máxima será, um dia, se separar do convívio com os pobres.

É uma cultura pobre de espírito. Chata. A ela pertencem a moral e os bons costumes. Vive de aparências e acha isso chique. E se tudo isso te parece apenas medíocre e inofensivo, não se engane: há garras e dentes. Pois é nela, na classe média, que é feita a engorda do ódio. É ela que legitima atrocidades. Movida pelo pavor, a classe média é capaz de qualquer coisa pra manter erguidas as barras que a aprisionam dentro do apartamento, enjaulada; dentro do carro, atrás de vidros blindados; dentro do bairro, onde todos são iguais. A personagem infantil de Pessoas Sublimes, peça que vi há umas semanas n’Os Satyros, em São Paulo, não sai de casa porque lá fora é muito perigoso. E já viu o que faz um bicho em perigo, acuado? Ele morde. Ele ataca.

Essa noção da classe média apavorada não é minha; tomei-a emprestada do documentário A Opinião Pública, do Arnaldo Jabor, lançado em 1967. Vale a pena assistir. Prometo que não tem nada a ver com o Jabor da Globo. É um registro das mudanças sociais pelas quais o Brasil passava na década de 1960. Uma época semelhante à de agora, quando um momento de abertura foi nocauteado por uma tenebrosa onda conservadora. Esse “medo” do qual fala Jabor nasce do que Marcia Tiburi chama de fetiche do igual, outra expressão que tomo emprestada – dessa vez do último romance dela, Uma fuga perfeita é sem volta, que estou acabando de ler. Os adeptos desse fetiche “amam o igual porque, na vida, só o que querem ver é espelho. O espelho que certifica que existem. Onde não há espelho, as pessoas põem ódio”.

O ódio. A força de uma classe média apavorada movida por ele, quando nas mãos da pessoa errada, pode ser monumental. A massa de manobra em que se transforma pode varrer uma sociedade, pode matar. E uma classe média assustada é tudo o que a direita mais aprecia e melhor sabe usar. Ela vai instigar ainda mais esse ódio que vem do medo, que por sua vez vem da não compreensão do diferente. Se a classe média brasileira não for sacudida de seu torpor, temos exemplos históricos palpáveis que mostram para onde esse discurso pode descambar. E a memória precisa ser exercitada, sempre, pra que a história não se repita.

Evitar repetições é o que um paciente encontra na análise. É o que se alcança com uma epifania. Com um momento de iluminação. Perceber essas repetições e fazer o furo, não reproduzi-las mecanicamente, liberta. Porque aí, sim, há escolha. E em tempos de uma classe média que tantas panelas bateu nas janelas – a imagem própria do desespero –, não parece haver escolha, mas mera reprodução. Por isso, em meio a essa embriaguez burguesa (classista, racista, machista, fascista), será preciso muita riqueza de espírito interior pra despertar do transe e exercitar a capacidade de discernimento. Pra perceber as bifurcações no caminho, as opções de desvio que existem, sempre.

Suspeito eu que a maneira de vê-las é olhar pro outro, pro diferente e, ao mesmo tempo, pra dentro – sem medo. Porque, no fundo, é a mesma coisa. Reconhecer o diferente é um ato íntimo. E só daí sairá algo novo.

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30 comentários para "Classe média: o fetiche do igual"

  1. ivanamauhs disse:

    Texto maravilhoso!

  2. Guilherme Rafael Dalmedico disse:

    Mujica mandou esse argumento em algumas entrevistas

  3. Maria luiza disse:

    Estava pensando outro dia sobre um “sub- tipo” de classe média que me indentifiquei e me senti muito mal; porque é aquela que tem a consciência de tudo que está acontecendo, quer fazer alguma coisa e não faz nada, pois não sabe ou não quer fazer, fica bradando que está tudo errado mas é só, tenta ser bicho grilo , natureba; mas não vota, ou anula( poxa o doria entrou!). Quer alguma coisa melhor, mas o ego( ismo) ainda é grande e difícil de esconder. Todos querem brilhar, mas soa muito falso, separatistas iguais, só poder ser daquele jeito, como roupas naturebas, musicas naturebas, intelectuais chatos falando difícil.
    Estou cansada dessa falsidade da classe média esquerdista, ainda temos muito que aprender, acho que precisamos passar por um período de muita escassez, sofrer na pele mesmo, para valorizarmos o que temos, pois conseguimos tudo por herança de nossos pais. Sabe aquela coisa de rebelde sem causa?
    Nao me sinto instruída o suficiente para julgar ninguém, suas palavras me deram coragem de escrever o que senti quando li seu texto. Obrigada

  4. Iara Pereira disse:

    Excelente concepção sobre o que nos vivenciamos disfarçadamente.!!!

  5. Maria Geissiane disse:

    Oi, Maria. Queria agradecê-la por esse belo texto. É reconfortante e causa até certo alívio ler algo sensato em tempos tenebrosos como estes, que temos medo de abrir a rede social e nos deparar com a demonstração de ódio, preconceito ou machismo da vez… São exemplos assim que me fazem ascender um fio de esperança de que talvez, apenas talvez, nós ainda tenhamos alguma salvação em meio a esta guerrilha disfarçada de “é só a minha opinião” que as pessoas tanto usam pra justificar sua crueldade impregnada em palavras.

  6. fuganumero2 disse:

    que texto lindo! Parabéns Maria

  7. Alex Meira disse:

    Texto maravilhoso.
    Coincidência ou não fiz um artigo sobre a Classe Média no meu blog também.
    Acho que é uma percepção coletiva.
    http://novoexilio.blogspot.com.br/2016/11/o-gol-da-alemanha-e-revanche-dos-vira.html
    Compartilhe se gostarem.

  8. Rosane MMRCattani disse:

    O texto e ótimo e provocador. Critica o capitalismo, com toda razão, pois a tal classe média é fruto deste sistema. Mas ao ler as opiniões aqui deixadas, infelizmente dá para notar que nem todas as interpretações condizem como m a profundidade da proposta da escritora, o que é lamentável.

  9. Katia lopes disse:

    Gostei muito Maria. Continue a publicar

  10. salvia fernandes cabral Medeiros disse:

    Muito bem retratado o momento brasileiro atual.

  11. Morvan disse:

    Bom dia. Excelente e elucidativo texto sobre o nosso confinamento, intencional ou não…
    Vai ao encontro da definição definitiva (aliteração intencional) de Marilena Chauí, para quem: “a classe média é uma abominação política, porque é fascista, é uma abominação ética porque é violenta, e é uma abominação cognitiva porque é ignorante.”, no que considero ser uma definição atemporal e que se aplica a qualquer sociedade governada por Mamon.
    Obrigado.

  12. Elaine disse:

    Não entendi qual o objetivo do texto, reconhecer o outro na sua diferença? um trabalho de humanização da desigualdade, para além dos privilégios faz urgente reconhecer a questão de classe, no qual a tal “classe média” não o é. Ele fetichiza as vezes com o povo e por vezes se coloca como autoridade quando isto as diferencia.

  13. Andréa N. Martins disse:

    Vamos trocar uma palavra e descobrir o que agora fortalece a direita no mundo todo? “…embriaguez ESQUERDISTA (classista, racista, machista, fascista)”… ~que desconsidera quem pensa diferente, que odeia burgueses mas conhece bem Paris, que chama de golpista quem não pensa como ele, que promove o ódio, e espalha o maniqueísmo dentre os menos instruídos.
    Não fosse o radicalismo burro das ditas esquerdas, como o apoio a um ditador como Maduro, as direitas igualmente radicais e nocivas não estariam tão presentes.
    O mundo caminha a passos largos para as ditaduras de um lado e do outro. Ruim para os refugiados, ruim para os pobres, ruim para a classe média. E a culpa não é do intangível capitalismo, é das mentes pertencem a tribos, não ao todo. Será ruim para todos.

  14. Marcus Grade disse:

    Como voce define “classe media” no contexto atual em termos objetivos? Todos as características que voce atribui a uma “amorfa classe media”, tem sido descritas em outros termos em livros de psicologia sem correlacoes exclusivas com essa ou aquela classe : medo, resistencia, narcisismo, odio, negacao.
    Eu sinceramente gostaria de ver um estudo serio, academico, com metodologia, capaz de correlacionar de fato, nao só como opiniao, esses atributos a uma determinada classe social. Circulo em todas as classes, e tenho visto todas essas caracteristicas em todas elas, e tenho visto muitas outras nao descritas tambem, tendo comigo que isso tudo se correlaciona muito mais à diversidade humana em si, do que a este ou aquele agrupamento segmentados horizontalmente seja por classe social, seja por idade, seja por religiao, ou outra.
    É de fato curioso a quantidade de artigos provenientes de uma suposta classe media, tentando atribuir a ela as mazelas que permitam desqualifica-la enquanto agrupamento, entidade coletiva. O

  15. Bom dia.
    Sem se confundir com mero complexo de viralatas, sempre apontei, na nossa formação um tanto quanto alheada, não criteriosa, sem rumo como algo, na melhor das hipóteses, “conveniente” para as elites. Uma classe média assim é bem mais fácil de manobrar, sem dúvida.
    Senão vejamos:
    ⚫ Adoramos comprar mais caro, para mostrar “poder” (Sic!);
    ⚫ quase sempre nos vestimos suntuosamente. Usar roupas casuais é para a “ralé“;
    ⚫ odiamos saber fazer reparos ou construir nossos próprios móveis; coisa de canelau, liseira. Na França, ao contrário, a briccolage denota status de alguém com habilidade;
    ⚫ na Copa de 2014, o Japão nos deu uma belíssima lição de educação e civilidade: após os jogos com aquele selecionado, saíam eles, torcedores, a catar o lixo gerado durante a peleja; mas, não. O brasileiro incorporou, ao contrário, os apupos homofóbicos dos mexicanos. A nossa tendência a só copiar o que não presta parece inesgotável.
    Sem um repensar educativo (e, claro, educacional!), jamais seremos um povo. Condenados eternamente a população.

  16. Luiz Cláudio Fonseca disse:

    Boa noite! Não se deveria estabelecer, do ponto de vista do liberalismo, correlação sem sujeito. Aliás, a classe média é classe Social. Belo exemplo de classe, em sua tensão paradoxal, que eu quero seja dialética, quando alinha com o vetor da ascensão capitalista, é também etilicamente reprovada pelo culturalismo ontologista (universalista). Já indagava Lula, da onde se extrai o convencimento? Da síndrome relativista? Do valor de troca, que inclui um suposto sujeito? Paul Singer deveria ter a resposta a resposta na ponta da língua, mas eu indago, se o Estado não é promoter e precisa sustentar as diferenças, precisa partir de qual princípio?

  17. Rogério Centofanti disse:

    A filósofa Marilena Chaui, a quem se pode acusar de tudo, menos da falta de erudição, vem sistematicamente questionando o conceito de classe média que toma como parâmetros o grau de escolaridade e o acúmulo de bens de consumo, lembrando que assalariado é sempre trabalhador, por maior que seja o valor desse salário. Dentro desse limite, o que a maioria das pessoas chama de classe média ela chama de neo-proletário ou equivalente. Do que se fala aqui, afinal?

  18. Elaine disse:

    Boa Rogério Centofanti também não entendi o objetivo deste texto, mas parece que os amigos da autora gostaram. Eu acho tão desnecessária esta discussão, ao invés de assumir classe média, porque não discutem as raizes das desigualdades, quem sabe assim encontramos mais respostas para resolver os privilégios abissais.

    • Olá Elaine. “Acho” que entendi o objetivo do texto, que seja o de atribuir a uma dada “classe” a reação de ódio em relação ao diferente, por conta do medo de “classe”. O que não entendi foi justamente essa questão da classe, pois em nenhum momento definida. De resto, não me agrada o espírito “edificante” do texto. O que estamos vivenciando, no meu entender, é um jogo de ódio entre “grupos” de diferentes maneiras de pensar e sentir (principalmente de sentir), e que vão moldando, até mesmo para consolidar identidade em torno de “igualdades” praticamente intuídas, na arena onde a bipolaridade dramatiza os embates, o comportamento de manada. Abraço

  19. Luiz Cláudio Fonseca disse:

    É possível que a substituição da palavra classe pela palavra conjunto alivie a consciência social (do “todo” ?) do liberalismo. A autorreferência tem este poder em relação à Matemática. Entretanto, desdobramentos laterais dentro da “classe” podem ocorrer pela disputa da hegemonia (ditar universalidade exterior à classe), mais pelo hábito do que pelo conteúdo.

  20. Gostei bastante do seu artigo e o citei em um texto em meu blog onde faço comentários nesse mesmo sentido.
    O golpe e o asco da família tradicional branca ao não convencional.
    O país atravessa a maior crise institucional desde a redemocratização. Depois de um processo de impeachment considerado por renomados juristas como golpe, o país mergulha em uma crise política e econômica que turva o futuro do país. Mais de 54 milhões de votos foram desconsiderados e uma presidenta eleita foi deposta. A ascensão do país como uma das maiores economias, uma das maiores reservas energéticas do mundo, com vastas áreas agricutáveis e grande mercado consumidor interno, corre grande riscos.
    http://blogodofranciscoaguas.blogspot.com.br/2016/11/o-golpe-e-o-asco-da-familia-tradicional.html

    • Grato pela indicação da leitura, Francisco. Gostei muito de seu texto. Interessante, porém, tem sido observar que o atual movimento de ódio, em especial pelas redes sociais, não ocorre por membros que você denomina da tradicional família branca, presumivelmente estudada e economicamente bem resolvida, mas pelos que, por falta de melhor definição, chamarei de neo-trabalhadores, esses mesmos que foram “incluídos” por meios da politicas do PT, inclusive no mundo digital. O PT, infelizmente, não foi capaz de mudar as mentalidades, não educou. Convenceu os “incluídos” que migraram para a classe media – o que nunca foi verdade – e agora os neo-trabalhadores pensam e agem com valores que “imaginam” os de classe – a média.

      • Rogério, obrigado pela leitura. Concordo com suas observações. Existem muitos incluídos pelas políticas públicas dos últimos anos que vomitam ódio. Creio que muitas dessas pessoas reproduzem como papagaios o discurso da classe média para tentar se sentir igual às classes dominantes e os formadores de opinião dos grandes meios de comunicação. O dinheiro e a condição social eles não conseguem ter igual, por consolação querem se igualar no discurso e para soarem “inteligentes” como os comentaristas da gnt. Porém isso não se reproduz em toda sociedade, vide as ocupações e movimentos contrários ao regresso imposto pelo governo ilegítimo (mesmo que em escala menor que gostaríamos). Já na classe média branca tradicional isso é muito mais hegemônico.

        • Francisco.
          Você vai encontrar o lúnpem de que falo nos comentários dos feeds populares de notícias, como do MSN, por exemplo. Os mais autoritários e raivosos são justamente os mais analfabetos, mais pobres, mais periféricos em relação aos grandes centros e menos brancos. Como sei? Postam comentários por meio do facebook, e quando não são fakes é possível saber muito sobre suas vidas. Eles são maioria, Francisco: é esse lúmpen que elege e elegerá cada vez mais quem perante ele aparecer com discurso moralista, justiceiro e vingador. Em retribuição a convite para visitar seu blog, eis o meu: http://nadamaisdoqueideias.blogspot.com.br/

  21. Paulo frança disse:

    Humm, entendi. Solução: instalamos o comunismo e acabamos com a classe média, retirando dela seus bens e distribuindo aos menos favorecidos. Assim, ninguém mais fica “com medo”, já que não haverão desiguais, já que todos serão pobres!
    Maravilha de ideia!!

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