"Ajuste fiscal"? Por que não seguir a Europa

Desemprego, recessão, crise da democracia. Joseph Stiglitz desmascara falso êxito das políticas de “austeridade” – que conservadores querem no governo Dilma

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Rumo à direita? Stiglitz alerta: “Quando cidadãos votam por mudança política, mas ficam sabendo que sua escolha é inútil, democracia é corroída” (na foto, Angela Merkel e Dilma Roussef em 2012)

Desemprego, recessão, crise profunda da democracia. Um Nobel de Economia desmascara o falso êxito das políticas de “austeridade” – as mesmas que conservadores querem no governo Dilma

Por Joseph Stiglitz | Tradução: Mariana Bercht Ruy

Um mito, acompanhado por uma fieira de jargões, espalha-se com rapidez no Brasil pós-eleições: o de que precisamos de um “ajuste fiscal”, de um “aperto de cintos”, para “recolocar ordem na economia”. Após um período de “descontrole” das contas públicas e “gastança”, os “agentes econômicos” (leia-se grandes bancos e empresas) teriam “perdido a confiança” no Estado e deixado de investir. Para seduzi-los novamente, seria preciso voltar às políticas mais ortodoxas. Elevação das taxas de juros. Corte de investimentos públicos. Contenção do salário-mínimo, da bolsa-família e de direitos previdenciários como o seguro-desemprego.

Repetido como mantra, esse discurso tem encontrado pouca resistência. Aécio Neves, que o sustentou durante a campanha eleitoral, foi derrotado pelos eleitores — num segundo turno em que Dilma investiu, para vencer, no tema de “Mais” mudanças e direitos. Porém, fechadas as urnas, foi como se elas nada tivessem dito. A mídia apresenta o “ajuste fiscal” como se não fosse uma opção política — mas uma necessidade objetiva e inescapável. A própria presidente reeleita pareceu abandonar, logo depois da vitória, seu discurso. Ainda em outubro, o Banco Central elevou as taxas de juros. Em 6 de novembro, ao conceder entrevista a oito veículos da velha mídia, Dilma anunciou corte de gastos. Um dia depois, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, revelou que o governo já  os prepara.

Mas o “ajuste fiscal” é uma escolha tão óbvia, para os governantes, como mobilizar as equipes de Defesa Civil, em caso de tragédia? No texto a seguir, Joseph Stiglitz, Nobel de Economia, demonstra que não. Ele examina o caso da Europa. Lá, com nome de “austeridade”, politicas de corte de direitos sociais e desmonte de serviços públicos estão sendo adotadas desde 2009. Cinco anos depois, os economistas conservadores veem sinais de “sucesso”. Stiglitz zomba. Todas as crises terminam um dia, ele lembra. Ao fazer o balanço, o que importa é aferir que sacrifícios foram exigidos, das sociedades, para enfrentá-las. Na Europa, o panorama é trágico. Além da corrosão dos direitos sociais, houve desgaste grave da democracia — desmoralizada quando os governos prometem “Mais” e entregam “mais do mesmo”. E não é só: voltam a surgir no horizonte sinais de que todo o sacrifício foi inútil. Mesmo países como a Alemanha parecem enfrentar, agora, estagnação — e contribuem para jogar lenha na fogueira de uma possível tempestade econômica mundial.

A redefinição da política econômica tornou-se um tema central. Árido aparentemente — porque interessa ao pensamento conservador reduzi-lo a algo para especialistas — ele pode ser compreendido por todos que se disponham a algum esforço. Vale a pena. Das escolhas que o Brasil fizer, neste terreno, dependerá, também, nosso futuro político, social e cultural. “Outras Palavras” insistirá no assunto. Vale, por enquanto, escutar Stiglitz. (A.M.)

“Se os fatos não se encaixam na teoria, mude a teoria”, diz o velho ditado. Mas muito comumente é mais fácil manter a teoria e mudar os fatos. É o que a chanceler alemã Angela Merkel e outros líderes europeus pró-austeridade parecem pensar. Mesmo com os fatos a um palmo do nariz, eles continuam negando a realidade.

A austeridade falhou. Mas seus defensores estão prontos a declarar vitória com base na evidência mais fraca de todas. A economia não está mais em colapso; logo, as medidas de austeridade só podem estar funcionando! Mas se essa for a referência, poderíamos dizer que pular de um penhasco é a melhor forma de descer uma montanha.

Toda crise chega a um fim. O sucesso não deve ser medido pelo fato de a recuperação em algum momento acontecer — mas pelo tempo que se demora para chegar a ela e por quão extensos são os danos causados pelo tombo. Vista nesses termos, a austeridade tem sido um desastre completo e absoluto. Isso está se tornando cada vez mais visível à medida em que as economias da União Europeia voltam a encarar estagnação — ou, talvez, um triplo mergulho em recessão, com o desemprego mantendo-se em altos patamares e o PIB real per capita ainda abaixo dos níveis pré-crise, em muitos países. Mesmo nas economias de melhor desempenho, como a Alemanha, o crescimento desde 2008 tem sido tão lento que, em qualquer outra circunstância, seria considerado desanimador.

Os países mais atingidos estão em depressão. Não existe outra palavra para descrever economias como a da Espanha ou da Grécia, onde quase uma em cada quatro pessoas – e mais de uma em cada duas, entre os jovens – não consegue encontrar trabalho. Dizer que o remédio está funcionando porque o índice de desemprego decresceu em alguns pontos percentuais, ou porque se pode ter um vislumbre de crescimento magro, é semelhante a um barbeiro medieval que diz que a sangria está funcionando, já que o paciente ainda não morreu.

Extrapolando o crescimento europeu modesto a partir dos anos 80, meus cálculos demonstram que a produção na zona do euro hoje está mais de 15% abaixo do ponto em que estaria, se a crise financeira de 2008 não tivesse acontecido. Isso implica uma perda de 1,6 trilhão de dólares apenas esse ano, e uma perda acumulada de mais de US$ 6,5 trilhões. Ainda mais perturbador é que essa diferença está aumentando e não diminuindo (como se esperaria depois de uma crise, quando o crescimento é tipicamente mais rápido do que normalmente conforme a economia retoma terreno perdido).

Em outras palavras, o longo período de recessão está diminuindo o crescimento potencial da Europa. Jovens que deveriam estar desenvolvendo habilidades não estão. Há evidências contundentes de seus rendimentos, ao longo da vidas, serão muito menores do que se vivessem num período de pleno emprego.

Enquanto isso, a Alemanha força outros países a seguir políticas que enfraquecem suas economias – e suas democracias. Quando os cidadãos votam repetidamente por uma mudança política (e poucas políticas importam mais aos cidadãos que aquelas que afetam seus padrões de vida), mas ficam sabendo que estes temas são decididos em outro lugar, e que, portanto, sua escolha é inútil, tanto a democracia quanto a fé no projeto europeu são corroídas.

A França votou para mudar de rumo três anos atrás. Em vez disso, os eleitores receberam outra dose de austeridade pró-corporações. Uma das propostas mais antigas na economia é o multiplicador do orçamento equilibrado. Significa que aumentar conjuntamente os impostos e as despesas estimula a economia. E se os impostos incidem sobre os ricos e as despesas beneficiam as maiorias, o multiplicador pode ser particularmente alto. Mas o dito governo socialista francês está reduzindo a tributação das empresas e cortando gastos – uma receita quase garantida para enfraquecer a economia, mas também para ganhar elogios da Alemanha…

A esperança, afirma-se, é que impostos mais baixos para pessoas jurídicas estimulem o investimento. Isso é pura bobagem. O que está reduzindo o investimento (tanto nos Estados Unidos como na Europa) é a ausência de demanda, não os impostos elevados. Na verdade, como a maior parte dos investimentos é financiada por dívidas, e como o pagamentos de juros é dedutível dos impostos, o nível de tributação das empresas tem pouco efeito na decisão de investir.

Da mesma forma, a Itália está sendo encorajada a acelerar a privatização. Mas o primeiro ministro Matteo Renzi tem o bom senso de reconhecer que vender empresas a preço de banana faz pouco sentido. Também as decisões do setor privado deveriam ser influenciadas por donsiderações de longo prazo, não por exigências financeiras de curto prazo. A decisão deveria ser baseada em onde essas atividades são realizadas de forma mais eficiente, servindo aos interesses da maioria dos cidadãos da melhor forma possível.

A privatização dos sistemas de Previdência, por exemplo, já provou ser dispendiosa naqueles países que a experimentaram. O sistema de saúde quase inteiramente privado norte-americano é o menos eficiente do mundo. Existem questões difíceis, mas é fácil demonstrar que vender empresas estatais por preços baixos não é uma boa forma de aumentar a força financeira a longo prazo.

Todo o sofrimento na Europa – infligido a serviço do euro – é ainda mais trágico por ser desnecessário. Apesar das evidências de que as medidas de austeridade não funcionam continuarem se acumulando, a Alemanha e outros falcões dobraram a aposta, apostando o futuro da Europa em uma teoria há muito desacreditada. Por que fornecer aos economistas mais fatos para provar isso?

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6 comentários para ""Ajuste fiscal"? Por que não seguir a Europa"

  1. Cezar Mariano disse:

    é bom esclarecer um pouco dos fatos acima citados pelo “outraspalavras”
    Joseph Stiglitz é contra a globalização que foi gerada hoje. onde o lucro pode ser transpotado a qualquer parte, criando um captalismo canibal, onde no final das contas, apenas grandes jogadores realmente ficam com o lucro, a politica bolivariana de dilma vai contra o que ele acredita, basta dar uma olhada em seus trabalhos e ate mesmo o que levou ele a ganhar o Nobel em 2001
    o engraçado que ja li varios artigos do prof., e este em si, NUNCA VI…. e teria me chamado a atenção.
    Em outra entrevista o mesmo fala:
    “Brasil o governo focou na educação, na alimentação, na pobreza e é muito surpreendente como essas políticas provaram ser adequadas”
    e isso em si virou um estardalhaço, do qual ele mesmo disse que “nunca pensou” que suas palavras virariam argumentos eleitoreiros…. o tão que na mesma entrevista ele fala….
    “São os pobres que sofrem com uma cidade mal planejada: os pobres sofrem com os transportes ruins, com a falta de parques públicos e de habitação”
    que são um dos principais problemas do brasil….
    ou seja, pegam apenas a parte boa da entrevista, para virar massa de propaganda….

  2. Lisboa Elia disse:

    Essa é uma questão muito simples!
    A Europa passa por uma crise de escassez de produtos no mercado internacional. Porque os países emergentes estão consumindo muito mais, diminuindo a oferta desses bens. A Europa tem duas opções, ou reduz seu consumo, ou enfrenta a hiperinflação.
    A DIlma tem duas escolhas, ceder ao desejo dos países imperialistas, colocando o Brasil em recessão, ou seguir os passos dos outros BRICs, ampliando nosso mercado e consumo interno. O que só pode ser feito com a valorização dos salários.
    Eu costumo dizer que a maioria ainda não compreendeu a situação, não só o povão, como também os movimentos sociais. Vou procurar esclarecer de forma muito simples!
    Se o governo tem dinheiro sobrando em caixa, ele pode aumentar o salário mínimo, as aposentadorias, e o funcionalismo; tudo sem gerar inflação. Os EUA tem como pagar mais de 2 mil reais de salário mínimo, e a Austrália o dobro disso.
    POR QUE NÃO PODEMOS PAGAR NEM 800 REAIS?
    Aí está todo o mistério!
    Porque roubam os cofres públicos!
    Ora, o combate à corrupção é tudo, pois é a origem de todos os demais problemas. E não é como o autor diz, que depende do judiciário. Isso depende de cada um de nós. O povo desinformado saiu às ruas sem saber o que pedir. E até hoje boa parte do povo, de nossas esquerdas e movimentos sociais, ainda não sabem o que pedir, o que é extremamente simples!
    COMO ACABAR COM A CORRUPÇÃO?
    Isso é algo tão básico, tão óbvio, que até criança de 12 anos entende.
    Precisamos apenas de uma coisa:
    DIREITO DE ELABORAR E CONVOCAR PĹEBISCITO!
    Os políticos são a própria corrupção, em sua maioria, e jamais se esforçarão para fechar as brechas da lei, deixadas à roubalheira. Se o povo não tiver o direito de propor e votar centenas de plebiscitos a cada eleição, para fechar essas brechas, como fazem os americanos, e também os suíços, alemães, etc; jamais conseguiremos enfrentar esse problema.
    Peguem o que quiserem de fotos nos protestos. Quem exigiu esse direito em seus cartazes?
    No fundo fomos para as ruas por descontentamento, mas sem saber nem o que pedir…
    Imaginem o respeito que ganharíamos, e a redução da corrupção com o
    REFERENDO REVOCATÓRIO DE MANDATO!
    Nosso direito de cassar políticos por iniciativa e voto popular. Por que praticamente ninguém pediu?
    Imaginem o poder de milhões de pessoas exigindo em seus cartazes:
    DIREITO DE CASSAR POLÍTICO
    DIREITO DE CONVOCAR PLEBISCITO
    Confiram os links, pra ver que não estou falando besteira:
    https://www.facebook.com/democracia.direta.brasileira/photos/a.300951956707140.1073741826.300330306769305/503107126491621/?type=3&theater
    Estariam nossos movimentos sociais tão submissos aos políticos, que os sustentam?
    O resultado das urnas em 2014 não reflete a percepção do povo, dessa má vontade política, jogando-os todos na vala comum, considerando-os farinha do mesmo saco?
    2016 e 2018 estão logo aí. Se o povo já percebeu a má vontade, é bom que nossos partidos de “esquerda” também se toquem. Senão, depois não adianta se lamentar…

  3. Bruno ribeiro disse:

    O Cézar Mariano, dá uma olhada nesse site abaixo. Tem sim esse artigo do Joseph Stiglitz. É o mesmo da tradução. Quanto a política de Dilma, eu acho mais adequada do que uma política austera, à estilo PSDB. Acredito que tenha que conter gastos sim o governo, mas não deixar de investir em programas sociais(que considero necessários). Gastar menos com a máquina pública, redução de parlamentares ou equipe de assessores seria mais viável, e até lógico. O problema é conseguir mobilizar isso.
    http://www.project-syndicate.org/commentary/joseph-e–stiglitz-wonders-why-eu-leaders-are-nursing-a-dead-theory

  4. Juliana disse:

    Lisboa Elia,
    gostei muito do seu comentário, obrigada pelo esclarecimento.

  5. Tony UCSAL disse:

    Alguns detalhes pouco conhecidos da crise financeira de 2008
    por Lew Rockwell, quarta-feira, 13 de março de 2013
    Não demorou muito para que os detratores do mercado descarregassem seus ataques histéricos ao capitalismo logo após os eventos de 2008. A crise financeira que resultou na quebra de vários bancos foi interpretada como sendo a prova cabal do quão destrutivo o “capitalismo desregulado” pode ser e do quão perigosos seus defensores são — afinal, os defensores do livre mercado se opuseram a todos os pacotes de socorro concedidos aos bancos, pacotes esses que supostamente salvaram os EUA de outra Grande Depressão.
    Em seu livro The Great Deformation, David Stockman — ex-congressista e diretor da Secretaria de Administração e Orçamento do governo Reagan de 1981-85 — conta toda a história da recente crise, e ataca impiedosamente o senso comum que credita às políticas do governo e a Ben Bernanke o mérito de ter salvado os americanos de outra Grande Depressão. Neste campo, a contribuição de Stockman é sem precedentes.
    O livro aborda todos aqueles argumentos que foram apresentados em defesa dos pacotes de socorro em 2008, os quais até hoje ainda representam o senso comum da mídia e da academia. Tanto naquela época quanto hoje, o principal argumento sempre foi o de que, caso o governo não interviesse, um “efeito contágio” iria fazer a crise financeira se propagar para todos os setores da economia americana, indo para muito além de alguns poucos bancos e corretoras de Wall Street. Sem os pacotes de socorro, as folhas de pagamentos de todas as empresas americanas não mais poderiam ser cumpridas. Os caixas eletrônicos parariam de soltar dinheiro e ficariam paralisados. Mas as sábias decisões políticas tomadas pelo Tesouro e pelo Federal Reserve impediram estes e outros cenários tenebrosos, e impediram a segunda Grande Depressão.
    Peguemos o exemplo do socorro à gigante AIG [American International Group, corporação americana provedora de serviços financeiros e seguros nos EUA e em outros países]. A AIG era uma empresa que fornecia seguros contra calotes de hipotecas. Os bancos concediam empréstimos para a aquisição de imóveis, e essas carteiras de empréstimos eram seguradas pela AIG. Para fazer tal seguro, a AIG vendia para os bancos um instrumento chamado CDS [credit default swap], e os bancos faziam uma série de pagamentos periódicos para a AIG em troca destes CDS. Caso os devedores dessem o calote nos empréstimos bancários, a AIG pagaria aos bancos.
    Porém, como os calotes foram vários, a AIG ficou completamente insolvente e foi socorrida pelo governo americano. O socorro ocorreu sob um ambiente de total histeria. Disseram ao público que a AIG tinha de ser socorrida pelo governo porque, caso contrário, todo o sistema bancário americano, cujas perdas estavam seguradas pela AIG, quebraria. O problema é que praticamente nenhum dos CDS vendidos pela AIG estava em posse dos bancos convencionais, aqueles fora de Wall Street. E mesmo em Wall Street os efeitos seriam confinados a apenas uma dúzia de bancos e corretoras, sendo que absolutamente todos eles possuíam um amplo colchão para absorver tais prejuízos.
    No entanto, graças aos pacotes de socorro do governo, os barões não tiveram um dólar de prejuízo em suas hipotecas caloteadas. No final, todo o socorro orquestrado pelo governo se resumiu a proteger os ganhos de curto prazo e os bônus dos executivos a serem pagos no final daquele ano.
    Essa proteção do estado aos grandes não foi de modo algum uma medida inédita. Dez anos antes, o Fed já havia emitido um sinal bastante claro de qual seria sua política futura: ele socorreu um hedge fund chamado Long Term Capital Management (LTCM). Se aquela empresa foi socorrida, concluiu Wall Street, então não mais há limites para os tipos de loucura que o Fed socorreria com sua criação de dinheiro.
    Desde o início, o LTCM, diz Stockman, era “um flagrante desastre financeiro que havia acumulado taxas de alavancagem de 100 para 1 com o objetivo de financiar gigantescas apostas especulativas em moedas, ações, títulos e derivativos ao redor do globo. A acentuada temeridade e a vultosa escala das especulações do LTCM não possuíam paralelo na história financeira americana . . . . O LTCM era algo explicitamente insolvente, e não tinha absolutamente nenhum direito de recorrer ao governo para utilizar recursos públicos para se safar.”
    Quando o índice S&P 500 disparou 50% ao longo dos quinze meses seguintes, isso não era um sinal de que as empresas americanas estavam vendo suas perspectivas de lucros aumentarem 50%. Ao contrário, tal aumento indicava a confiança de Wall Street de que o Fed iria impedir que futuros investimentos errados recebessem as tradicionais punições impostas pelo livre mercado. Sob este ‘capitalismo de estado’, o índice do mercado de ações passou a refletir “o estímulo monetário que era esperado do Banco Central, e não a expectativa de aumento dos lucros de empresas operando no livre mercado.”
    Não foram apenas algumas empresas específicas que usufruíram das benesses do Fed de Alan Greenspan e Ben Bernanke; todo o mercado de ações foi beneficiado. As políticas do Fed passaram a se concentrar no “efeito riqueza” gerado pelo aumento dos preços das ações. A ideia era que, se o Fed estimulasse os preços das ações, os americanos donos destas ações se sentiriam mais ricos e consequentemente estariam mais propensos a gastar mais e a se endividar mais para continuar consumindo, desta forma estimulando a atividade econômica. E foi isso o que aconteceu.
    Esta abordagem política, por sua vez, praticamente compeliu a implementação dos pacotes de socorro que inevitavelmente viriam. Qualquer evento que pudesse derrubar os preços das ações iria frustrar esse efeito riqueza. E isso não era tolerável. Logo, o sistema teria de ser estimulados por todos os meios necessários.
    Quais os resultados desta política? Ela tem algo do que se gabar? Stockman fornece a resposta:
    Se os planejadores centrais do sistema monetário estavam tentando criar empregos por meio do sinuoso método do “efeito riqueza”, então eles têm de estar profundamente constrangidos pela sua incompetência. A única coisa que ocorreu no front da criação de empregos ao longo da última década foi uma maciça expansão das ‘brigadas do urinol e do diploma’ — isto é, os empregos foram criados apenas em hospitais, clínicas de repouso, agências de saúde domiciliar e faculdades. Com efeito, o complexo educacional-hospitalar responde pela totalidade dos empregos criados desde o final da década de 1990 nos EUA.
    Enquanto isso, o número de empregos realmente capazes de sustentar uma família de classe média não aumentou absolutamente nada entre janeiro de 2000 e janeiro de 2007, permanecendo em 71,8 milhões. Toda a forte expansão ocorrida no mercado imobiliário, no mercado de ações e no consumo das famílias conseguiu, no final, produzir apenas esta amarga estatística. E quando se considera todo o período de 12 anos desde 2000, houve uma criação líquida de 18.000 empregos por mês — um oitavo da taxa de crescimento da força de trabalho.
    Abaixo, a evolução da taxa de emprego em relação ao total da população.
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    Após o estouro da crise financeira, o Fed continuou criando dinheiro para irrigar o mercado de ações. Em setembro de 2012, o S&P já havia subido 115% desde suas mínimas atingidas no pós-crise. Dos 5,6 milhões de empregos capazes de sustentar uma família de classe média perdidos durante a recessão, somente 200.000 haviam sido restaurados até aquele mês. E durante esta tão badalada “recuperação”, o fato é que as famílias americanas gastaram, no terceiro trimestre de 2012, US$30 bilhões a menos em alimentos do que gastaram durante o mesmo período de 2007.
    O repentino surgimento de enormes déficits orçamentários nos últimos anos, na casa de US$ 1 trilhão, simplesmente explicitou aquilo que a bolha dos anos Bush havia escondido. A falsa riqueza gerada pela expansão do mercado imobiliário e do consumismo no período 2000-2008 conseguiu reduzir temporariamente a quantidade de dinheiro gasta em programas assistencialistas, e temporariamente aumentou a quantidade de receita tributária auferida pelo governo. Porém, tão logo essa falsa prosperidade se arrefeceu, o verdadeiro déficit, o qual havia apenas sido suprimido por estes fatos temporários, começou a aparecer.
    Durante todo este período de bonança artificial, o Fed havia garantido aos americanos que os EUA estavam vivenciando uma genuína prosperidade. Ao inundar Wall Street com dinheiro criado do nada, o Fed viu o valor das ações e dos imóveis disparar e anunciou que estava contente com o “efeito riqueza” assim gerado. As pessoas passaram a utilizar a contínua valorização de seus imóveis como colateral para refinanciar suas dívidas e conseguir mais empréstimos junto aos bancos, aumentando continuamente seu consumo e seu endividamento. Ao testemunhar esta farra consumista, o Fed maravilhou-se com o fato de que os dados macroeconômicos eram ainda melhores do que o esperado.
    Que estas deformações tenham sido confundidas com prosperidade e crescimento econômico sustentável é uma boa prova da insensatez sem fim das doutrinas monetárias hoje em voga no meio monetário.
    Stockman também discute em seu livro as condições fiscais do governo americano. Parte dessa história nos remete aos gastos militares dos anos Reagan. A história narrada por Stockman, que foi membro daquele governo, não é a mesma que se ouve da boca dos políticos. A verdadeira história é exatamente aquela da qual todo mundo suspeitava: um frenesi de programas irrelevantes e arbitrários, os quais, uma vez iniciados, não mais eram interrompidos, dado que vários empregos passaram a depender deles.
    Mas pelo menos esta escalada dos gastos militares gerou o colapso da União Soviética, certo? Stockman não acredita nisso. “Os US$3,5 trilhões (em dólares de 2005) gastos em defesa durante os anos Reagan não fizeram com que o Kremlin erguesse a bandeira branca da rendição. Praticamente nenhum dólar foi gasto em programas que de fato ameaçassem a segurança soviética ou debilitassem sua estratégia de intimidação nuclear.”
    No cerne do programa de gastos militares do governo Reagan . . . havia um paradoxo. Os tambores da guerra rufavam uma estratégica ameaça nuclear que virtualmente ameaçou a civilização americana. No entanto, o dinheiro estava sendo realmente gasto em tanques, barcaças de desembarque anfíbio, helicópteros de apoio aéreo aproximado, e uma vasta armada convencional de navios e aviões.
    Estas armas seriam de pouco valor na eventualidade de um embate nuclear, mas eram muito adequadas a missões imperialistas de invasão e ocupação de outros países. Ironicamente, portanto, a corrida armamentista do governo Reagan foi justificada por um Império do Mal (como ele se referia à URSS) que estava rapidamente desaparecendo, mas, no final, foi utilizada para iniciar guerras eletivas contra um Eixo do Mal que nem sequer existia.
    O que realmente viria a derrubar a União Soviética era a sua própria economia centralizada — um ponto que, observa Stockman, os economistas libertários já vinham anunciando havia algum tempo. Os neoconservadores, por outro lado, faziam ridículas alegações sobre as capacidades soviéticas e sobre sua ‘portentosa’ economia exatamente em uma época em que sua decrepitude já deveria estar óbvia para todos. Estas asserções inflamadas sobre os inimigos do regime continuaram a ser o procedimento padrão dos neoconservadores até muito tempo depois do fim dos anos Reagan.
    No final, o objetivo do livro de Stockman é mostrar como todos os intelectuais da mídia e do meio político enganaram e manipularam os americanos. Acima de tudo, seu objetivo é mostrar que as tentativas de culpar os atuais problemas econômicos dos EUA no “capitalismo” são ilógicas e absurdas, e revelam uma completa falta de entendimento sobre como a economia tem sido deformada ao longo das últimas décadas.
    Stockman bate com gosto nos formadores de opinião progressistas — defensores do cidadão comum, como gostam de se autointitular — que defenderam os pacotes de socorro aos bancos e naqueles pretensos “livre-mercadistas” que defenderam o TARP (Troubled Asset Relief Program — Programa de Alívio para Ativos Problemáticos), como praticamente todos os candidatos republicanos de 2012, com a exceção de Ron Paul. Ambos os lados, em uníssono com a mídia convencional, repetiram continuamente estórias assustadoras sobre o quão grande seria a tragédia caso o governo não tomasse dinheiro dos pequenos para dar para os grandes. E ambos os lados só tinha coisas boas a dizer sobre como o Fed gerenciou a economia americana nos últimos 25 anos.
    O livro de Stockman mostra com dados, argumentos e uma sólida teoria por que o livre mercado tem de ser exonerado das acusações violentamente proferidas por burocratas, políticos e seus aliados, todos ávidos para encontrar um bode expiatório que os livrasse das consequências trágicas de suas próprias políticas.
    Lew Rockwell é o chairman e CEO do Ludwig von Mises Institute, em Auburn, Alabama, editor do website LewRockwell.com, e autor dos livros Speaking of Liberty e The Left, the Right, and the State.
    Tradução de Leandro Roque

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