A possível economia pós-petróleo

Novo estudo sugere: já temos condições tecnológicas para assegurar vida digna a todos os habitantes planeta, sem depender dos combustíveis fósseis

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Por Danny Chivers, no World Development Movement | Tradução: Antonio Martins

A grande maioria das pessoas, em todo o mundo prefere energias renováveis a combustíveis fósseis e centrais nucleares. É o que demonstram, cada vez mais, as pesquisas globais de opinião pública, e é por isso que as sociedades estão se opondo a projetos de extração de combustíveis e reivindicando alternativas mais limpas, em todo o mundo.

“Isso é ótimo – dizem os defensores dos combustíveis fósseis – e, claro, todos queremos energias limpas um dia, mas por enquanto precisamos de carbono, petróleo e gás, porque os combustíveis renováveis não podem abastecer o planeta. Queimar carvão é um mal necessário; não há escolha exceto extrair até mesmo betume das rochas, ou praticar fracking sob os parques nacionais, ou sondar o Oceano ártico, ou explodir montanhas com depósitos de hidrocarbonetos. É uma vergonha, mas que fazer?”

Os defensores das energias limpas defrontam-se, em qualquer parte e todos os dias, com estes velhos argumentos. Mesmo sabendo que não são verdadeiros, não é fácil respondê-los sem fazer referência a longos textos de pesquisa ou relatórios herméticos, que poucas pessoas estão dispostas a ler.

É por isso que a Rede Britânica de Rochas Betuminosas desenvolveu um novo webside e infográfico, intitulado Dois Futuros Energéticos. Ele articula todos os fatos e números relevantes visualmente. Permite compreender, num olhar, que é perfeitamente possível assegurar a todos no planeta boa qualidade de vida, movida inteiramente com energias renováveis – e evitando, assim, o aquecimento global. Em contraste, também mostra o futuro (francamente terrível) para o qual caminhamos, segundo reconhece a Agência Internacional de Energia, caso as empresas e governos mantenham seus padrões atuais. Neste cenário, graves mudanças potencialmente devastadoras são inevitáveis.

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Nosso modelo de um futuro mais limpo e mais justo difere dos cenários de “baixo carbono” num aspecto importante. Ao invés de partir do modelo em vigor, profundamente desigual, partimos dos princípios e fizemos a seguinte questão: de quanta energia realmente necessitamos para assegura boa qualidade de vida? O último relatório do Centro de Tecnologia Alternativa (“Reino Unido com Carbono Zero: Repensando o Futuro”) traz uma excelente análise sobre o volume de eletricidade, aquecimento e combustíveis líquidos necessários, por pessoa, para uma vida de baixa energia, porém “padrão nórdico” – isto é, com geladeiras, hospitais, trens e cinemas. Significa que tomemos todas as decisões inteligentes conhecidas em relação a melhora do transporte público, uso reduzido de automóveis e aviões, casas termicamente isoladas e menos consumismo.

Mar era preciso saber quanta energia pode ser gerada globalmente, a partir de diferentes fontes renováveis. Para isso, usamos as estimativas do renomado livro de Davi Mackay, Sustainable Energy Without the Hot Air, bem avaliado pela maioria dos estudiosos de energia. O cruzamento das informações mostra que as atuais tecnologias renováveis já permitem estender este padrão a todo o planeta, mesmo levando em conta o crescimento populacional.

Há, é claro, alguns importantes alertas. Não basta trocar as fontes. O planeta precisa de uma partilha mais justa da energia globalmente produzida. As tecnologias de fontes renováveis só podem mover o mundo se os muito ricos reduzirem seu consumo, para que todo o planeta atinja um nível sustentável. Além disso, em nosso modelo, há um pequeno espaço para o uso nobre do petróleo, como matéria-prima para produtos químicos e plásticos. Também consideramos o recurso a fontes agro-energéticas, para os casos em que os combustíveis líquidos são insubstituíveis, e como reserva para geração de eletricidade em períodos de alta demanda.

Mas, visto em seu todo o cenário é muito positivo. Outro futuro energético é certamente possível. Ele pode realizar-se? Depende de nossa capacidade de agir e fazê-lo acontecer. Há muitas pessoas no mundo já envolvidas na luta por um futuro mais justo e mais limpo. Nosso site procura ajudá-las a mostrar que o futuro pelo qual se empenham é viável. Trata-se de um passo crucial para traçar uma rota de transição.

Evidentemente, nosso modelo não é o único futuro seguro. Não pretendemos ter todas as respostas corretas. Mas podemos afirmar com segurança que o planeta e as sociedades já dispõem de tecnologias para oferecer a todos os habitantes uma vida digna sem o uso de carvão, rochas betuminosas, fracking ou a extração de petróleo do Ártico. Ainda mais importante: sem desencadear um desastre climático irreversível.

O futuro real provavelmente será diferente das duas opções apresentadas em nosso gráfico. Mas não deixe ninguém dizer que “precisamos” de combustíveis fósseis para dar energia ao mundo. Não precisamos.

Explore os infográficos (por enquanto, em inglês, em www.twoenergyfutures.org)

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2 comentários para "A possível economia pós-petróleo"

  1. Leonardo disse:

    Considerando que essa transição seja pacífica, todas essas projeções poderiam ser viáveis.
    Eu já sou mais pessimista e acho que quando o petróleo começar a escassear e o preço do barril disparar, dobrar e até triplicar, nós teremos guerras.
    O problema esta no total domínio desse setor pela indústria e lobby petroleiro, que há anos suprime novas tecnologias, compra patentes e só financia pesquisas que não ameacem sua hegemonia energética.

  2. André disse:

    A civilização do petróleo em que vivemos pode ser transformada.
    O belo estudo exposto na matéria reforça uma verdade que foi muito divulgada na década crítica da crise petroleira de 1973 a 1982. Que verdade é essa? É que existem alternativas técnicas ao petróleo para prover grande parte da energia necessária para a reprodução quotidiana da vida material. A partir dessa verdade, é tentador fazer um salto de raciocínio e afirmar que a transformação está obstruída por um complô do qual somos apenas vítimas. Tenho essa impressão, de que nos colocamos na posição de vítimas impotentes, quando se afirma, como diz o texto, que caminhamos para um futuro “francamente terrível” caso “as empresas e governos mantenham seus padrões atuais. Como se as empresas e governos fossem entidades autônomas. Ao fazer esse salto, acredito que renunciamos um pouco a nossa capacidade de agir, ao não nos entendermos como sujeitos de nossa realidade. Ao assim fazer, acho que perdemos de vista possibilidades técnicas ainda mais imediatas do que as mencionadas no estudo para participar da transformação que já está acontecendo em nossa civilização petroleira.Tudo o que existe no nosso entorno é produto social, é resultado de nossa convivência no trabalho pela reprodução da vida material. É claro que existem estruturas de poder, e formas de dominação. E que o poder não é igual em cada pessoa. Mas cada um de nós tem sim poder de ação, ainda que numa pequena parcela. Na extensão dessa parcela somos sujeitos, e não vítimas passivas. Para agir enquanto sujeitos de nosso destino, acredito que devemos ter cuidado com as posições de fundo moral, na medida em que elas podem perturbar nosso entendimento das condições objetivas de transformação, tanto os obstáculos quanto as possibilidades. Na civilização do automóvel em que vivemos, boa parte da população tem seu ganha-pão em torno da produção desses veículos e seus acessórios mecânicos (carrocerias, motores, freios, caixas de marcha, rodas, suspensão, amortecedores, radiadores, para-brisas, etc., etc.). Se juntarmos a isso serviços de manutenção como as oficinas mecânicas, e postos de combustível, estamos falando do trabalho de cerca de setenta a oitenta milhões de pessoas no mundo todo. Infelizmente esse trabalho produz máquinas de desperdício, já que as limitações técnicas fazem que seja diretamente desperdiçado cerca de 30% do petróleo consumido diariamente nos automóveis. O fato é que um futuro diferente tem que ser construído a partir do que temos hoje. Nesse sentido, acredito que existe um instrumento radical de transformação dessa desperdiçada realidade automobilística. Esse instrumento é o transporte coletivo. O comportamento mais revolucionário que podemos ter é fazer uso do transporte coletivo na maior medida possível. Essa simples mudança nos colocaria imediatamente numa sociedade de baixo carbono, em comparação ao que temos hoje. Acredito mesmo que seja essa a principal oportunidade presente nas recentes manifestações de rua no Brasil: reivindicar a melhora na qualidade e quantidade do transporte coletivo. Mas, mesmo com todas as limitações, não dá só para culpar governos e empresas pela falta de melhor transporte coletivo e, acima de tudo, pelo uso do transporte coletivo. Nós também somos sujeitos do uso do automóvel particular porque, mais que um simples meio de transporte, o carro próprio é um meio de socialização, é um símbolo de ascensão social, principalmente para as pessoas de baixa renda. Na inauguração de mais uma fábrica de automóveis, Lula disse certa vez que “o cidadão pensa em ter o primeiro carro antes de ter a primeira mulher”. Eu diria mais, o cidadão pensa no primeiro carro como um instrumento para conquistar a primeira mulher. Basta ver a letra da canção muito rodada nas rádios há bem pouco tempo, e na voz de uma mulher: “Quer andar de carro velho, amor?/Então venha./Porque namorar a pé, amor/É lenha”. É inegável que há muito interesse em jogo na civilização do automóvel. Mas esse interesse também é nosso, não só dos governos e das empresas. Cabe a cada um de nós fazer sua parte: sempre que for possível, vá de transporte coletivo.

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