Um ambientalista vê a Legalidade

Cinco décadas depois, vale examinar como Henrique Roessler, pioneiro das lutas ambientais, enxergou campanha liderada por Brizola contra o golpe

Por Elenita Malta Pereira1

Em meio às comemorações dos 50 anos da Campanha da Legalidade, convém trazermos à tona memórias e relatos sobre esse importante movimento de resistência. Em 31/08/61, Henrique Luiz Roessler escreveu uma carta à neta Marli Guinter, que se encontrava nos Estados Unidos, informando-a sobre os episódios no Rio Grande do Sul. Hoje, essa carta é um interessante documento sobre aqueles acontecimentos. Roessler (1896-1963), ex-delegado florestal regional, fundador da União Protetora da Natureza (primeira entidade de proteção ambiental do Estado, em 1955), articulista do jornal Correio do Povo, morava em São Leopoldo, região metropolitana de Porto Alegre, e acompanhava atentamente os eventos. Ele estava decepcionado com a renúncia de Jânio Quadros, o qual admirava pelas leis favoráveis à natureza sancionadas como governador de São Paulo e, em seu curto mandato presidencial, por um decreto que regulava o despejo de resíduos industriais nos rios.

Segundo Roessler, dirigindo-se à neta, “o desentendimento houve, quando Janio deu uma medalha para o vermelho ‘Che’ Guevara, o que revoltou toda a nação”. Em 25 de agosto, Jânio renunciou, e rumores de um possível golpe militar começam a ganhar força. No entanto, o povo queria que o vice Jango (João Goulart) assumisse, queria “o cumprimento da constituição e que se mantivesse a ordem democrática”.

Para que a constituição se cumprisse, o governador do Rio Grande do Sul na época, Leonel Brizola, organizou um movimento de resistência ao golpe. Tinha início a Campanha da Legalidade, com o apoio de militares gaúchos do III Exército, comandado pelo general Machado Lopes. Brizola requisitou a rádio Guaíba, de Porto Alegre e, através de seus microfones, proferiu discursos, conclamando a população a defender a posse de Jango. Diversas emissoras uniram-se à Guaíba e transmitiram os pronunciamentos de Brizola para todo país, na que ficou conhecida como “Rede da Legalidade”. Segundo Roessler, muitos largaram “o serviço e foram para as ruas e praças para apoiar Brizola, o nervosismo tomou conta das famílias. Circulam a todo instante novas e alarmantes notícias”. Quando os militares decidiram bombardear o Palácio Piratini, “a coisa ficou preta. Famílias fugiam, reinou a confusão” e “os curiosos, em vez de se afastarem, correram à Praça da Matriz para assistir ao raríssimo espetáculo de um bombardeio (…) um bêbado deu três tiros, ferindo-se a si mesmo e dois outros, o que originou um grande pânico por alguns momentos”.

Quando os oito aviões que fariam o bombardeio foram presos na base aérea de Canoas, “a coisa melhorou”. Entretanto, segundo Roessler, ninguém mais trabalhava, “o rádio grita dia e noite, e como se isso não bastasse, instalaram alto-falantes em toda a parte e em Porto Alegre ainda carros equipados com esses alto-falantes correm pelas ruas fazendo um infernal berreiro”. As ruas centrais ficaram apinhadas de militares e civis, estes armados fortemente, “à procura de ‘generais’ para darem tiros, mas como agora eles se cambaram para o lado de Jango, não encontram outros para matar. Alguns carregam trabucos tão grandes na cintura, que chegam a caminhar curvados; exibindo esses pequenos canhões nos cafés e deixando-se fotografar, estão tristes porque não encontram alvos (generais). É uma verdadeira comédia”.

No dia anterior à escrita da carta, Brizola havia feito um grande comício, em frente ao Piratini, onde usou sua habilidade retórica: “quando Brizola disse que quer morrer se não puder viver com honra, fez o povo delirar de entusiasmo”. Além das ameaças de bombardeios, os bancos fecharam, e as mercadorias ficaram escassas, causando preocupação a Roessler: “Todos estão se sortindo de gêneros alimentícios e já há falta de farinha de trigo. A gasolina já foi toda requisitada pelas Forças Armadas (…). Amanhã já não haverá pão; sei de alguns que deixaram para hoje fazer rancho e pelo fechamento dos bancos ficaram sem dinheiro e os armazéns estão ficando vazios”.

TEXTO-MEIO

Ao final da carta, ele lamentou, inconformado com a renúncia de Jânio: “É uma tristeza que a política não deixa a nossa Pátria sair da Era de Republiqueta da Banana. Mal está querendo se aprumar um pouco com a ajuda de outros povos amigos, como no governo de Jânio, já vem um baque brabo, que leva tudo para o fundo da lama de novo”. O discurso patriótico do ex-presidente, embalado na campanha eleitoral com o jingle “varre, varre, vassourinha”, atraiu a simpatia de Roessler. Infelizmente, após a renúncia de Jânio, não foi cobrado o cumprimento do decreto que punia o despejo de substâncias industriais nos rios. Diversos governantes se sucederam, mas a situação (para os rios brasileiros), passados 50 anos, não mudou, pelo contrário, agravou-se, se lembrarmos das recorrentes mortandades de peixes em diversos Estados. É possível concordar com Roessler que, em certos aspectos, continuamos uma República de Bananas, só que sem sabor de banana, de tanto agrotóxico colocado nelas atualmente…

Dias após a escrita da carta, em 2/09/61, a situação se acalmou com a aprovação no Congresso de uma saída através do parlamentarismo, e Jango foi empossado Presidente no dia 7 de setembro. Não era a solução ideal, mas pelo menos, não houve “derramamento de sangue”, o que nem Jango nem Roessler queriam. O legado do Movimento da Legalidade, 50 anos depois, é a vitória da democracia; mesmo que o golpe viesse três anos depois, num contexto bem diferente. Em 1961, a sociedade venceu e conseguiu fazer valer os valores democráticos, o que, ainda hoje, não devemos (jamais) perder de vista.

Jânio concedendo a medalha a Che Guevara

Capa da Revista do Globo – Brizola falando para a “Rede da Legalidade”

Este é o Roessler

1 Mestre em História (UFRGS).

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Elenita Malta Pereira

Historiadora. Doutoranda em História na UFRGS. Autora do blog A voz da primavera.