Será que agora ficou claro?

Chéri à Paris dá a cartada final sobre como os franceses são confusos ao negar afirmando… ou melhor, afirmar negando

Por Daniel Cariello*, Chéri à Paris

No meu prédio não tem síndico, mas uma empresa responsável pela limpeza e manutenção das áreas comuns do edifício, que, por sua vez, emprega dois guardiães, executores dessas tarefas.

Há também um conselho sindical, incumbido de contratar essa empresa e de organizar as reuniões de condomínio. Estas, juntamente com a benzetacil, estão entre as coisas das quais mais tenho medo na vida. Felizmente, até hoje consegui evitar contato com ambas.

Acontece que o conselho sindical decidiu demitir os guardiões do prédio (vejam só, sempre quis mostrar pra todo mundo que conhecia os dois plurais de guardião, e eis que a chance se apresenta. Aproveito para mandar um beijo para a Aliete, minha professora de português da 6a série, que aplicava provas infernais, cujas análises sintáticas e semânticas até hoje me dão pesadelos).

Bom, mas como eu dizia, o conselho sindical resolveu que era hora de pirulitar o casal que cuida do imóvel e desempenha tarefas básicas e necessárias, como limpar as lixeiras, varrer o chão e tratar mal os desconhecidos. E para anunciar a novidade, colou um aviso na entrada do edifício. A acusação: o par não prestara um serviço a uma habitante em dificuldade.

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Furioso, o casal rebateu também com um papel, pregado ao lado do primeiro. Nele, dizia que não haviam não prestado o serviço, que seria o mesmo que dizer que haviam prestado, mas é completamente diferente.

O conselho sindical não tardou a responder que sim, os dois haviam não prestado o serviço e por isso estavam sendo justamente despejados.

Os guardiães/ões mais uma vez retrucaram, afirmando enfaticamente que não era verdade que sim, eles haviam não prestado o tal serviço. O real ocorrido, segundo eles, era sim, eles não haviam não prestado.

O conselho sindical subiu nas tamancas e preparou mais um aviso, que foi posto ao lado dos outros e transformou a entrada do prédio em uma galeria de arte abstrata. Nele, atestava que tinha provas irrefutáveis de que não era a realidade que o casal não havia não prestado o serviço. E que a atitude dos dois, em um país como a França, era o mesmo que sim, prestar um desserviço.

A questão ainda está longe de terminar e é provável que logo ela pare na justiça. Mas talvez antes deva parar em um gramático e um lógico. Pelo menos pra que fique claro o que aconteceu. Ou pra que não fique claro o que não aconteceu. Ou pra que fique escuro o que…

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(*) Daniel Cariello, editor da revista Brazuca, é colaborador regular do Outras Palavras. Escreve a coluna Chéri à Paris, uma crônica semanal que vê a cidade com olhar brasileiro. Os textos publicados entre março de 2008 e março de 2009 podem ser acessados aqui

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Daniel Cariello

Daniel Cariello é colaborador de Outras Palavras e, antes, do Diplô Brasil, desde 2008. Já lançou dois livros de crônicas, Chéri à Paris (2013) e Cidade dos Sonhos (2015), ambos best sellers na Amazon. Foi cronista de Veja Brasília e Meia Um. Este texto faz parte de seu novo projeto, Cartas da Guanabara, com crônicas cariocas. É editor do selo literário Longe.

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