Rico ou pobre, negro ou branco

Maior sucesso francês do ano, “Intocáveis” é uma comédia popular baseada na oposição rico/pobre, negro/branco

Por Bruno Carmelo, do Discurso-Imagem

O maior sucesso francês do ano se chama Intouchables, ou “intocáveis” em tradução literal. Embora Rien à Déclarer ainda tenha uma bilheteria superior, esta nova comédia francesa já tem a quebra do recorde garantida para daqui a duas semanas provavelmente. Diante destes sucessos inesperados, todas as mídias falam do filme, se interrogam sobre as origens deste resultado excepcional (a tal “fórmula do sucesso”,  inexistente sem dúvida, mas procurada por todos os produtores), enquanto aqueles raros jornalistas que não apreciaram o filme se vêm obrigados a lançar ataques ainda mais violentos, para serem entendidos em meio à maré de comentários favoráveis.

Intouchables é uma comédia popular muito simples em sua estrutura: um homem pobre e negro, morador da periferia, é contratado, quase por acidente, a cuidar de um rico tetraplégico. As diferenças entre os dois são o principal motor cômico (o negro ouve ópera pela primeira vez, o burguês engana a polícia pela primeira vez), e a narrativa se desenvolve pelo atrito humorístico entre os opostos.

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A presença muito evidente de estereótipos (étnicos, sociais, culturais) irritou muitos jornais, principalmente os de extrema-esquerda (Marianne, L’Humanité) que disseram ser absurdo reduzir a sociedade a estes opostos simétricos. Ora, contra estas vozes vieram centenas de críticas favoráveis, constatando que:

1) Estes dois não são personagens universais, suas posições estereotipadas se distinguem dos outros burgueses e habitantes de periferia ao redor; 2) Nenhum deles se torna uma “pessoa melhor”, ou seja, acaba o moralismo, ambos permanecem presos às suas mesmas manias e crenças iniciais – algo atacado por alguns como forma de determinismo; 3) Não se tem exatamente um maniqueísmo, porque as diversas ações ilegais e imorais de ambos nunca são punidas, ao contrário, são mesmo encorajadas, de modo que estes intocáveis são acima de tudo “inconsequentes”; 4) O roteiro insiste não tanto nas diferenças bastante visíveis entre os dois, mas principalmente nas semelhanças essenciais, ou seja, ambos querem se liberar do sistema rígido que lhes é destinado (o burguês não quer ser preso à rentabilidade de seu negócio, o habitante de periferia quer escapar aos trabalhos precários).

Com um filme destes, comercial e despretensioso, fica evidente a eterna questão artística da forma contra o conteúdo. As opiniões contrárias ao filme não atacavam seu discurso ou sua realização, e sim a simples presença de um tema claramente estereotipado. O problema de tal ataque é que ele acaba “proibindo” certos temas, insinuando que a presença deles é necessariamente ruim, e deve ser evitada. Cria-se um tabu.

Ora, os clichês sempre existiram em toda organização social (“Os clichês me permitem ganhar tempo”, dizia o personagem de George Clooney em Amor Sem Escalas), o problema é como eles são trabalhados. O uso de opostos para insinuar que os dois pólos mostrados são os únicos existentes na sociedade seria realmente problemático, tanto quanto os clichês que caminham a um meio-termo formado pelo contato “transformador” entre ambos. Ora, o mais interessante desta comédia ágil, com um ritmo de diálogos frenético, é que ela não propõe a curva tradicional da comédia, apostando numa sucessão linear de piadas e na ausência de desenvolvimento dos personagens. Eles são tão intocáveis que sequer se transformam, o que mantém o potencial cômico intacto até o final.

Por fim, é interessante constatar que os três maiores sucessos recentes do cinema francês são comédias populares, sem nenhum apelo estético particular, apenas baseado no trabalho do roteiro e dos diálogos. Além disso, Bienvenue chez les ch’tis (20 milhões de espectadores), Rien à déclarer (8 milhões) e Intouchables (provavelmente mais de 10 milhões) têm em comum o humor simples entre opostos, seja o homem do norte contra o homem do sul, o francês contra o belga e o burguês contra o pobre, respectivamente. O público parece ter gostado desta demonstração bastante clara e simples entre as diferenças, espécie de ilustração resumida e concentrada de todos os clichês e preconceitos populares.

A grande diferença entre eles, no entanto, é que enquanto os dois primeiros filmes (ambos dirigidos por Dany Boon) promoviam a união entre opostos e a fraternidade a qualquer preço, Intouchables prefere manter até o fim a “integridade do estereótipo” de ambos os personagens, respeitando os excessos de cada representação extrema. Os três filmes têm pontos de partida idênticos, com bilheterias espetaculares, mas com conclusões radicalmente distintas. Contra a proposta quase religiosa e moralista do tipo “sejamos todos amigos”, Intouchables executa a pequena proeza de promover a amizade dos opostos enquanto tais, sem que ninguém precise se transformar numa pessoa melhor por isso.

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Intouchables (2011)

Filme francês dirigido por Eric Toledano e Olivier Nakache.
Com François Cluzet, Omar Sy, Anne Le Ny, Audrey Fleurot.

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Bruno Carmelo

Mestre em teoria do cinema pela Universidade Sorbonne Nouvelle - Paris III, e autor de duas dissertações sobre a crítica de cinema. Trabalha como editor e crítico de cinema no site AdoroCinema.