Os governos sul-americanos,pra onde vão?

A riqueza natural do continente tem garantido crescimento econômico e ajudado a combater, aqui, a crise que caiu sobre EUA e Europa. Mas a pressão sobre o ecossistema pode colocar tudo a perder

No decorrer das últimas semanas, Outras Palavras voltou a botar os pés num tema espinhoso ao publicar dois textos que — cada um à sua maneira — lançam olhares sobre o modelo de desenvolvimento na América Latina. Na quinta-feira (17), o economista Ricardo Abramovay teceu alguns comentários sobre os persistentes níveis de desmatamento e primarização da economia em nossos países. Disse que a América Latina é, junto com a África, o único lugar do mundo onde ainda se consome menos do que o meio ambiente é capaz de produzir. Essa relação, porém, assegura o professor da Universidade de São Paulo (USP), está prestes a mudar.

Baseado num relatório da ONU, Abramovay anota que, hoje, a economia latino-americana está mais primarizada. Em 1998, 42% de nossas exportações se baseavam em produtos agrícolas, pecuários e minerais. Dez anos depois, 53% de nossas balanças comerciais dependem de atividades que, via de regra, geram pouco valor agregado e altos níveis de concentração de renda — além de aumentar as pressões sobre o meio ambiente. Daí outro dado preocupante: “Enquanto na Europa, na América do Norte e na Ásia as áreas florestais se ampliam, na África e na América Latina elas continuam encolhendo.”

É incrível como a “economia da destruição da natureza” ganham terreno nos países latino-americanos. E, ao contrário do que poderíamos pensar, a geração de riquezas via depredação e acumulação não mudou após a vitória eleitoral dos governos “progressistas” no começo do século 21. Pelo contrário, como dizem as estatísticas da ONU, o processo profundizou-se: inclusive com a abertura de novas frentes de exploração, como a mineração industrial, em franca ascensão no Peru, Colômbia e Equador.

Aqui se encaixa outro texto, que publicamos na quarta-feira (23) e que fala sobre o crescimento do número de processos criminais abertos pela Justiça equatoriana contra integrantes dos movimentos sociais, camponeses, ecologistas e indígenas no país. Entre 2008 e 2010, quase 200 militantes sentaram no banco dos réus após terem participado de protestos contra iniciativas do governo e grandes empresas que desrespeitavam a Constituição. É revelador o fato de que, em 2010, ano em que o presidente Rafael Correa mais incentivou a instalação de empreendimentos mineiros, 93% dos processos contra militantes sociais tenham tido relação com a defesa de territórios e a preservação do meio ambiente em áreas atingidas pela extração de ouro e cobre.

Os artigos trazem fatos e ideias que contribuem ao debate sobre nossas escolhas econômicas e nossas noções de desenvolvimento num momento em que, ao redor do mundo, somos visto com admiração por estarmos resistindo aos efeitos mais cruéis da crise financeira. A riqueza natural tem sido decisiva para o crescimento deste rincão do mundo e para a construção de uma realidade global aparentemente tão favorável ao continente que a Secretaria Iberoamericana não teme dizer que vivemos o “momento político da América Latina”. Contudo, nunca é demais lembrar que a pressão sobre nossos ecossistemas é muito grande. Tão grande que, alerta Ricardo Abramovay, “o quadro pode se inverter.” —@tadeubreda

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2 comentários para "Os governos sul-americanos,pra onde vão?"

  1. Júlio disse:

    É, o quadro pode se inverter, até porque se 2011 por um lado nos anima com tanta mobilização por outro pensemos que nos lugares onde elas acontecem com força o chiclete vinha sendo esticado há muito tempo, esticado além da conta com ataques a direitos e opressões (políticas, econômicas, militares, etc crescentes, então esse cruzar a linha, ” perder a mão” no desmatamento, pode gerar abertura para mudanças. Mas para isso uma mentidalidade atenta as questoes ambientais nao teria que estar mais difundida pelos ativistas latinoamericanos em geral? Ao menos no que diz respeito ao Brasil não vejo prioridade neste tipo de entendimento, que acaba ficando como em segundo plano… (apesar das mobilizações contra Belo Monte e pa, que quem sabe possam ser uma semente nisso aí)

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