Potentia, para mulheres que não se auto-sabotam

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Ao cultivarmos visão romântica dos papéis de mãe e esposa, agravamos desigualdade nos ambientes profissionais. Feminismo precisa superar este bloqueio

Por Marília Moschkovich, editora de Mulher Alternativa

Foi quando uma amiga argentina me trouxe o problema que prestei, pela primeira vez, alguma atenção nele. Angustiada, ela vivia um conflito entre, ao fim da graduação, optar pela carreira acadêmica ou não. Admirava a orientadora e queria ser como ela. Ao mesmo tempo, percebia que a orientadora não tinha filhos e nem era casada, coisa que ela também desejava viver nos anos seguintes. Eu nunca havia pensado no assunto. Tanto minha orientadora, quanto minha mãe, tinham carreiras brilhantes e, ainda por cima, filhos (no caso de minha mãe, três, inclusive).

Uma vez atenta para a questão, porém, foi fácil – facílimo – ser tomada por ela. Eu, que não tinha motivo algum pra me angustiar com o assunto (em termos dos exemplos de mulheres que eu conhecia e admirava), passei a perder o sono. Transformei a pergunta em pesquisa de mestrado e me dediquei ao tema por três anos, refletindo sobre desigualdades de gênero na carreira acadêmica brasileira.

Parte importante da minha pesquisa era questionar se esse conflito entre maternidade e carreira existia (e como existiria) entre professoras da Unicamp, já que, no que diz respeito às condições de trabalho, elas gozam de uma série de vantagens e privilégios em relação a professoras de outras universidades no mundo, e em relação a profissionais de outras áreas. Minhas entrevistadas tinham estabilidade no emprego; podiam deixar os concursos e títulos para mais tarde ou fazê-los mais cedo conforme desejassem; não precisavam negociar salário e tinham o horário bem mais flexível do que a grande maioria das pessoas. Encontravam-se em condições que facilitariam, a princípio, uma dedicação equilibrada ao papel de mãe, por exemplo. A angústia delas com o assunto, porém, era a mesmíssima angústia da minha amiga argentina.

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Como?

Em minha pesquisa, percebi que a ideia geral das entrevistadas sobre o que significa ser uma boa mãe é que botava tudo a perder. Quer dizer, enquanto mães que trabalham e têm carreira, elas nunca seriam, para elas mesmas, suficientemente boas. Boa é a mãe que se dedica em tempo quase integral aos filhos e ao lar. Elas apenas faziam “o que dava”, para conciliar a paixão profissional com as ambições “domésticas”, por assim dizer.

Quando encontrei o livro de Sheryl Sandberg, executiva do Facebook, depois de ter defendido minha dissertação, reforcei uma sensação que parte da bibliografia da pesquisa havia me dado: a crença que temos no mito segundo o qual é impossível conciliar carreira com maternidade é responsável por uma parte razoável da desigualdade entre homens e mulheres no mercado de trabalho. A nossa crença, enquanto mulheres, e também a de nossos colegas homens, sobre o mesmo tema.

Em seu livro, Sandberg reflete sobre esse aspecto da desigualdade no mercado de trabalho, que extrapola as condições materiais concretas de trabalho e carreira. Ela se pergunta, em Faça Acontecer (Lean In), lançado pela Companhia das Letras há poucas semanas: por que as mulheres recusam oportunidades de subir na carreira? Por que “abandonam o navio” antes mesmo de ele desatracar do porto? Por que se “auto-excluem” de carreiras promissoras?

Voltemos à amiga argentina. Aos vinte e pouquíssimos anos, ela sequer estava namorando (e muito menos casando ou perto de querer ter filhos), mas já considerava a possibilidade de não seguir a carreira que queria – para resolver um problema que ainda não existia. Em seu livro, Sheryl Sandberg conta casos muito semelhantes que encontrou ao longo de sua trajetória. Nós, mulheres, nos auto-sabotamos. Já saímos para o mercado de trabalho acreditando que seremos incapazes de “chegar lá”.

Claro, há exceções. Mas tanto o livro de Sandberg quanto minha pesquisa sociológica procuram identificar tendências e, infelizmente, afirmo com segurança que a tendência é essa.

Nesse jogo, entra ainda uma série de outras questões do campo simbólico do gênero, como o conflito entre expressões de gênero esperadas (por exemplo, o que é uma atitude profissional “feminina” ou “masculina”) e exigências do mercado de trabalho. Em geral, eu arrisco dizer que a ideia muito particular (e um tanto geral) que temos sobre o que significa “ser mulher” molda muito mais do que gostaríamos de admitir, as escolhas que fazemos. Não é uma coincidência e muito menos um dado biológico que haja tão poucas mulheres profissionais da área de tecnologia hoje. Não é uma coincidência que se diga “masculinizada” para uma mulher que é assertiva, e apresenta características de liderança esperadas para o cargo que ocupa, como é o caso da nossa presidenta.

O trabalho de Sandberg poderia muito bem ser um ensaio de sociologia, especialmente porque articula lindamente sua experiência empírica, “no campo”, coletada ao longo de sua vida, com uma série de trabalhos científicos que apoiam diferentes percepções sobre as mulheres no mercado de trabalho hoje. Seu texto é fluido, gostoso de ler, e consegue falar “à alma” sem cair numa lenga-lenga de autoajuda (que eu, pelo menos, de-tes-to).

Talvez uma das coisas mais interessantes, porém, é a proposta que a executiva faz para desconstruirmos essas impressões generificadas demais sobre nós mesmas e sobre o mercado de trabalho. Sandberg diz, de forma simples, que nós, mulheres, precisamos conversar umas com as outras. Trocar experiências, perguntar, combinar estratégias. Ela sugere que isso seja feito em grupos.

Eu, que sempre tive vontade de formar um grupo de apoio mútuo de jovens acadêmicas, achei a ideia sensacional. Como não fui a única, me juntei a outras queridas que tinham a mesma inquietação e fundamos o Potentia. “Potentia”, em latim, é poder. E antes que comecem a achar o nome “muito ambicioso”, reflitam seriamente sobre se achariam o mesmo caso fosse um grupo de homens profissionais de uma área qualquer. Pois é.

O Potentia pretende ser um grupo de troca de ideias entre mulheres profissionais de diversas áreas, e está aberto para quem desejar participar. Funciona por meio de um grupo no Facebook (https://www.facebook.com/groups/potentiabr). Mas, como pensamos que ninguém deveria precisa desta rede pra fazer nada no mundo (foi mal, dona Sandberg), também nos articulamos em uma comunidade virtual em outro espaço (https://mightybell.com/spaces/43868). Quem não consegue ou não quer acessar nenhum dos dois ambientes, pode participar das discussões da comunidade via email.

Queremos saber quem são vocês, que compartilham essa angústia conosco. Queremos saber quem são vocês, que já consideraram alguma vez desistir de uma promoção porque acharam que não iam “dar conta”. Queremos passar por isso juntas. Queremos ideias, medos, frustrações, sonhos, ambições. Queremos estratégias.

Queremos uma chance de, no que diz respeito à nossa confiança em nós mesmas, fazermos acontecer.

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Marília Moschkovich

(@MariliaMoscou) é socióloga, militante feminista, jornalista iniciante e escritora; às segundas-feiras contribui com o Outras Palavras na coluna Mulher Alternativa. Seu blog pessoal é www.mariliamoscou.com.br/blog.