Não esqueça o protetor solar

PICEDITOR-SMH

O que há em comum entre projeto de deputado, sequestro de novela e quotidiano hierarquizado nas metrópoles?

Por Priscila Figueiredo | Imagem: Gregor Schneider, instalação

Quando ouvi a frase, já tinha entendido que se tratava de um cativeiro, e nele o sequestrador era o pai e a vítima a filha, a Paulinha, que até então vivera sob os cuidados do pai adotivo. Não sei por qual razão exatamente tinha se dado o sequestro, eu pegava o bonde andando e ainda tentava me equilibrar. O fato é que o rapaz agia como se quisesse conquistar o amor da filha, apesar das interferências desastrosas da madrasta, encarregada, ao que parecia, de lembrar a menina e mesmo a nós que a situação tinha algo de infernal. A casa em que se escondiam era feia, mas tinha janelas tranquilamente abertas e pelas quais se via uma paisagem com muitos prédios. Era como se não temessem ser descobertos ou como se a naturalidade da convivência fosse o melhor disfarce. Há uma senhora cuidando da Paulinha, é manifestamente bondosa, gosta dela e pensei que devia ser a sua avó verdadeira, convocada para ajudar a vigiá-la, não apenas para impedi-la de por os planos do filho em risco, mas também para protegê-la como faria a uma neta em condições normais. Depois soube que tinha sido contratada, era seu cão de guarda, e não avó. De todo modo, parecia amável, e isso a faria cometer um deslize no trabalho. Paulinha está com ar dissimulado –percebemos isso mais rápido que eles –e pergunta se pode ir à praia. O pai recusa, parece adivinhar no pedido uma artimanha. A boa mulher no entanto intercede, não precisamos ser tão rigorosos, estaremos do lado, e a menina só quer conhecer o mar. “Deixa, vai, só um pouco…”, aproveita a criança. O tirano, confundido, concorda, mas adverte que ela não poderá sair do carro. Em princípio, Paulinha aceita a cláusula. Como é inteligente, sabe que de grão em grão também se enche o bico. Então a avó postiça enuncia a recomendação, tão zelosa quanto estranha, naquele cativeiro já por si só singular: “Não esqueça de passar o protetor solar, hein?”.

Por dias a frase foi o sol de minha sombria paisagem mental, um sol indagador, risonho, não exatamente risonho, mas escarninho –um risco amarelo se contorcendo até formar o sinal de interrogação a que gostaria de responder. Seria um caco da atriz ou a preparação, fixada em roteiro, para uma inserção publicitária? Se fosse o caso, já estaríamos preparados para o clima onírico normalmente produzido por essas colagens de ficção e publicidade e então veríamos tranquilamente, já conformados pelo hábito, o plano em que Paulinha estaria passando o bloqueador para depois jogá-lo em cima da cama, para a qual a câmera se desviaria de modo a podermos identificar a marca. Não era o caso, no entanto, e nada, nenhuma marca, familiar ou não, veio nos acudir. Não estávamos no sonho. Direi provisoriamente que estávamos no sonho de um sonho. Teria sido uma campanha preventiva de câncer o que motivara a frase? A solicitações de que departamento buscara atender, o de marketing ou o de imagem institucional, corporativa? Ou fora antes uma lembrança voluntarista do autor e mesmo, quem sabe, uma reminiscência infantil ali projetada sobre a menina, metaforicamente encarcerada pelos guardiões de sua infância? “Não esqueça o protetor solar”, “Não esqueça de tirar a terra dos sapatos quando entrar”, “não esqueça…”.

A verdade é que a frase, que caiu de pára-quedas no cativeiro da novela das nove, não veio em socorro de ninguém. Mas o projeto do deputado federal Walter Feldman veio. Encaminhado à Câmara em abril deste ano, ele visa, conforme lemos no site do seu partido, o PSDB, “garantir um período diário mínimo de exposição ao sol para assegurar à população a manutenção de taxas adequadas de vitamina D. Segundo o texto, os brasileiros que trabalham em local fechado deverão usufruir do sol por no mínimo 15 minutos, três vezes por semana. A proposta determina também que o leite seja enriquecido com a vitamina”. Uma reportagem de jornal diz que “Feldman chega a distinguir sua proposta do ‘banho de sol’ nas prisões –quando a meta é dar uma certa liberdade ao detento, e não assegurar a produção da vitamina”.

Essa hierarquização é interessante. Não digo entre o detento e o funcionário de indústria ou escritório, especialmente o escritório daqueles edifícios inteligentes e autofletidos, nos quais a luz e o rumor deste mundo não penetram — concentram-se fortemente na otimização de suas metas e resultados a fim de com isso fazer progredir nossa deficiente humanidade.. Como os pajés, afastam-se do cotidiano para melhor agir sobre ele. Mais curiosa, porém, é a mudança na ordem de prioridades no banho que é quase sempre o mesmo sob o mesmo sol: a síntese de vitamina D no trabalhador de lugar fechado, a ração de liberdade no encarcerado. Este pode estar besuntado ou não de protetor, não importa, segundo Walter Feldman. Talvez — por que não? — cada cela tenha mesmo sua cota não só de papel higiênico e sabonete como de creme anti-radiação solar. E, minutos antes de descer ao pátio, é possível que cada preso escute o preocupado aviso do carcereiro: “Não esqueça de passar o protetor”. A questão neste momento é ter um pouco mais de ar, e não os ossos fortificados. Poderão não desenvolver câncer de pele, mas deverão estar sujeitos a hipovitaminose e às sérias doenças daí decorrentes. Ou poderão, sim, ter câncer de pele, pois, de acordo com o médico e deputado, não vem ao caso se usam ou não o bloqueador –o que lhes deve ser garantido é circular sob o céu num espaço razoável entre quatro paredes. Quanto às demais categorias, consagre-se agora o seu direito de fortalecer os ossos e formatar o código genético, que, ao que parece, estava ameaçado. Não se justifica que a hipovitaminose seja tão grande numa cidade como São Paulo: “Isso é contraditório, tendo em vista que nós somos um país tropical. Portanto, com o sol abundante à disposição, de graça para toda a população”. É contraditório e bonito — eu não lembrava mais que tínhamos sol abundante e de graça, e para toda a população. Pensamos tanto na terra, sempre tão disputada, e esquecemos o sol, todo aí, para dar e jamais vender.

TEXTO-MEIO

O projeto não parece dizer nada sobre o lugar em que os funcionários poderão se expor. Sairão das torres e andarão livremente pelas ruas? E se nestas dominarem paredões de prédios desgabaritados, prejudicando, conforme o horário, a incidência do sol? Deverá haver na empresa um pátio para a nova obrigação fixada em lei? Baterão o ponto na entrada e na saída? E se, quando já estiver lagarteando, o empregado, executivo ou não, acabar tirando uma soneca? Poderá continuar nos braços de Morfeu ou será gentilmente desembaraçado dele por uma voz baixinha, ao pé do ouvido, lhe informando que a ração de sol já passa do limite? Limite após o qual, imagino, ele deverá usar o protetor solar.

TEXTO-FIM
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Priscila Figueiredo

Priscila Figueiredo é poeta e crítica, professora de Literatura Brasileira na USP, autora de "Em busca do inespecífico" (Nankin, 2001), sobre Mário de Andrade, e "Mateus" -- poemas (Bem-te-vi, 2011).

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