A fábula de futebol de Campanella

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Animação argentina destaca-se, entre filmes de dezembro. Numa cidadezinha de interior, esporte-empresa defronta-se com time local de derrotados e desajustados 

Por José Geraldo Couto, no blog do IMS

Em meio à batelada de filmes – vários deles brasileiros – que entraram em cartaz no início de dezembro, há que destacar alguns, já que seria impossível falar de todos.

Uma estreia incontornável é a de Um time show de bola, animação argentina em 3-D dirigida por Juan José Campanella, o mesmo de O segredo dos seus olhos O filho da noiva. O filme é um fenômeno: mais de dois milhões de ingressos vendidos na Argentina, um país que, vale lembrar, tem um quinto da população brasileira.

Tamanho êxito se deve, a meu ver, a uma conjunção de fatores. Campanella é um hábil manipulador, que sabe conjugar temas de interesse geral com o domínio de fórmulas narrativas de eficácia comprovada. Antes de verificar esse hipótese, vamos a um resumo da história, baseada num conto do escritor e cartunista Roberto Fontanarossa.

Numa cidadezinha do interior da Argentina, um garoto magrelo e introvertido, Amadeo, um prodígio do pebolim (também chamado de totó e futebol de mesa), é desafiado para uma partida pelo bad boy local, Colosso, e dá um baile no arrogante adversário. Colosso, que é bom no futebol de campo, jura vingança. Anos depois, já consagrado como um craque milionário do futebol internacional, volta à cidade para construir ali o maior estádio do mundo, dominar a política e conquistar a namorada de Amadeo. Tudo será decidido num confronto final entre a seleção de astros de Colosso e o time de desajustados e derrotados locais reunidos por Amadeo.

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O universo temático, portanto, é o do futebol contemporâneo, com tudo aquilo que o cerca: interesses econômicos, publicidade, marketing, culto às celebridades. A estrutura dramática, por sua vez, funde diversas matrizes antiquíssimas, da lenda de Davi e Golias à fábula do patinho feio, passando pelo tópos da comunidade versus o poder político e econômico, ou “povo versus tirano”.

Toy story requentado

Acrescente-se a isso a animação tecnicamente eficaz, que bebe na fonte da Pixar, em particular em Toy story, do qual “roubou” a ideia dos brinquedos que ganham vida. Aqui, são os jogadores de pebolim que se libertam das barras da mesa de jogo para ajudar o herói em sua missão.

O humor do filme vem, em parte, da inadequação – dos bonequinhos ao mundo gigante dos humanos; dos humilhados e ofendidos da cidadezinha ao mundo do futebol competitivo – e em parte da sátira ao circo do futebol globalizado, em especial ao culto narcísico dos astros (Colosso faz pensar inevitavelmente em Cristiano Ronaldo).

Em suma: Toy story + futebol (às vésperas da Copa do Mundo no Brasil) + melodrama da revanche dos oprimidos + argúcia narrativa de Campanella = resultado garantido, ao menos em termos de bilheteria. Esperar mais que isso seria ingenuidade. Afinal, o “cinema de autor”, assim como o “futebol-arte”, talvez seja uma atividade em extinção.

Estreias brasileiras

Estreiam também três comédias brasileiras, duas delas de Domingos Oliveira (Primeiro dia de um ano qualquer Paixão e acaso) e a outra de Bruno Barreto (Crô: o filme). Confesso que não vi este último. Dizem que é baseado num personagem de sucesso de uma novela de sucesso da emissora de sucesso, um mordomo gay vivido por Marcelo Serrado. Está entrando em 420 salas. Boa sorte para quem for assistir.

Num número vertiginosamente menor de cinemas e de sessões, entram os filmes de Domingos Oliveira. Vale a pena ver os dois, pelas razões que tentei explicar quando foram exibidos na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo do ano passado.

Aqui o trailer do Primeiro dia de um ano qualquer, encantador concerto agridoce do diretor de Todas as mulheres do mundo:

Entram também em cartaz pelo menos dois outros nacionais dignos de nota: o documentário Morro dos Prazeres, de Maria Augusta Ramos, sobre a espinhosa convivência entre os policiais de uma UPP e a população da favela carioca onde ela foi instalada; e o surpreendente drama A floresta de Jonathas, de Sergio Andrade, que gira em torno de jovens que vivem na Amazônia, entre a floresta insondável e a não menos insondável modernidade urbana globalizada.

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José Geraldo Couto

*José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor. Publica suas criticas no blog do IMS. Para ler as edições anteriores da coluna, clique aqui.