Chéri à Paris: “Teses musicais”

(Chéri à Paris, por Daniel Cariello)

Teses de mestrado e procrastinação brasileira são duas coisas que não combinam. Eu sou a prova (semi) viva disso. Quando a tese deve ser escrita em outra língua, o treco piora muito. E quando é pra daqui a 30 dias e só a introdução está pronta, o modo “pânico” é imediatamente ativado.

Tudo isso pra dizer que até a minha vida voltar ao normal, esse blog vai passar por uma fase diferente. As crônicas semanais de sexta-feira continuam pontuais, como essa publicada no sábado. Mas serão vapt-vupt, escritas enquanto escuto uma, e apenas uma, música de Villa-Lobos, Baden Powell ou Hamilton de Holanda, os compositores de quem falo na minha tese.

Violà la première, escrita no trajeto Paris-Marseille em TGV.

Tributo ao amigo Pedro Santos, de Baden Powell (clique no link abaixo para escutá-la).

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TEXTO-MEIO

Solto a música, parte do ao vivo Baden Powell à Paris. Adoro viajar de TGV no verão, por volta das nove da noite. Ainda tem muita luz, e ela vai baixando devagar, pegando tons dourados. É a luz mais bonita do dia.

Pela janela, vejo as linhas elétricas que acompanham a linha do trem. De um poste a outro, os fios baixam e levantam, conforme a máquina avança. Desde criança gosto de observar esse movimento, me lembra as ondas do mar.

Passamos por um campo vazio, parece que a colheita foi feita há pouco tempo. Não há mais plantação, apenas o solo marcado, algumas árvores ao longe e um trator parado perto de uma casa.

Um pouco mais e atravessamos uma vila, parecida com tantas outras que existem na França. Pequena e toda arrumada, com casas, igreja, praça e poucas ruas. Sempre que passo por uma cidade dessas a imagino como cenário de um filme. A primeira sequência seria um sujeito de boina andando na rua com a baguete embaixo do braço. A última seria ele viajando a Paris para assistir a um jogo, no qual o Brasil derrotaria a França por 6 x 0, com dois gols contra do Henri.

Na pista paralela, outro TGV passa em direção contrária e dá pra sentir pelo balanço do nosso trem. Se somarmos a velocidade dos dois, dá mais de 600 quilômetros por hora. Fim do parágrafo “físico frustrado”.

No iPod, Baden Powell começa seu solo infernal. Pra mim, trata-se do maior violonista de todos os tempos. Sabe aliar a técnica de um Paco de Lucia ou um Segóvia com um sentimento, feeling na linguagem de guitarrista, que só ele tem.

Rumo ao sul, a paisagem vai mudando rapidamente. Outros campos se sucedem, alguns têm rolos e rolos de feno empilhados, reserva de comida para os animais no inverno. A paisagem, só nesse instante, lembra os filmes de western.

Mais à frente, vejo as primeiras vacas do trajeto. Uma coisa bacana na França é a importância dada aos pequenos produtores rurais de queijos, salames, vinhos, frutas. Os franceses os apreciam e sabem valorizá-los.

O céu está azul e há poucas nuvens. Uma delas tem a forma de um zepelin e depois se transforma em baguete recheada. Passamos por um grande e verde vale, arborizado e muito bonito.

Nesse instante, Baden acaba sua grande prestação à música. No mesmo instante, o sujeito da poltrona ao lado retorna e tapa a minha visão da janela. Volto pra minha tese.

Daniel Cariello, editor da revista Brazuca, é colaborador regular daBiblioteca Diplô /Outras Palavras. Escreve a coluna Chéri à Paris, uma crônica semanal que vê a cidade com olhar brasileiro. Os textos publicados entre março de 2008 e março de 2009 podem ser acessados aqui.

TEXTO-FIM
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