Chéri à Paris: Na companhia de Shakespeare

(Chéri à Paris, por Daniel Cariello)
Esse texto faz parte da série “Autour de Paris”, de crônicas dedicadas a cada um dos bairros da cidade. Para ler os outros, clique aqui

Eu me amarro na livraria Shakespeare & Co. Sempre que sirvo de guia turístico para meus amigos procuro dar uma passadinha por lá.

Pra começar, tudo é em inglês. Os livros, o atendimento, os debates e as leituras abertas semanais e até o pedido de esmola para o café dos escritores, um cartaz pendurado em frente a uma espécie de buraco no chão, onde os visitantes depositam moedas de várias procedências. E mesmo que a língua oficial ali não seja o francês, os parisienses adoram o lugar, o que não deixa de ser surpreendente.

A outra surpresa é o quarto do escritor, no segundo andar da loja. Uma espécie de pocilga com uma cama entre estantes de livros que abrigou autores como Allen Ginsberg e William Burroughs, quando eles estavam numa pior. E ainda outros gênios incompreendidos, a maioria muito mais incompreendidos do que gênios.

Perto do quarto resiste bravamente uma máquina de escrever old fashion e papel à vontade para quem quiser deixar uma mensagem em qualquer língua. Uma vez vi um japinha adolescente tentando mudar a configuração do teclado e uma loira admirada porque “a impressão é automática, coisa moderna demais”.

Em frente à escada há um cantinho com um mural cheio de fotos e recados escritos à mão. Tem uma história que me contaram de um casal que se conheceu em frente a essa parede. Um dia eles se separaram e, cheio de tristeza, ele deixou ali um recado pra ela: “Darling, I miss you. Liga pra mim”. Ela respondeu dois dias depois: “Nem morta. Bye!”

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De volta ao térreo, perto do cantinho da esmola, tem um piano também free service. Qualquer um pode chegar ali e massacrar as teclas (e, na maioria dos casos, os ouvidos dos clientes). Da próxima vez não posso esquecer de sugerir aos donos uma placa com uma mensagem do tipo “é proibida a execução de qualquer música com menos de três dedos, principalmente aquela que todo mundo toca batendo a mão fechada nas teclas pretas”.

Mas talvez o grande tchuns da livraria seja mesmo a localização dela, no meio do caminho entre a catedral de Notre-Dame e o boêmio Quartier Latin. De um lado, o fervor do catolicismo. De outro, a ferveção dos botecos e seus famosos happy hours (apí auêr, em pronúncia francesa). Entre a cruz e a empada, não faltam motivos de inspiração para escritores e visitantes que procuram a companhia de Shakespeare.

Daniel Cariello, editor da revista Brazuca, é colaborador regular daBiblioteca Diplô /Outras Palavras. Escreve a coluna Chéri à Paris, uma crônica semanal que vê a cidade com olhar brasileiro. Os textos publicados entre março de 2008 e março de 2009 podem ser acessados aqui.

TEXTO-FIM
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Subeditor do Outras Palavras, é formado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP). Operador da loja virtual Outros Livros, integra a equipe do De Olho nos Ruralistas. É editor da Autonomia Literária.