Chéri à Paris: Colocando a cabeça de fora

“Sarkozy traçou como objetivo de vida ser o presidente mais impopular da história e tudo leva a crer que essa meta tornou-se uma obsessão”

(Chéri à Paris, por Daniel Cariello)

Nada me tira da cabeça que Nicolas Sarkozy traçou como objetivo de vida ser o presidente mais impopular da história da França. E tudo o que ele faz me leva a crer que essa meta tornou-se uma verdadeira obsessão. Imagino a reunião ministerial antes da tomada recente de mais uma decisão polêmica, a proibição das burcas.

Ministro 1 (coloco em números, porque todos parecem a mesma pessoa) – Sarkô, péssima notícia.
Sarkô- O que foi agora, vai dizer que o Bush cancelou o passeio de barco?
Ministro 1 – Não, isso tá confirmado. Só tivemos que dispensar o Mubarak, que a coisa ficou feia pro lado dele.
Sarkô – Tudo bem, o Mubarak que se entenda com suas esfinges. Mas qual é a má notícia?
Ministro 1 – Você conta, Ministro 2?
Ministro 2 – Bom, é que…
Sarkô – Vamos, desembucha, não tenho o dia inteiro. Ainda preciso telefonar pro Berlusconi pra combinar a próxima festa na casa dele.
Ministro 2 – Não sei como dizer, mas parece que a sua popularidade aumentou.
Sarkô – O quê? Aumentou? Como assim? Quem foi o incompetente que deixou isso acontecer?
Ministro 2 – Foi… Foi você.
Sarkô – Eu??? De jeito nenhum. Semana passada mesmo mandei expulsar os ciganos do nosso território. Deu na TV, no rádio, nos jornais, na internet. Tinha cigana reclamando, ciganinho chorando e ciganão bigodudo revoltado. Uma verdadeira crise midiatizada, perfeita para gerar revolta na população.
Ministro 3 – Mas senhor… Quem tinha que se revoltar já se revoltou faz tempo. Parece que a extrema direita gostou muito do que você fez e foi nesse setor que você cresceu.
Sarkô – Merde! Isso não pode continuar assim. Vamos expulsar uns turistas ainda no aeroporto, de preferência brasileiros. Todo mundo acha brasileiro simpático? Pois eu não. Vai dar uma repercussão enorme.
Ministro 1 – Já fizemos isso uns dois anos atrás, não tem mais efeito.
Sarkô – Então podemos elevar a idade mínima de aposentadoria. Vai incomodar franceses de todas as gerações. Calculo que dê pra perder mais uns 4 ou 5 pontos de popularidade só com essa medida.
Ministro 2 – Isso também já foi feito. Teve passeata e tudo, não lembra?
Sarkô – E você acha que eu perco meu tempo acompanhando esses desfiles estudantis? Esses moleques nem sabem porque estão ali, vão pras ruas pra matar aula, paquerar e fumar bagulho.
Ministro 3 – O que mais podemos fazer?
Sarkô – Uma guerra. Uma guerrinha de nada, coisa pouca, mandar uma meia dúzia de mísseis em um país qualquer. Cada bomba que cair eu caio junto.
Ministro 1 – Acabamos de bombardear a Líbia, Sarkô, e nada mudou.
Sarkô – Zut, alors! Por que ninguém me conta essas coisas?
Ministro 2 – Mas foi você mesmo que decidiu.
Sarkô – Tem razão. É que é tão difícil manter-se impopular que às vezes me esqueço do que já fiz.
Ministro 3 – Você é bom em ser ruim, Sarkô.
Sarkô – Obrigado, mas você sabe que detesto bajulação. Peraí… E se a gente proibisse o uso da burca?
Ministro 1 – Como assim?
Sarkô – A partir de agora, nenhuma mulher poderá mais usar a burca em território francês.
Ministros em coro – Sensacional!
Ministro 1 – Isso vai ser uma agressão às mulheres árabes.
Ministro 2 – Não só às mulheres, mas aos árabes e suas tradições.
Ministro 3 – E a todo mundo que defende a liberdade cultural ou de expressão.
Ministro 1 – Você é uma cobra, Sarkô. Três coelhos com uma cajadada. Vai ter um grande impacto na opinião pública. Sua queda vai ser vertiginosa.
Sarkô – Liberté, égalité, fraternité? Pra quê?
Ministros em coro, batendo palmas – Au, au, au, Sarkozy é genial!
Sarkô – Estamos de acordo, então?
Ministros em coro – Estamos!
Sarkô – Vamos mandar ver?
Ministros em coro – Vamos!
Ministro 1 – Sarkô, já vou convocar a imprensa. Chamo a Carla Bruni pra estar ao seu lado quando você fizer o anúncio?
Sarkô – Tá doido, Ministro 1? Se ela der um sorrisinho pras câmeras o pessoal vai acabar achando simpático. E aí estraga tudo.

TEXTO-MEIO


Daniel Cariello, editor da revista Brazuca, é colaborador regular daBiblioteca Diplô/Outras Palavras. Escreve a coluna Chéri à Paris, uma crônica semanal que vê a cidade com olhar brasileiro. Os textos publicados entre março de 2008 e março de 2009 podem ser acessados aqui.

TEXTO-FIM

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Daniel Cariello

Daniel Cariello é colaborador de Outras Palavras e, antes, do Diplô Brasil, desde 2008. Já lançou dois livros de crônicas, Chéri à Paris (2013) e Cidade dos Sonhos (2015), ambos best sellers na Amazon. Foi cronista de Veja Brasília e Meia Um. Este texto faz parte de seu novo projeto, Cartas da Guanabara, com crônicas cariocas. É editor do selo literário Longe.

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