Bispos, sexo morno e os “bem-amados”

Das duas, uma: ou o religioso que atacou ministra Eleonara projetou suas frustrações afetivas; ou deixou aflorar seus desejos políticos…

Por Marília Moschkovich, editora de Mulher Alternativa

“Mal-amada” e “mal-comida”: dois termos pra dizer que, quando uma mulher tem uma opinião forte com a qual você não concorda, isso só pode significar que ela precisa de um pau (me desculpem leitoras e leitores puritanos eventuais mas hoje não terei como evitar certas expressões). Em primeiro lugar porque, claro, está implícito em “ser mulher” que se gosta de pau. Mas com moderação também, senão deixa de ser mulher pra virar biscate. Em segundo lugar porque mulheres não pensam, não têm opiniões próprias bem construídas e só deixam levar-se pelo lado emocional (e sexual). Essas criaturinhas do demônio…

O puritanismo que prega o bispo cujo nome não merece sequer ser lembrado (aquele que chamou a ministra Eleonara Menicucci de mal-amada — recuso-me a abrir uma aba do Google e buscá-lo), certamente inclui um sexo morno. Sem graça, sem gosto, “pastel”. Sem tesão, já que o prazer é em si demoníaco.

Ora, se esse bispo lesse um pouco de literatura erótica, quem sabe percebesse quem é, na verdade, o mal-amado da história. As mulheres e homens que são livres com a própria sexualidade é que não! Exceto, claro, se para o tal bispozinho, “bem amados” forem os Odoricos Paraguaçus deste Brasil, corruptos, machistas, infames. Neste caso, eu passo. Prefiro ser mal amada para sempre.

TEXTO-MEIO

Edições anteriores da coluna:

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Sete rolos compressores sujando as minhas e as suas mãos de sangue. A intimidade violada de milhares de famílias. No domingo, dia de “casa”
(23/1/2012)

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TEXTO-FIM
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Marília Moschkovich

(@MariliaMoscou) é socióloga, militante feminista, jornalista iniciante e escritora; às segundas-feiras contribui com o Outras Palavras na coluna Mulher Alternativa. Seu blog pessoal é www.mariliamoscou.com.br/blog.