Além dos muros da Casa Grande

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Ao contrapor enclausuramento de executivo financeiro à iniciação sentimental plebeia do filho, Felippe Barbosa expõe tensões socioculturais do Brasil contemporâneo 

Por José Geraldo Couto, no blog do IMS

Casa grande é um filme amplo, cheio de subdivisões, detalhes, esconderijos, portas, janelas e desvãos – exatamente como o edifício que lhe serve de título, uma residência da elite carioca apresentada no esplêndido plano fixo dos créditos iniciais, em que o dono da casa, Hugo (Marcello Novaes), sai de sua jacuzzi ao lado da piscina, apaga as luzes e fecha as portas de cada um dos vários andares e cômodos da imponente construção.

TEXTO-MEIO

Esse plano aparentemente simples encerra todo um mundo. Não apenas descreve o ambiente opulento de seu personagem, denotando sua posição social, como também outras ideias mais sutis: a solidão, o apagamento, a melancolia de um crepúsculo. É assim, feito em camadas, com uma observação arguta dos detalhes, que se desenvolve o primeiro longa-metragem de ficção de Fellipe Barbosa.

Hugo, descobriremos logo, é um executivo desempregado e falido do ramo do capital financeiro. Está devendo dinheiro a amigos, desfalcou a poupança dos filhos, terá que despedir empregados da casa.

Romance de formação

Mas o protagonista não é ele, e sim seu filho de 17 anos, Jean (Thales Cavalcanti), que estuda num colégio caro e se atormenta mais com os percalços da iniciação amorosa e sexual do que com a pressão do pai para que escolha uma carreira profissional rentável.

É, portanto, uma narrativa que conjuga um duplo movimento: o “romance de formação” do jovem Jean, com sua tateante exploração do amor e da vida na pólis, e o drama crepuscular de seu pai. Um que sai para o mundo e outro que se fecha em seu casulo, apagando uma a uma as luzes da casa.

Falou-se, sobretudo na imprensa estrangeira, dos pontos de contato entre Casa grande e O som ao redor, de Kleber Mendonça Filho. De fato, em que pesem as diferenças de geografia, enredo e estilo, ambos os filmes têm em comum a sutileza do olhar com que flagram as nuances de um quadro social amplo sem transformar seus personagens em “tipos” ou caricaturas. Em ambos, também, o espaço físico das cidades em que se ambientam tem uma importância crucial. Por fim, os dois filmes tiveram o mesmo diretor de fotografia, Pedro Sotero.

Personagens matizados

Em Casa Grande, todos os inúmeros personagens – a doméstica Rita (Clarissa Pinheiro), que provoca a libido juvenil de Jean, a irmã mais nova deste, Nathalie (Alice Melo), que todos ignoram mas que cumpre um papel fundamental, a namoradinha Luiza (Bruna Amaya), que estuda em escola pública e representa uma ponte entre Jean e uma certa consciência política, a mãe professora de francês (Suzana Pires) que passa a vender cosméticos para ajudar na receita familiar etc. – são ricos em matizes e têm a chance de mostrá-los ao espectador.

A essas qualidades, digamos, de roteiro (que incluem diálogos enxutos, precisos, com um ótimo “ouvido” para a fala dos vários grupos sociais) combina-se uma mise-en-scène inteligente e surpreendentemente madura para um estreante em longa de ficção.

A direção de atores mantém coeso um elenco eficaz e muito bem escalado. Os enquadramentos são sempre límpidos, perfeitamente legíveis, explorando a profundidade de campo para multiplicar as informações em cena, mas sem saturar o quadro com elementos inúteis. E a preferência pelos planos relativamente longos, dentro dos quais, sempre que possível, tudo se resolve sem necessidade de cortes excessivos, contraplanos ou “planos de cobertura”, cria um ritmo sereno, distante das narrativas clipadas e picotadas que assolam nossas telas de cinema e televisão.

Um exemplo ao acaso: Hugo conversa por Skype ou algo similar com uma headhunter que pode ajudá-lo a voltar ao mercado. Um plano fixo médio o mostra de terno, meio de lado para nós, sentado diante do computador. Não vemos o que ele vê na tela. Pelo canto direito do quadro entra Rita, serve um cafezinho e o deixa sobre a mesa do patrão. Ele termina a conversa, levanta-se e vai até a porta. Nesse momento, descobrimos que ele só vestia a parte de cima do terno. Embaixo, estava de cueca. O efeito final é cômico, mas a riqueza da cena, para além do diálogo (em que sabemos, por exemplo, que Hugo não quer tentar uma vaga no Oportunity porque “não gosta do Daniel [Dantas]”), está em transmitir visualmente a situação essencial do personagem: alguém que mantém artificialmente a pose quando “já perdeu as calças”. Quase uma ilustração audiovisual de um dito popular.

Frescor x didatismo

Outro plano memorável é aquele em que Jean, sua irmã Nathalie e um colega de colégio estão na piscina e vemos ao fundo Hugo trepado numa escada, podando uma árvore. A certa altura, ele se desequilibra e cai da escada. Como se trata de uma tomada contínua, sem cortes, fica a impressão perturbadora de que o ator tomou mesmo um tombo feio e perigoso em cena.

O frescor de cenas desse tipo (que também ocorrem no ônibus, na sala de aula, na quadra de esportes etc.) é muito mais eloquente e eficaz, a meu ver, que certos diálogos demasiado explícitos sobre a questão das cotas raciais, nos quais o filme resvala para um certo didatismo desnecessário. As tensões socioculturais,  as feridas abertas da nossa formação, os caminhos incertos e imprevisíveis da nossa história presente, tudo isso já fica claro nas relações entre os personagens e destes com o ambiente que os cerca. Não precisava explicar mais que isso.

No Brasil, quando se pronuncia a locução “casa grande”, imaginamos involuntariamente, como num eco, a continuação “e senzala”, por referência ao grande clássico da sociologia Casa grande & senzala, de Gilberto Freyre. Ao omitir a segunda parte (“senzala”), deixando-a reverberar surdamente na imaginação do espectador letrado, Fellipe Barbosa de certo modo anuncia que o ponto de vista (no sentido de “lugar de observação”) de sua narrativa é o da elite, que ele conhece “por dentro”. Mas quem assistir ao filme verá que se trata, essencialmente de uma jornada de descoberta do que existe (e pulsa, e fascina, e ameaça) além dos muros da casa grande.

Nesse sentido, a magnífica imagem final do filme é um perfeito contraponto ou resposta ao plano inicial. A viagem de aprendizado se completa ali.

TEXTO-FIM
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José Geraldo Couto

*José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor. Publica suas criticas no blog do IMS. Para ler as edições anteriores da coluna, clique aqui.