Boa sorte, meu amor

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Filme de Daniel Aragão confirma relevância do cinema pernambucano, expõe país em transe e vale pela desmesura, ainda que exagerada

Por José Geraldo Couto, no blog do IMS

Já escrevi que o cinema pernambucano tem sido o que melhor encara – e escancara – a sobreposição, no Brasil, de um presente de aparência moderna e uma herança histórica de mandonismo e opressão social. A mais nova comprovação dessa ideia é Boa sorte, meu amor, surpreendente longa-metragem de estreia de Daniel Aragão que entrou em 13 de setembro, em várias cidades brasileiras.

Numa sinopse grosseira, podemos dizer que se trata da história de amor entre um rapaz da elite pernambucana, Dirceu (Vinicius Zinn), arquiteto numa empresa de demolição no Recife, e uma estudante de música, Maria (Christiana Ubach), que ganha a vida como recepcionista de festas e distribuindo panfletos no semáforo.

Dois planos-sequência apresentados logo no início de certa forma balizam o filme tanto em termos temáticos como estéticos. Na cena de abertura, uma conversa estarrecedora entre pai e filho (na verdade, um monólogo do pai) expõe as raízes brutais da família, numa explanação que vale por uma aula sobre a formação da sociedade brasileira. Pouco depois, um hipnótico close em câmera lenta de Maria (em sua primeira aparição), ao som de Jack Wilson cantando I don’t need you around, nos lança com Dirceu no terreno movediço da fascinação.

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Se um plano ancora o protagonista na terra, no mundo social e histórico “real”, o outro o desestabiliza e atordoa, arrastando-o para o sonho, se não para o pesadelo e a alucinação.

Estética da desmesura

Os bons filmes de uma safra costumam iluminar uns aos outros, nem que seja por contraste. Dessa perspectiva, O som ao redor Boa sorte, meu amor são opostos que se complementam. Se o filme de Kleber Mendonça Filho é um prodígio de equilíbrio e sutileza, o de Daniel Aragão é “petulante, ambicioso, desgovernado”, como escreveu o jovem crítico Fábio Andrade na melhor crítica que li a respeito. É dessa desmesura que ele extrai sua força, ainda que exponha também suas fragilidades.

A ambição estética de Aragão fica evidente já por suas escolhas iniciais: o preto e branco brilhante da fotografia, o cinemascope do qual se exploram ao máximo as possibilidades de enquadramento e distorção, a exuberância da trilha sonora. Tudo isso nos diz, quase nos grita, que ele não está ali para contar uma historinha banal e verossímil.

Ao incorporar em sua própria fatura o transe de seu protagonista, o filme ocasionalmente resvala, sobretudo em seu terço final, para um certo inchaço estético (distorções de luz e som, enquadramentos oblíquos, vertiginosos plongées) e para rupturas frontais com o realismo que, a meu ver, nem sempre se justificam. A tendência à alegoria corre o risco de afrouxar o impacto de uma narrativa tão contundente.

Deter-se ranzinzamente nesses possíveis deslizes seria mesquinho. Afinal, a opção pelo risco implica a possibilidade do erro. E o próprio erro pode ser fecundo. Aliás, o que é “erro” em arte, ou mesmo na vida? Talvez seja o caso de lembrar uma frase de Julio Cortázar: “Em minha juventude se dizia de Greta Garbo que tinha os pés muito grandes. Eu pensava: sim, mas todo o resto é de uma deusa”. Cada um repara no que quer.

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José Geraldo Couto

*José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor. Publica suas criticas no blog do IMS. Para ler as edições anteriores da coluna, clique aqui.