O poder contestador da Cultura do Encontro

Em tempo de redes controladas por corporações, é preciso apostar no sentir-pensar-agir, calcado na diversidade real e na vida comunitária. Só assim será possível uma contraposição robusta às lógicas de padronização e descarte da globalização…

Imagem: Hanna Barczyk

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Este texto integra o livro Por todos os caminhos — Pontos de Cultura na América Latina, de Célio Turino, lançado neste ano pela Editora Sesc. Vou pode adquiri-lo aqui. O autor, ex-secretário da Cidadania Cultural do Ministério da Cultura (2004-2010), foi um dos idealizadores do Programa Cultura Viva. Outras Palavras republicará, toda segunda, uma série de textos do livro. Para ler outros textos da série, aqui

Quando os sistemas mercado, Estado, igrejas, e também a educação, se entrelaçam em um só sistema, se impõe o poder absoluto, comandando, em um só sentido, os meios econômicos, as relações de poder e a formação das mentes. Como cimento para esse poder absoluto está a mídia, controlada por poucas corporações e dominando todos os meios de expressão sem contraponto, em quase monopólio. A mídia monopolista não pode ser compreendida como um sistema próprio – porque depende dos demais sistemas –, mas como meio de alinhavar os outros sistemas, formatando a sociedade a partir da lógica destes. Igualmente, os processos de mídia distribuída, via redes sociais, não podem ser interpretados como alternativa à mídia monopolista e vertical, porque são controlados por lógicas próprias de poder e mercantilização dos afetos, porém mediados por algoritmos. Quando ocorre esse pleno alinhavo e convergência, se impõe a ditadura perfeita, em processos de totalitarismo. É o que está ocorrendo no mundo de 2020.

A necessidade da separação entre poderes advém da rejeição aos totalitarismos, despotismos e tiranias, cabendo regular as relações entre Estado e mercado, Estado e religião e Estado e educação. Contém também o estabelecimento de um sistema de pesos e contrapesos para o sistema Estado, com separação e equilíbrio entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Quando um sistema impõe sua lógica sobre os demais, se imiscuindo nas atribuições do outro, ou quando um sistema se deixa subordinar a outro, vai se estabelecendo um ambiente pantanoso e corrompido, propício à promiscuidade na relação do Estado com os demais sistemas (mercado, Igrejas, educação). É esse ambiente corrompido que permite que os outros sistemas penetrem no sistema Estado, gerando um ambiente de corrupção permanente. Também há situações em que um poder de Estado (poder militar, Poder Executivo, Poder Judiciário…) se sobrepõe aos demais, formando ditaduras stricto sensu, igualmente em ambientes de profunda corrupção.

À medida que os sistemas históricos foram se estruturando e ganhando força, as sociedades foram construindo mecanismos de contrapeso. Por isso a separação de poderes intraEstado e entre os sistemas dominantes. Na relação entre Estado e mercado: planejamento, regulação e execução de determinadas atividades econômicas, variando conforme a ênfase do regime econômico. Na relação entre Estado e igrejas: estado laico. Na relação entre Estado e educação: bases curriculares comuns e autonomia pedagógica.

Com a globalização e o neoliberalismo, desde o final do século XX, o mundo vive um quadro de profunda instabilidade, em uma tendência de concentração e estabelecimento do poder absoluto, como nunca antes houve na história. A começar pela obscena concentração de renda, em que apenas oito (exatamente, oito) pessoas possuem riqueza equivalente à da metade mais pobre da população mundial; ou o fato de o 1% mais rico concentrar os mesmos recursos dos demais 99% dos habitantes do planeta. Essa concentração de riqueza faz as regulações construídas pelo processo civilizatório, sobretudo nos últimos dois séculos, serem desfeitas, produzindo o desfazimento das fronteiras entre sistemas, em um perigoso processo de concentração de poder. Os Estados vão perdendo poder, mas não para suas populações, e sim para poderes extranacionais, incontroláveis em suas ganâncias. Com estados enfraquecidos, o mercado impõe as regras. Também vai sucumbindo a fronteira entre Estado laico e Estado religioso. O mesmo ocorre na relação com o sistema educativo, em que ambientes escolares vão perdendo autonomia pedagógica. Por transitar e ser sustentada por esses mundos, cabe à mídia oligopolizada e sua nova contraparte, os (poucos, em quantidade ainda menor que na mídia oligopolizada) controladores das redes sociais, o papel de alinhavar esse processo de desfazimento de fronteiras entre sistemas distintos.

O contraponto a esse processo avassalador, de implantação do poder absoluto, só poderá ser encontrado no mundo da vida. Mas o mundo da vida só prevalecerá se apresentar um regulador suficientemente forte e unificado para conseguir se contrapor ao poder absoluto, imposto pelo mundo dos sistemas. O mapa do caminho está na cultura do encontro e na cultura viva, sobretudo aquela que se estrutura a partir de bases comunitárias e ancestrais, em que os valores preponderantes sejam os da própria vida. A força desses valores da vida precisa ser abastecida no solo fértil do comum. E esse solo se encontra nos ambientes comunitários e ancestrais.

A vida perde força quando ela perde o sentido de unidade. Em encontro do papa Francisco com jovens do ensino médio de diversos países, via videoconferência, do qual participaram estudantes brasileiros e que tive a oportunidade de organizar, Francisco tratou sobre o sentido da unidade e de como a vida vai se deixando perder ao se abandonar essa unidade:

Tudo tem um sentido, mas isso há que se descobrir. Na educação, selecionamos mal, elitizamos e vamos criando grupos fechados. Aí capitaneia o egoísmo, fazendo que a mão vá se fechando e o coração vai se cerrando cada vez mais, e a mente se fecha. Com isso, somos incapazes de pensar nos outros, incapazes de sentir com os outros, incapazes de trabalhar com os outros, essa é a tentação do mundo de hoje. E vocês, vejo, pelas experiências que me contaram, se animaram a superar isso. As três linguagens, não nos esqueçamos. A linguagem da mente, a linguagem do coração e a linguagem das mãos. Vocês arriscam para que possam pensar o que sentem e o que fazem. Possam sentir o que pensam e o que fazem, possam fazer o que sentem e o que pensam.

Unidade dentro de um, porque essa cultura do descarte também nos esquarteja a todos. Quer dizer, nos faz como se fôssemos um trapo. Nos desfaz, nos desmancha. Portanto, o primeiro para lograr essa unidade é crer no que sente, no que pensa, no que faz, se comunicar sem isolar essa unidade. Há um perigo muito grande na educação dos jovens, o perigo da elitização. Cada vez os pressupostos da educação em alguns locais vão aceitando que se crie uma elite, a que pode pagar a educação, deixando de fora meninos e meninas que não têm acesso à educação. Educação não é saber coisas, e sim ser capaz de usar as três linguagens, a das mãos, a do coração e a da cabeça. Educar é incluir. Há outro perigo, nesse mundo da globalização, e a globalização é boa, mas existe o perigo de conceber a globalização como se fosse uma bola de bilhar. Tudo igual. Em uma esfera, cada ponto é equidistante do centro, tudo é igual, e então se anulam as características pessoais de um rapaz ou uma moça. Ou você se torna igual ao sistema ou não existe. O mesmo para os povos. Ou todos os povos são iguais ou não existem. A mudança da verdadeira globalização é um poliedro, onde buscamos a unidade, mas cada um tem sua própria peculiaridade, que é a riqueza da pessoa, e comparti-la com os demais é que nos dá um sentido1.

Na fala do papa Francisco, a unidade é percebida em diversos sentidos. O primeiro é o indivíduo ter coerência consigo mesmo, unindo sentir, pensar e fazer, em uma mesma direção. Quando o sistema consegue quebrar essa unidade, ou coerência, a vida torna-se mais frágil e passa a ser absorvida por uma lógica que não é dela. A cultura do descarte e do egoísmo, conforme o papa aponta, é o que desmancha, que desfaz a vida perante os sistemas. O segundo aspecto é a aceitação e naturalização da exclusão, justificando a elitização, gerando separações e distância entre indivíduos e sociedades. O terceiro, a contradição entre uniformização e padronização, conforme imposto pela globalização a partir da lógica dos sistemas, e uma outra forma de globalização, humana, diversa, poliédrica e multiforme. Para que a vida consiga fazer frente aos sistemas há que redescobrir o sentido dessas três unidades, ou três harmonias. Do indivíduo com ele mesmo, do indivíduo com a sociedade, e das sociedades entre si (percebendo as sociedades não somente como a comunhão entre sociedades humanas, mas destas com os demais seres). Essa fala atual, presente na voz do papa, também está na percepção e nos modos de vida dos povos ancestrais, como na cultura quéchua, o sumak kawsay (o bem viver), que se refere exatamente a essas três harmonias como fundamento para o bem viver.

A chave para uma mudança emancipadora estaria na recuperação do sentido de unidade, coerência e harmonização entre as diferenças. Desde que não sejam diferenças que visem a estraçalhar o outro, aniquilar, tornar um “trapo”, como nas palavras de Francisco, porque nesse caso não seriam diferenças necessárias à convivência, mas sim para a eliminação da convivência. A profundidade de uma proposta de transformação (ou revolução) em metamorfose só será possível se fruto de processos mais horizontais e equilibrados nas relações entre indivíduos e grupos sociais. Seria uma nova geometria da vida, em que a unidade é alcançada sem uniformização e padronização. Em outras palavras, o encontro da identidade na diversidade, em processos espiralados.

Esse novo entendimento só poderá ser efetivamente possível quando se compreende que, para diferentes povos, há significados diferentes para poder. Enquanto para a cultura ocidental a prática do poder está no domínio, para os povos ancestrais, ela está no servir. Isso resulta no deslocamento do poder, não mais para o Estado e sim para a comunidade, bem como na busca do consenso a partir de assembleias comunitárias ou conselhos de visão entre a coletividade, sábios e anciãos. Um poder espiralado, em constante movimento e troca de atores. Daí resulta o lema zapatista: Por um mundo em que caibam outros mundos!”. Neste outro entendimento de poder há o reconhecimento às pessoas que prestam serviços à comunidade na busca do bem comum; mas como a base decisória se dá por processos de consenso progressivo, todos sabem que todos podem chegar a ser autoridade para executar o que foi decidido por todos, a depender de cada habilidade, que devem se complementar, e não se impor.

Para uma revolução em metamorfose “a luta é como um círculo. Pode começar em qualquer ponto, porém nunca termina”2. Uma revolução que é vento, caminho e movimento. Em A revolução brasileira, Caio Prado Junior sente a necessidade de conceituar o termo “Revolução”, que carrega uma ambiguidade; ele frisa que há mais de uma, mas concentra na principal, a distinção entre “insurreição” e transformação qualitativa de regime político-social. Atendo-se ao sentido “real e profundo” do termo “Revolução”:

significa o processo histórico assinalado por reformas e modificações econômicas, sociais e políticas sucessivas, que, concentradas em período histórico relativamente curto, vão dar em transformações estruturais da sociedade, e em especial das relações econômicas e do equilíbrio recíproco das diferentes classes e categorias sociais3.

Processos revolucionários em metamorfose têm esse mesmo sentido; são apenas um pouco mais lentos, por serem mais orgânicos e espiralados. Para cada novo movimento em círculo, é necessário consolidar o anterior, como em um caracol. O objetivo é o mesmo – a superação de um sistema que “humilha dignidades, insulta honestidades e assassina esperanças”4 –, mas são outras formas de pensar e realizar a ideia de Revolução, em que não basta conquistar o mundo, pois é necessário fazê-lo de novo. Nem por isso essa ideia de revolução é menos profunda e radical; muito ao contrário, ela expressa esperança que é rebeldia, rejeitando o conformismo e a derrota:

Em vez de humanidade nos oferecem índices das bolsas de valores, em vez de dignidade nos oferecem globalização da miséria, em vez de esperança nos oferecem o vácuo, em vez de vida nos oferecem a internacional do terror.

Contra a internacional do terror representada pelo neoliberalismo, devemos levantar a internacional da esperança. A unidade, acima de fronteiras, línguas, cores, culturas, sexos, estratégias e pensamentos, de todos os que preferem a humanidade viva.

A internacional da esperança. Não a burocracia da esperança, não a imagem inversa e, portanto, semelhante àquilo que nos aniquila. Não o poder com novo signo ou novas roupas. Um alento sim, um alento da dignidade. Uma flor sim, a flor da esperança. Um canto sim, o canto da vida5.


1 Papa Francisco – conversa com estudantes de nove países do mundo, via hangout, a partir do programa Scholas Cidadania, 9 jun. 2017.

2 Subcomandante Marcos, Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), carta à sociedade nacional e internacional, México, 18 de maio de 1996.

3 Caio Prado Junior, A revolução brasileira, São Paulo: Brasiliense, 1977, p. 11.

4 Primeira Declaração de La Realidad, Selva de Lancadona, Chiapas, México, janeiro de 1994.

5 Primeira Declaração de La Realidad – Comitê Clandestino Revolucionário Indígena e Comando-Geral do Exército Zapatista de Libertação Nacional. México, jan. 1996. Em:Michel Löwy (org.), O Marxismo na América Latina – uma antologia, São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1999, p. 524.

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