A efervescente geometria da cultura do encontro

Espaços de autonomia e protagonismo, pontos de cultura irradiam novos olhares e ações sobre o território. Mas, interligados em rede, podem ser potentes chaves para uma outra globalização, calcada no Afeto, no Comum e na Diversidade

MAIS:
Este texto integra o livro Por todos os caminhos — Pontos de Cultura na América Latina, de Célio Turino, lançado neste ano pela Editora Sesc. Vou pode adquiri-lo aqui. O autor, ex-secretário da Cidadania Cultural do Ministério da Cultura (2004-2010), foi um dos idealizadores do Programa Cultura Viva. Outras Palavras republicará, toda segunda, uma série de textos do livro. Para ler outros textos da série, aqui

A ideia de ponto de cultura parte de um conceito matemático: “Dá-me um ponto de apoio e uma alavanca, e moverei o mundo”, Arquimedes. É um conceito abstrato que desencadeia um conjunto de relações sociais e criativas bastante palpáveis, potencializando desejos e inventividade. E processos de desenvolvimento, sempre a partir da relação e de contatos com o outro, na forma de afetos, encantamento e magia, reflexão e organização. O que seria um ponto como conceito matemático? A unidade, a base de uma rede, sem dimensões ou forma predeterminadas. O ponto independe da forma, mas se realiza no espaço, sendo localizável e identificável no território. Como cultura também é uma abstração. Ponto de cultura foi o nome que melhor sintetizou o conceito, uma abstração concreta, que é o fazer cultural no território, dando unidade na relação entre espaço (território) e tempo (memória).

Punctos, no latim, refere-se a um lugar determinado em que ocorre a intersecção de condições para realizações específicas. Basta um pequeno sinal para que a cultura aconteça, mas, como ela também é infinita, é necessário identificar um ponto de partida que represente esse sinal sem limites e que, ao mesmo tempo, seja constituído por infinitas partes. O ponto, na teoria da cultura viva, seria a base para uma geometria da vida; do grego, geo (terra) e métron (medida, medição), de modo a identificar posição e forma. Assim, ponto de cultura é a expressão da microrrede, realizada nos territórios, sejam físicos, sejam simbólicos.

Um ponto de cultura condensa a cultura viva na medida em que suas ações se desenvolvem com autonomia e protagonismo. Não é um simples ponto de conexão, como um ponto de recepção e irradiação de cultura; inicialmente essa era a base do conceito, mas, com a observação dos fenômenos desencadeados, pude perceber que o ponto ia se constituindo enquanto um espaço livre para a interpretação e realização da cultura, uma zona simbólica libertada, por assim dizer1. Também um ponto de ebulição, em que ocorrem mudanças quantitativas e qualitativas, a depender das condições de pressão e temperatura. Desse modo, cada ponto é diferente do outro, pois, em cada qual, as dimensões e as realidades são distintas. As pessoas, as histórias, os recursos econômicos, o ambiente, o entorno, os desejos, tudo é diferente; mas, ao mesmo tempo, igual, tornando-os “iguais na diferença”.

Se, na forma, cada ponto de cultura é diferente entre si, na essência todos são muito parecidos. Há que ter alguém (ou alguéns) com muita potência, com muito desejo, com muito compromisso. Não importa se esse alguém é local ou não, o que importa é o compromisso, a disposição e a perseverança (há que perseverar). Do mesmo modo cabe encontrar pessoas dispostas a dar e receber, abertas ao encontro. Quando alguém chega pensando que sabe tudo e que vai ensinar aos outros, já chega errando. Todavia, quando alguém recebe pensando que não há nada a receber, a ebulição também não acontece; idem quando alguém recebe pensando que não tem nada a oferecer. Um ponto de cultura é um espaço para afirmação de identidades, pois sem saber quem somos não há diálogo possível, muito menos troca, e o ciclo que deveria ser desencadeado pela rede não acontece. Contudo, apenas a afirmação do identitário não é suficiente, pois sem o exercício da empatia e da alteridade, o identitário, ou identitarismo, se fecha nele mesmo, impedindo uma ação comunicativa. Quando ocorre o fechamento em si mesmo, o identitário tem resultado inverso ao pretendido. Absorvido pelo mundo dos sistemas, passa a ser comandado por suas regras, restando uma afirmação identitária limitada à aparência e reduzida ao individualismo, em que até o empoderamento sociocultural perde sentido, porque deixa de ser coletivo, passando a atender interesses restritos. Ponto de cultura precisa ser entendido como um ponto de inconformismo permanente, que não se acomoda, movendo-se pela esperança, porque motivado pela coragem e a consciência de si. Cultura é uma linha tênue que separa (e une) permanência e criação e essa tensão precisa ser permanente, do contrário não se cria, não se inventa. Juntando esses componentes, se resolve a equação.

Ainda sobre as condições para identificar um ponto de cultura, colocando-o em movimento. Do abstrato ao concreto. Um ponto de cultura pode acontecer em um coreto de uma praça, à sombra de uma árvore, em uma garagem, um espaço adaptado, uma casa ou edifícios abandonados, que se recuperam no uso da cultura; também em centros culturais bem equipados, teatros, museus, bibliotecas comunitárias ou bibliotecas-parque, em espaços multimídia com muitos recursos tecnológicos, ou não. O mesmo em relação a recursos. Primeiro, sempre, os recursos internos, existentes na própria comunidade, as vontades, a criatividade. Mas o Estado também deve ser colocado a serviço de seu povo, e cultura é um direito básico, por isso os governos precisam assegurar orçamento para o fazer cultural autônomo; que esses recursos não venham em formatos prontos, elaborados por quem mal conhece a realidade das comunidades, a realidade vivida. Além disso é fundamental que sejam instigados processos de intercâmbio e novas miradas; sem intercâmbio, sem troca, a cultura não se realiza, não progride, só regride. Trocas por todos os lados, com todos e de todos os modos, de todas as formas, com todas as gentes; foi assim que nós nos realizamos como humanidade, será assim que recuperaremos nossa humanidade.

Falar em trocas remete à comunicação, e comunicação é um fato cultural. Assim como a cultura só se realiza quando comunicada, seja uma simples palavra, seja expressão ou desejo desenhado em uma caverna, para que gerações futuras soubessem que alguém viveu por ali, como uma mensagem ao tempo, a comunicação só se realiza quando transmite uma cultura. Comunicação é mensagem e mensagem é cultura. Nesse caminhar junto entre cultura e comunicação encontra-se a chave-mestra para a transformação da cultura do encontro em intensos processos de instigação, curiosidade e criação; sem esse caminhar junto, ou a comunicação se torna reles e vulgar, ou a cultura se torna morta e burocrática, exatamente porque ao andarem separadas não conseguirão estabelecer um processo cultural e comunicativo ao mesmo tempo. A cultura se coloca em movimento unindo os seguintes elementos: pessoas, espaços, recursos materiais e financeiros, conhecimentos, criatividade, curiosidade, intercâmbios e comunicação. Como são recursos de natureza distinta, alguns concretos, outros abstratos, um ou outro recurso pode faltar, ou pode ser acrescentado, sem que a ordem dos fatores altere substancialmente o resultado. Qual resultado se espera desse movimento? O ciclo completo do processo criativo: memória e patrimônio, preservação e invenção, formação, produção, criação e difusão. Transformação.

Cultura é partilha, é participar de algo, é tornar comum. O êxito de um ponto de cultura está na simplicidade, de modo que possa ser espalhado por todos os lugares, junto a todas as pessoas, em todos os corações e mentes. Se o planeta é a estrutura de nossa Casa Comum, a cultura é o fluxo, o sopro que mantém viva a Casa Comum; o ponto de cultura representaria as partículas desse sopro. E essas partículas são divisíveis, como o átomo. Como partículas essenciais: a autonomia e o protagonismo das comunidades. Só assim um ponto de cultura poderá realizar plenamente a sua potência, tornando-se vivo e não comandável. Enquanto o poder é um instrumento de comando e ordem, regulando o fluxo da potência, a potência é liberadora de energias e da capacidade de agir, tendo um papel subversivo na relação com o poder. O poder retrai e subtrai; a potência libera, estando mais afeita, nos tempos atuais, à reinvenção da política a partir de processos mais horizontais e compartilhados. Enquanto a potência é multidirecional, o poder é unidirecional.

Autonomia é a capacidade de autogoverno pelos próprios meios, incluindo a capacidade de conhecer e interpretar as regras e normas. É a própria realização da liberdade e da vontade humana, efetivando o dom divino do livre-arbítrio. É a capacidade de conceber, imaginar e criar, de realizar. Seguramente, há limitadores a essas capacidades, por isso o entendimento de autonomia como partícula essencial, mais como princípio que recurso. Uma ação voltada para a autonomia comunitária vai em sentido inverso ao que se conhece, até aqui, em termos de políticas públicas. Governos, Estados e mercados avançam sobre as pessoas e povos exatamente por lhes quitarem a autonomia. Associar imediatamente Cultura a autonomia seria inadequado, isso porque cultura nem sempre é sinônimo de libertação, havendo a cultura que aprisiona, que oprime, que subjuga e coloniza. A dominação sobre a América Latina é prova viva dessa heteronímia cultural (o oposto da autonomia), em que indivíduos ou coletividades se sujeitam à vontade de terceiros, perdendo a condição de arbítrio ou de expressão livre da vontade, o mesmo acontecendo mundo afora, sobretudo nas sociedades contemporâneas. Uma cultura que liberta persiste na busca por autonomia e carrega os componentes da descolonização, da despatriarcalização, da desmercantilização e da desantropocentralização. Sem essas desconstruções não há autonomia possível, nem liberdade. Alcançar a autonomia (no sentido cultural, de desembaçar camadas de percepção) não é algo fácil, daí a necessidade de cultivar os meios para que as pessoas e comunidades exercitem suas próprias escolhas, evitando que a colonialidade se imponha.

O protagonismo é a outra partícula essencial a potenciar um ponto de cultura. Do grego protos (principal, primeiro) e agonistes (ator, competidor). Desconstrução não significa destruição, e sim desmontagem, decomposição; para reconstruir, é necessário desconstruir, conforme a fenomenologia aponta. Observar os fenômenos com objetividade, depois decompô-los para compreender, e recompor novamente. Não se trata de um método, conforme o filósofo da desconstrução Jacques Derrida apontou, e sim um método a buscar lacunas para compreender a própria existência do fenômeno. Isso implica que indivíduos e coletividades se disponham a assumir o palco, falarem na própria voz, tomando a narrativa da história “para si”. No início pode até ser uma narrativa aparentemente desconexa, desencontrada, mas há que estimular a fala na primeira voz, do contrário jamais se estabelecerá um processo emancipador. Também não significa que todos tenham que subir ao palco ao mesmo tempo, pois, em uma situação dessas, as vozes se transformariam em ruído, barulho, e o palco cairia. Protagonismo pressupõe um exercício entre estar no palco e na plateia, falar e escutar. Isso é cultura do encontro, é diálogo, é capacidade de observação e interpretação do mundo. Como exemplo de meio a fomentar o protagonismo: estúdios multimídia (no Brasil era a única obrigatoriedade para os pontos de cultura), equipamentos audiovisuais e de edição que permitam às coletividades falarem na própria voz, contarem as próprias histórias, registrarem as próprias imagens, não pelo “olhar de fora”, mas pelo próprio olhar. Com o avanço tecnológico esse estúdio pode estar na palma da mão, num smartphone. A questão não é tecnológica; trata-se de conseguir reestabelecer linhas narrativas que permitam a projeção de roteiros futuros, em processos de sensibilização e reflexão, independentemente do equipamento técnico disponível.

Do jogo, ou da combinação, entre autonomia e protagonismo, as comunidades começam a se apoderar dos seus meios narrativos. Autonomia e protagonismo, combinados, são condições indispensáveis para a quebra de hierarquias sociais e a construção de novas legitimidades; ainda mais nas sociedades pós-industriais, em que os serviços simbólicos substituem os bens materiais como a base da acumulação de valor. É na disputa pelo domínio do território narrativo que vai se concentrando a nova etapa da luta de classes, daí sua importância estratégica. Da combinação entre autonomia e protagonismo um ponto de cultura alcança a sua potência.

Mas há a necessidade de uma terceira partícula a possibilitar o salto quântico: a articulação em rede.

O que é uma rede? Um entrelaçamento de linhas, que são formadas por pontos, dando padrão e estrutura ao processo de entrelaçamento entre os pontos. Ao ligar pontos novos, sentidos são criados, uma vez que esses pontos se afetam mutuamente e se modificam. O desafio está em achar o fio da meada. Tem sido comum as pessoas considerarem que o fenômeno rede é algo recente, mais identificado com a sociedade da informação, as redes sociais. Mas não é. Redes estão indissoluvelmente vinculadas à aventura humana, desde quando os primeiros hominídeos decidiram ir além da savana africana. A humanidade só existe porque se fez em rede, a própria mente humana é resultado de processos de conexões em rede. Vigotski, ao estudar o desenvolvimento mental das crianças bem pequenas, isso na Rússia pós-revolução de 1917, procurou compreender os processos dinâmicos de desenvolvimento da mente e sua maturação. É quando ele descobre e conceitua a “zona de desenvolvimento proximal”, em que a evolução mental das crianças dá saltos quando elas são colocadas em contato umas com as outras. Quem observa de perto a evolução de crianças pequenas percebe claramente esse fenômeno. Uma criança com dois anos de idade, por exemplo, que só viveu sob cuidados da família, sem intensos contatos com outras crianças, de repente, quando colocada junto a outras crianças, em uma sala de pré-escola, em menos de um mês desembesta a falar e a se comunicar. Esse seria o desenvolvimento proximal, o desenvolvimento a partir dos próximos, em zonas de intersecção, não verticais. Para Vigotski:

a zona de desenvolvimento proximal define aquelas funções que ainda não amadureceram, mas que estão em processo de maturação, funções que amadurecerão, mas que estão presentemente em estado embrionário. Essas funções poderiam ser chamadas de “brotos” ou “flores” do desenvolvimento, em vez de “frutos” do desenvolvimento. O nível de desenvolvimento real caracteriza o desenvolvimento mental retrospectivamente, enquanto a zona de desenvolvimento proximal caracteriza o desenvolvimento mental prospectivamente2.

Aplicando essa teoria aos pontos de cultura foi possível desencadear processos intensos de desenvolvimento entre os pontos, e de forma horizontal, uma vez que pontos diferentes contribuíam com outros, e não mais o estado, que passou a ser um facilitador na aceleração desses processos. É a articulação em rede que permite que pontos, antes isolados, ganhem força a fazer frente aos reguladores do mundo dos sistemas, por encontrarem coletivamente um denominador comum. A vida, ela própria, dá saltos quando se encontra com outras vidas.

O ponto de cultura é uma microrrede, atuando no território (físico ou virtual), junto às comunidades e nas diferentes formas de expressão, linguagens artísticas ou grupos identitários. A busca e o fortalecimento da peculiaridade, da singularidade. Com a intervenção no território, e no campo da memória comunitária, o ponto de cultura vai se empoderando de processos de construção narrativa, com autonomia e protagonismo, bem como desencadeando processos formativos e de criação. Como macrorrede, a cultura viva, interligando pontos, ampliando sua sustentabilidade e dando sentido às ações comunitárias, antes circunscritas às comunidades. Com isso outras comunidades são afetadas, formando novos conjuntos de comunidades da vida.

Surgiram as mesorredes, intensificando os pontos de cultura como espaços de recepção e irradiação de formação, criação e difusão cultural, um conjunto de ações, por vezes não imaginadas, nem experimentadas no âmbito da comunidade. As interações estéticas, a aproximar artistas profissionais de comunidades, de modo a produzirem novas criações artísticas; griôs e mestres da cultura tradicional, para processos de transmissão de cultura pela oralidade; pontinhos de cultura, para a cultura lúdica e infantil; cultura e saúde; economia viva, para novas formas de economia, circular e com vínculo comunitário e popular; pontos de memória; pontos de leitura; agentes jovens da cultura viva3. O objetivo era (e é) que um ponto de cultura aprenda com outro, de forma horizontal, formando redes próprias, por aproximação. Com quanto mais redes o ponto de cultura se articula, mais empoderado ele estará, tanto nos âmbitos social, econômico e político como nos aspectos criativos e artísticos.

Esse “conter e estar contido”, em que se entrelaçam micro, meso e macro redes, aproxima a teoria do ponto de cultura do conceito de ponto quântico. Há que compreender os processos desencadeados a partir de um ponto de cultura como partículas extremamente pequenas (as ações cotidianas do comum, acontecidas em um ponto), que tem sua energia liberada, ou melhor, quantizada, em potência discreta, emitindo luz a partir de ondas, em diferentes dimensões. É essa energia liberada que permite desencadear interações entre diferentes corpos, pontos. São essas contínuas e pequenas liberações de energia, a partir de afetos cotidianos, que permitem que um ponto de cultura consiga superar suas limitações. Na segunda parte deste livro pretendo demonstrar empiricamente como acontece esse processo.

Geometria e equação para a cultura do encontro

A partir do conceito de zona de desenvolvimento proximal e ponto quântico, percebi que era necessário estabelecer uma geometria para o processo de contato e encontro entre pontos, em forma de círculos4. Essa geometria também pode ser aplicada à cultura do encontro, de modo a potencializar processos comunicativos e de transformação de realidades, sempre em uma perspectiva de desenvolvimento horizontal, entre pares. Desse processo de desenvolvimento e interação entre pontos5 é possível extrair uma série de equações a expressarem medidas conceituais e aparentemente abstratas.

Equações simples mas fundamentais para a compreensão da teoria da cultura viva e da cultura do encontro:

Cultura + natureza = Cultura viva

Trabalho + encantamento = Transformação

Território + memória = Cultura viva comunitária

Identidade + alteridade = Solidariedade

Tradição + invenção = Criação

(Des)envolver + (re)envolver = (Con)viver

Potência + afeto = Cultura do encontro

Dessas equações encontra-se a síntese da potência desencadeada a partir de um ponto de cultura:

PC = (a+p)r

Ponto de cultura é igual a autonomia mais protagonismo elevados à potência das redes; quanto mais redes, portanto, mais potência haverá.

O mesmo conjunto de equações pode ser aplicado à cultura do encontro, exatamente porque é do encontro entre dois pontos de cultura que algo totalmente novo é gerado. Com a cultura viva o que se busca é a aceleração desses processos visando a cultura do encontro, a partir de uma inteligência coletiva entre pontos conectados em diversidade. Tendo sempre por objetivo o cultivo de um regulador no mundo da vida que seja forte o suficiente para fazer frente aos reguladores do mundo dos sistemas. Como resultado, a busca por outra globalização, menos uniforme e mais multiforme, menos esférica e mais poliédrica, que só será possível se desencadeada por um processo emancipador, em que a potência humana seja a fonte de energia para a transformação.

Mas isso não é o fim, é só o começo.


1 Especificamente aqueles pontos de cultura que, de fato, reuniam as condições para o empoderamento sociocultural, como autonomia e protagonismo, em ambientes comunitários e de ancestralidade em comunicação com a invenção criativa, sempre com disposição para a afirmação de identidades, sem deixar de lado o exercício da empatia e da alteridade, em contato com o diferente e diverso.

2 L. S. Vigotski, A formação social da mente, São Paulo: Martins Fontes, 2003, p. 113.

3 Essas ações estão mais bem detalhadas e analisadas em outro livro do autor, Ponto de Cultura: O Brasil de baixo para cima, São Paulo: Anita Garibaldi, 2009, acessível gratuitamente por meio digital. Também em edições em espanhol, Puntos de Cultura: Cultura Viva en movimiento, Argentina: RGC, 2013, e em inglês, The Point of Culture: Brazil turned upside down, UK: Calouste Gulbenkian Foundation, 2013.

4 Há duas outras influências geométricas que também utilizo. Uma é o chamado “homem vitruviano”, mais precisamente a equação de proporção humana apresentada pelo próprio Vitrúvio, arquiteto romano do século I a.C., cuja solução só foi resolvida quinze séculos depois (um bom exemplo para reconhecermos que não existe problema matemático que o tempo não possa resolver) na síntese artístico-matemática, que é o “homem vitruviano”. Ao identificar o humano como medida das coisas, o desenho Homem vitruviano, de Da Vinci, desencadeou um profundo processo de revolução mental, o Renascimento. Quando da política pública com o programa Cultura Viva, no Brasil, a logomarca era um homem vitruviano estilizado, exatamente por expressar esse sentido de liberação da potência humana em todas as suas dimensões. Outra equação matemática que muito me instiga é a sequência de Leonardo de Pisa, também conhecido como Fibonacci, que viveu na Idade Média, início do século XIII, na península itálica. Aprofundo a razão áurea, ou a sequência de Fibonacci, no capítulo “Caracol”, em que faço uma relação entre movimentos espiralados de autoconhecimento e alteridade e o exercício do perdão.

5 A geometria a que me refiro não é plana nem tridimensional, mas orgânica.

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