Carta para a Geração do Fim do Mundo

De pouco vale, agora, planejar-se para viver em um mundo à beira da catástrofe. Mais que dinheiro e prestígio, juventude parece apostar na reinvenção de si e do planeta: com saberes ancestrais e tecnologia, feminismo e construção do Comum

É em solidariedade a vocês que hoje vislumbram o mundo adulto com apreensão e se perguntam sobre o futuro, que escrevo esse texto. Peço licença para oferecer minha experiência como professora de História e pesquisadora do futuro, que me fizeram escrever o livro Auroville, 2046. Depois do fim de um mundo. Tenho 55 anos, dois filhos que são jovens adultos e presencio a intensa tomada de consciência da juventude acerca do que nos aguarda, muito antes deles e delas chegarem à minha idade. Os depoimentos são tocantes e a pandemia de covid-19 foi um acelerador dessa antevisão: se um vírus pode fazer o que fez no mundo, imaginem todas as tragédias anunciadas pelos cientistas, como as mudanças climáticas. 

Quero começar partilhando um episódio visionário que aconteceu há vinte anos com um jovem e brilhante estudante, que escreveu sob minha supervisão uma monografia sobre o desenvolvimento urbano da pequena comunidade alternativa do Capão, na Chapada Diamantina. Seu trabalho, dedicado e competente, valeu uma aprovação calorosa da banca do Curso de Urbanismo da Universidade do Estado da Bahia. Como é de praxe, a orientadora abraça o orientando dando-lhe as boas-vindas ao mundo dos pesquisadores, que ele entrava com talento evidente. Quando lhe perguntei pelos seus planos de futuro, sobre um possível Mestrado, ele me surpreendeu dizendo que iria morar no Capão e provavelmente ser guia turístico. Espantada, disse-lhe que era muito inteligente e talentoso e que poderia vir a ser professor, ao que ele respondeu com algo como “pró, se sou tão inteligente assim não posso planejar minha vida para servir a esse mundo em decomposição”.

Esse episódio me marcou pois, embora na época conduzisse um grande programa de incentivo ao consumo consciente no meio universitário brasileiro, não tinha tal clareza sobre o futuro. É seguindo o caminho de meu orientando – que está tendo hoje uma vida simples e alegre lá no Capão — que abordarei o tema do futuro dos jovens. Se me permitem um conselho para começar, eu diria: não planejem carreiras e feitos vinculados ao mundo como ele é — ou era, antes da pandemia — pois ele não existirá mais e essa escolha não será benéfica pra você, nem para a Vida.

Afrontar o “fim de um mundo” não é uma perspectiva fácil de encarar, mas posso lhes assegurar que, se as perspectivas são sombrias, é possível também ver luz se aproximando. Como lembram os antigos, após cada noite sempre sobrevém uma manhã. Se as palavras de ordem do futuro próximo serão provavelmente desestruturação e incerteza, elas também serão resiliência e criatividade. Quando a barbárie bater à porta, seremos obrigados a nos regenerar e em face ao desequilíbrio de grandes proporções, apenas a cooperação poderá fazer com que possamos renascer como civilização. A cooperação também será palavra de ordem do futuro e isso é promissor, mas exigirá coragem e determinação. E também o desenvolvimento de habilidades muito femininas, como o cuidado e o acolhimento, que constroem redes de afetos, de amizades, de família e de solidariedade com a família humana e com a Natureza.

Apesar das catástrofes que estão implícitas na ideia de geração do fim do mundo, isso pode ser visto também como uma grande libertação para a juventude. Serão as primeiras gerações que não precisarão, nem poderão, formatar-se ao mundo dos pais, opção sem graça para qualquer jovem com imaginação. E tantos tiveram suas vidas e carreiras profissionais orientadas pelas conveniências… sejam elas de mercado, de trabalhar onde potencialmente se ganha mais dinheiro, ou de prestígio, seguindo os passos da família, para herdar respeito, condições diferenciadas e alta remuneração.

Nesses caminhos antigos em que os e as jovens projetaram seus futuros, muitas vezes se criou expectativas frustradas e infelicidade, pela traição dos talentos individuais. De todo modo, a expectativa de dinheiro e prestígio sempre foi para poucos, deixando a maioria esmagadora frustrada e infeliz. Agora eles são uma quimera acessível talvez apenas a pouquíssimos jovens oriundos de famílias que consigam guardar suas fortunas apesar de tudo e assim possam financiar a “prosperidade” de mais uma geração. Ao longo da História, muitos jovens, para se integrarem à comunidade de origem, tiveram que abrir mão de seus talentos — e também de suas opções sexuais, de suas inclinações artísticas e de seus sonhos mais criativos. Hoje, pelo impacto da incerteza, eles e elas tendem a ser mais livres para escolherem seus caminhos.

Os sonhos de “sucesso”, de “carreiras bem-sucedidas”, de enriquecimento e prestígio, foram estimulados pela cultura capitalista que construiu o desastre a que estamos assistindo. O modelo do mercado, onde o objetivo único é lucrar, não é resiliente, sobretudo em tempos de tantas transformações. Na mudança radical que o futuro certamente trará, é uma bobagem gastar a inteligência e o talento da juventude com perspectivas tradicionais. Num mundo a reconstruir toda a energia e criatividade dos jovens será muito bem-vindos, sobretudo se eles e elas acolhem o futuro como incerto e, portanto, desenvolvem a resiliência – essa capacidade de acomodar-se aos choques da vida tirando da existência o mais importante: aprendizado, amor, inteireza, alegria de viver.

Muito provavelmente a prosperidade do futuro será concebida de forma diferente. Ela estará muito mais vinculada à ideia de conseguir regenerar a Natureza e as relações humanas em bases que se sustentem. Produzir comida sã, água limpa, ar puro, solos e matas em recuperação, recriando biodiversidade — a grande riqueza do mundo — serão muito mais prestigiados no futuro. Construir relações humanas sólidas, solidárias, com pessoas próximas e distantes – será outra habilidade prestigiada. Ser artista, trazer ao mundo mais fantasia, possibilidades insuspeitadas, mergulhos na alma… Tudo isso será precioso e muito mais valorizado, dando à juventude mais argumentos para rebelar-se, como sempre fez, mas trazendo uma nova legitimidade: afirmar-se servindo ao mundo fazendo o que sua alma pede.

A palavra incerteza aparecerá muito mais nas nossas vidas e nós aprenderemos finalmente o quanto querer controlar a vida é uma ilusão. Melhor vale estar aberta/aberto ao imprevisto e tirar o melhor dele. Quando os sistemas se desestabilizam, principalmente o sistema Terra, as previsões serão mais difíceis, mesmo com todos os avanços tecnológicos. Passo a um segundo conselho, se continuam a me permitir: recomendo vivamente aos jovens que desenvolvam sua intuição, essa habilidade humana tida como feminina, tão pouco usada, e até desprezada. A intuição é um tipo de visão íntima, possibilitada quando mente e coração estão em sintonia. Ela envolve o corpo e a alma e com a intuição é possível escolher o melhor caminho em face do incerto, da dúvida, do medo. Essa habilidade pode ser desenvolvida com exercícios cotidianos, quando a mente é acalmada e outras sabedorias se colocam a nosso serviço. Ela será importante fator de aumento da resiliência e da serenidade necessária para escutar a sabedoria maior em face das adversidades e das possibilidades. Ela é também grande amiga da criatividade e assim da arte, da ciência e da invenção.

Uma potencialidade importante do futuro já pode ser vivida hoje: aprender pela internet, aproveitando o espírito de cooperação que aí impera e que é natural no ser humano. Este espírito é largamente praticado por muitas comunidades alternativas. Hoje, esses agrupamentos humanos, onde se destacam as ecovilas, já se empenham em diversos modos econômicos ganha-ganha, de partilha e redistribuição; em modos regenerativos de lidar com a Natureza para produzir alimentos e florestas; em modos integrativos de educação e saúde que se baseiam na sabedoria nata das crianças e dos nossos corpos para aprenderem e se manterem saudáveis; nas práticas colaborativas de autoconhecimento que baseiam-se na ideia de transformar-se para transformar o mundo; nas governanças democráticas de coletivos locais que inspiram transformações em escalas maiores; na moderação de consumo requeridas pelo imperativo do lixo zero para evitar o ecocídio; nas tecnologias ecológicas e colaborativas open source, creative commons, etc.

É muito provável que no futuro venha a existir muita escassez daquilo que era comum, devido à sucessão de crises previsíveis de alimentos, de água, de combustíveis, pela volatilidade do dinheiro, restrições à mobilidade, etc. Nesse caso, o que era abundante e nocivo felizmente vai aos poucos acabando: petróleo, plásticos, descartáveis, desperdício, superficialidade, competição exacerbada, consumo insensato. Abriremos os olhos para ver abundância ali onde isso era insuspeitado. Todas as possibilidades da reciclagem que transformam resíduos em objetos úteis serão valorizadas no mundo onde os lixões e aterros sanitários serão tesouros. E assim, o que era pouco valorizado pelo “mercado rei”, o que dá pouco ou nenhum dinheiro, mas que traz sentido à vida, se tornará essencial: os fazeres manuais, os fazeres da terra, as artes de modo geral. E, também, aquilo que não traz nenhuma riqueza material: a contemplação, a quietude, o fazer nada, a gostosa interação feliz entre amigos.

Pensem, caros jovens, no mundo apetitoso pode estar vindo por aí… Um mundo em que as “tecnologias interiores” do sonho de Mirra Alfassa para a mais importantes das ecovilas: Auroville, se tornam um caminho de evolução. A “Mãe” de Auroville dizia que chegaria um tempo em que harmonizaríamos nossos feitos externos — as incríveis tecnologias inventadas pela humanidade para lidar com o mundo exterior — com tecnologias interiores, formas engenhosas e sensíveis de lidar com o mundo interno. Esse universo imenso que está dentro de cada um e cada uma de nós está interligado aos outros e pode evoluir. É o que nos dizia Gustav Jung em seu conceito de inconsciente coletivo, como nos diz hoje Rupert Sheldrake no seu conceito de campos morfogenéticos, ou como nos disseram sempre as sabedorias ancestrais. A evolução segue em direção a mais amorosidade e a própria história humana mostra isso, se acompanhamos a evolução histórica da ideia de direito à Vida, por exemplo.

Vocês, jovens de hoje, poderão ajudar a humanidade a dar passos largos na direção da amorosidade. Convido-a, cara juventude, a abrir os olhos para verem as pessoas e comunidades que já estão vivendo o pós-capitalismo há anos e mesmo há décadas. Na verdade, essas comunidades apenas atualizaram conceitos presentes nos modos de vida das culturas originárias que foram sufocadas pelo colonialismo. Elas entendiam que a harmonia entre nós e a Terra, entre nós e os outros e entre as diversas partes de nós – corpo, alma, coração e mente – são a única forma de sobrevivermos juntos e de prosperarmos em termos subjetivos e materiais. E de sermos felizes e permitirmos que os outros também sejam. O mundo está falindo, mas também recomeçando, e vocês farão essa história não só superando o capitalismo, mas também o patriarcado.

O lugar em que se está também vai ser muito importante para as oportunidades. Até hoje as cidades grandes e as megalópoles eram o lugar dessas oportunidades, mas elas são estruturas pesadas e dependentes, com baixíssima resiliência, insustentáveis. Estão cada vez mais caras, poluídas, congestionadas, violentas e nada no horizonte aponta que isso vai melhorar. Pelo contrário. Cidades médias e pequenas, ecovilas, vida no campo, tudo isso oferece maior resiliência aos problemas ambientais, econômicos, sociais, políticos… Ter um cinturão verde oferece comida mais facilmente, ter um governo mais próximo favorece a democracia, ter famílias e amigos mais perto favorece a cooperação e a vida de vizinhança é muito mais intensa em espaços urbanos menores.

Uma economia de proximidade é mais sólida, os chamados circuitos curtos fortalecem a economia local e distribuem renda. Por isso mesmo haverá uma tendência à descentralização até nas grandes cidades. Com a pandemia e a aceleração do trabalho remoto, via tecnologias digitais, milhões de pessoas deixaram as cidades e instalaram-se em locais mais calmos mantendo sua possibilidade de trabalho e interação. Quando tiveram que se manter isoladas em casa as pessoas tiraram muito mais proveito do comércio local e das relações de vizinhança. Isso tudo já está impactando o futuro, mostrando que há saídas quando o acúmulo de crises for transformando as megacidades em locais com muito mais problemas do que oportunidades.

Essa escassez do que era abundante e abundância do que era insuspeitavelmente útil tende a ser uma característica do futuro.  Dou como exemplo a questão dos alimentos trazendo algo que hoje já faz sucesso em meio à juventude mais criativa: as PANCs, Plantas Alimentícias Não Convencionais, como se diz no Brasil, ou os incredibles edibles, os incroyables comestibles, etc. Sabe aquela plantinha que está ali na esquina, resistente e que cresce sem cuidados? Ela pode ser uma PANC muito nutritiva. Quando a ciência fala que pelas mudanças climáticas será difícil continuar cultivando os alimentos a que estamos acostumados nos lugares em que sempre foram cultivados, nossos olhos podem se abrir para outras possibilidades nutritivas. É o que está acontecendo em muitas partes da Índia hoje com o arroz, a comida nacional. Muitas experiências estão sendo feitas para substituí-lo pelo mileto, um cereal muito mais nutritivo e resiliente às mudanças climáticas, que demanda muito menos água e fornece muito mais nutrientes que o arroz, e era desprezado.

É quando a catástrofe se torna anástrofe, reconstrução, que cada jovem pode encontrar o lugar da alegria de fazer o que gosta e servir assim ao mundo, sem escolher uma carreira pelo prestígio e dinheiro, como vem se fazendo há gerações. Sem fazer outras escolhas de vida sentindo o peso esmagador das gerações passadas, apenas inspirando-se no que elas fizeram e que vocês admiram e honram. Vocês serão os jardineiros de amanhã, jardineiros DO amanhã, que sabem regenerar, que lidam com os conflitos usando o coração e não o fígado, que percebem que cada gesto individual constrói o mundo coletivo. Que o mundo interno se reflete no mundo externo. E se engajam para fazer o melhor por si, para fazer o melhor para o mundo. Confio em vocês e também desejo boa sorte. Estamos juntas. Estamos juntos.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos

Leia Também:

2 comentários para "Carta para a Geração do Fim do Mundo"

  1. Renato disse:

    Quanto otimismo… e um mar de jovens bolsominion na porta.

  2. Ana Carolina Campos disse:

    Que texto maravilhoso! Obrigada por isso!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *