Chances abertas na mudança curricular do Ensino Médio

Escolas preparam-se para controversas alterações desencadeadas por Temer. A ameaça pode virar oportunidade. Três pistas metodológicas para arquitetar um ensino sintonizado com século XXI, capaz de abordar da crise climática à cultura digital

No decorrer deste ano as redes públicas e privadas de educação estarão finalizando as suas propostas de reformulação do Ensino Médio, propondo novas arquiteturas curriculares para esta etapa da Educação Básica sintonizando-as com os desafios provenientes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). É de nosso conhecimento que esta reforma do Ensino Médio percorreu um caminho controverso para sua elaboração, muitas vezes por percursos pouco democráticos e com a ausência de diálogos políticos com as juventudes brasileiras. Em publicações variadas, os pesquisadores da educação, as associações profissionais e científicas, as agremiações estudantis e coletivos variados sinalizaram para os limites curriculares desta política. Todavia, considerando as possibilidades de mobilizar modos de resistência mais ativos, vou defender neste texto que podemos aproveitar essa oportunidade de mudança para contribuir com as milhares de escolas de nosso país na proposição de uma agenda mais progressista – inovadora e democrática.

O primeiro debate que considero importante que seja mobilizado diz respeito aos nossos propósitos educativos. Antes de elaborar um reposicionamento curricular seria conveniente que as redes de ensino desenvolvessem um procedimento de escuta das escolas, mapeando as prioridades institucionais, os desafios metodológicos e as demandas subjetivas dos adolescentes e jovens. Este primeiro passo, planejado colaborativamente, permitirá vislumbrar os atuais dilemas com relação à qualidade e à equidade – questões centrais para um público tão heterogêneo e diversificado em suas expectativas com relação à escolarização. Para este momento – a discussão sobre os propósitos educativos – será fundamental um diagnóstico das questões sociais, culturais e econômicas de nosso tempo, conseguindo compreender as novas formas econômicas, outras relações com o trabalho e com o consumo e o advento da cultura digital. Nas redes de ensino que tenho acompanhado aproveito este momento para demarcar a importância de refletir sobre a crise climática; afinal, os adolescentes de 2021 atravessarão o século em sua integralidade.

Após a instauração de uma reflexão coletiva sobre os propósitos educativos, um segundo passo abarcaria a definição dos conceitos estruturantes da nova proposta curricular. Sem dúvida que a Base Nacional Comum Curricular já apresenta conceitos importantes como protagonismo juvenil, projetos de vida e itinerários formativos. Porém, após um conjunto estruturado de sessões de estudo e formação, as redes públicas e privadas podem produzir releituras destes conceitos ou mesmo, na medida do possível, acrescentar novos conceitos que auxiliem na construção deste percurso e que respondam aos propósitos educativos definidos coletivamente. Seminários públicos, grupos de trabalho, agendas colaborativas de estudo ou mesmo publicações destinadas a esta finalidade podem se converter em ferramentas importantes. O que me parece crucial, neste momento, é o engendramento de oportunidades de estudo.

A próxima fase deste processo poderia estar vinculada à criação de alternativas pedagógicas. Que procedimentos didáticos precisam ser priorizados? Como a aprendizagem dos estudantes será promovida e sistematizada? De quais modos as desigualdades serão enfrentadas? Como as tecnologias digitais serão utilizadas para potencializar pedagogicamente a proposta? Que relações serão estabelecidas com o trabalho, a cidadania e a tecnociência? Questões dessa natureza acompanham o trabalho das professoras e coordenadoras pedagógicas do Ensino Médio há bastante tempo e, para serem examinadas com a devida atenção, carecem de um mapeamento bastante alargado das condições pedagógicas da rede de ensino. Merece destaque ainda a importância da diversificação pedagógica (dos procedimentos e dos materiais didáticos), de maneira que evitem a possível padronização ou roteirização do trabalho docente.

Em uma perspectiva progressista, somente após as definições anteriormente elencadas é que as escolas ingressarão no debate efetivamente curricular, isto é, a seleção dos conhecimentos, das experiências e das competências. O percurso metodológico que apresentei neste texto, com a intenção de fundamentar a construção das propostas das redes de ensino, será ampliado em outras publicações visando desenvolver modelos mais inovadores e democráticos para as políticas curriculares para o Ensino Médio. A definição dos propósitos educativos, dos conceitos estruturantes e das alternativas pedagógicas, em linhas gerais, servirá de base para uma proposta mais negociada coletivamente, em sintonia com demandas advindas das juventudes do século XXI. É momento de ingressarmos neste território contestado: apostando em uma agenda curricular que nos permita arquitetar um futuro humano melhor!

Referências:

SILVA, Roberto Rafael Dias da. A individualização dos percursos formativos como princípio organizador das políticas curriculares para o Ensino Médio. Ensaio, v. 27, n. 103, p. 426-447, 2019. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/328431014_A_individualizacao_dos_percursos_formativos_como_principio_organizador_das_politicas_curriculares_para_o_Ensino_Medio_no_Brasil

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2 comentários para "Chances abertas na mudança curricular do Ensino Médio"

  1. Joma disse:

    É extremadamente necessário criar condições que permitam a todos começar a vida em pé de igualdade e equidade. As desigualdades e as iniquidades em nossas sociedades estão, na sua generalidade, enraizadas nas muitas desvantagens existentes na infância de cada cidadão, essencialmente na Educação.
    Para um aluno estudar com qualidade há que ter boa alimentação e moradia, uma zona de estudo com internet e hardware, muita paz e liberdade física e psicológica que lhe permita ser feliz e criar.

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