Um Woody Allen refinadíssimo — porém sem gume?

café

EmCafé Society”, cineasta parece ainda mais depurado, seguro e elegante. Mas terá chegado ao ponto de diluir dramas reais como a pena de morte e a ambição desmedida? Vale conferir

Por José Geraldo Couto, no blog do IMS

A voz de Woody Allen está irreconhecível ao narrar e comentar em off a ação de seu novo filme, Café Society. Perdeu o timbre nasalado, a urgência nervosa. Ganhou uma espécie de serenidade madura que condiz, de certa forma, com essa evocação agridoce da trajetória pendular de um rapaz judeu entre Hollywood e Nova York no final dos anos 1930 e início dos 40.

Esse tale of two cities do cineasta octogenário bem pode ser visto como uma suma dos temas mais constantes de seu cinema. Ali está, por exemplo, o triângulo amoroso: uma moça adorável, Vonnie (Kristen Stewart), sinceramente dividida entre dois amores, o maduro agente de estrelas Phil Stern (Steve Carell) e seu sobrinho pobre Bobby (Jesse Eisenberg) que veio de Nova York a Los Angeles em busca de trabalho.

Estão presentes também a tragicômica família judia, os dramas morais, as especulações filosófico-religiosas, a sátira de costumes, a declaração de amor e humor à indústria do cinema, o gosto musical impecável. Enfim, um autêntico Woody Allen.

Estilo depurado

O que há de novo? A rigor, talvez nada. Mas, mais do que suma, talvez uma palavra melhor seja depuração. O cineasta parece ter podado as arestas de ansiedade, a incontinência verbal que às vezes fazia as palavras darem a impressão de não caber na imagem e no ritmo de seus filmes. Aqui tudo flui com uma segurança e uma elegância que alguns grandes artistas encontram em suas obras de maturidade.

Não há desleixo nessa fluência. Allen está engenhoso como nunca na construção narrativa e na busca de soluções visuais e/ou verbais apropriadas. Dois exemplos, já mais para o final do filme. Numa festa de virada do ano, Bobby em Nova York, Vonnie em Los Angeles, ambos são filmados da mesma maneira, com a câmera próxima, e como que destacados dos convivas que se agitam ao seu redor. Têm a cabeça e o coração em outro lugar, habitam outra dimensão. Essa dimensão invisível, que deixa em aberto ao espectador a possibilidade de participar da construção do drama, é atributo dos grandes cineastas.

Em outra passagem, a mesma fala (“Ora, os sonhos são… sonhos”) adquire significados diferentes quando dita por Vonnie a Bobby e por este a sua mulher (Blake Lively), jogando com o duplo sentido da palavra sonho.

A atmosfera visual criada pela fotografia de Vittorio Storaro e a direção de arte de Santo Loquasto, com uma luz e um cromatismo situados em algum ponto entre o onírico e o nostálgico, a trilha sonora envolvente, ligeiramente irônica, os diálogos precisos e saborosos, a escolha certeira dos atores, tudo parece conduzir imperceptivelmente o espectador pelos meandros do universo de Allen, que é feito de personagens dúbios e ideias esquivas, mas que aqui parece atingir uma certa simplicidade, uma forma depurada, despojada de ruídos e dispersões.

Bombom ou sublimação

Há um risco nessa estratégia, ou nessa opção estética. Assassinatos, cadeira elétrica, lares desfeitos, amores traídos, gangsterismo, máquina publicitária hollywoodiana, culto à celebridade, competitividade destrutiva, todas as coisas mais contundentes e sombrias de certa forma perdem o gume, tornam-se suaves, embaladas como bombons na confeitaria de Woody Allen.

Ou não, como diria o outro. Talvez não se trate de diluição, edulcoração ou perda de substância, mas de sublimação ou algo parecido. A consciência, entre serena e melancólica, de que a vida é curta e preciosa demais para aflições desmedidas e de que mais vale buscar a graça oculta até mesmo nos maiores horrores – como a mãe judia que, diante do filho que se converte ao cristianismo às vésperas de ser executado, comenta: “Mais essa agora: além de assassino, católico. Não sei o que é pior”.

Café Society não nos faz gargalhar como Um assaltante bem trapalhão, nem nos leva a refletir sisudamente sobre dilemas morais como Crimes e pecados ou Match point. Mas talvez nos sugira os múltiplos sentidos da palavra graça.

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3 comentários para "Um Woody Allen refinadíssimo — porém sem gume?"

  1. Lucia Medeiros disse:

    Não se trata de nenhum edulcoramento
    Se trata
    De evidenciar
    Como nenhuma tragédia
    É extraordinária…
    -É rotina no cotidiano…

  2. Percia disse:

    Achei o filme excelente. Uma aula de como fazer cinema. Figurino, fotografia, atores, música, enfim bravo

  3. Genovan de Morais] disse:

    Apesar de belíssimo visualmente bocejei inúmeras vezes com um W. Allen que na minha modesta opinião, parece não ter mais o que dizer, isto é, cinema de repertório gasto, sem potência ante um mundo em desagregação, transformando seu cinema, aliás como já há algum tempo vem fazendo, em bom entretenimento, mas sem coragem ou vontade de ir fundo em suas mazelas, mesmo que com graça.

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