Por que ler Álvares de Azevedo hoje

Nascido há 190 anos, escritor, poeta e dramaturgo é avis rara na literatura brasileira. Romântico, não foi nacionalista ingênuo. Cultivou, como Byron, o gosto pelas sombras e transgressão. Morreu aos 20. Novo livro amplia esforço por compreendê-lo

Por Andrea Sirihal Werkema

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> O texto a seguir é a apresentação de:
“Cuidado, Leitor”
De Andrea Sirihal Werkema (organizadora)
Publicado pela Alameda, parceira editorial de Outras Palavras

> Lançamento:
Quinta-feira, 27/5, às 18h30
Com Natália Gonçalves de Souza Santos (UFV); Patrícia Aparecida Guimarães de Souza (USP) e Rafael Fava Belúzio (UFMG)
Em vídeo ao vivo, no canal da editora no youtube

“Cuidado, Leitor”, disponível na loja virutal da Editora Alameda 

Em 2021, completam-se 190 anos de nascimento de Manuel Antônio Álvares de Azevedo, nascido em São Paulo, criado no Rio de Janeiro, estudante de direito, poeta, crítico em formação. Sua morte precoce, com pouco mais de 20 anos, é ainda motivo de consternação, se pensarmos no volume considerável da obra que deixou em estado de publicação; os leitores estão sempre a imaginar o quanto mais ele poderia ter escrito. No entanto, temos efetivamente em mãos uma obra variada, que visita diferentes gêneros literários (poesia, prosa; drama, narrativa, crítica); se não é possível dizer com certeza que cada um de seus textos estava em

seu estado definitivo quando da morte de Álvares de Azevedo, podemos hoje afirmar que sua obra, publicada postumamente, tem qualidades que asseguraram o interesse da crítica nesses muitos anos que se passaram (a obra completa de Álvares de Azevedo surgiu em dois volumes, publicados em 1853 e 1855). Um interesse que se atualiza nos capítulos deste livro, que examinam algumas das facetas da obra do autor, nos dando um panorama que revitaliza, ao mesmo tempo, os estudos sobre o Romantismo brasileiro.

O lugar de Álvares de Azevedo na literatura brasileira é bastante interessante, já que ele faz parte do cânone de nosso Romantismo, sem dúvida, mas, ao mesmo tempo, está ali

colocado como um romântico antinacionalista, invertendo a imagem mais comumente vendida do movimento romântico entre nós – ao qual não se pode negar o uso político recorrente das “cores do país”, na expressão de Machado de Assis. Mas o poeta Álvares de Azevedo é chamado, na maior parte das vezes, para representar nosso Ultrarromantismo, com

todos os seus exageros sentimentais e sua absoluta subjetividade. A outra frequente imagem ultrarromântica de Azevedo se liga, claro, ao byronismo sombrio, ao satanismo e à morbidez, tão bem expressos na prosa de Noite na taverna e no drama Macário. O gosto pela noite, pela escuridão literal e metafórica, a transgressão como norma de comportamento, tudo isso concorre para dar a Álvares de Azevedo o primeiro lugar nessa vertente romântica entre nós. Enfim, em anos mais recentes, a crítica literária brasileira tem se interessado cada vez mais pela faceta autorreflexiva do poeta, expressa em seus prefácios, prólogos, alguns textos com ambições históricas, estudos sobre autores de sua predileção – e sua contrapartida programática posta em prática nos textos mais propriamente literários.

Talvez seja a evidente e complexa ligação entre postura crítica e obra literária o que atraia ainda hoje os leitores interessados em uma visão crítica do Romantismo para a obra de Álvares de Azevedo. As referências cruzadas entre suas obras, a repetição e o retorno aos temas, as retomadas de personagens e de situações, as citações e referências a obras fundamentais para a formação de uma atmosfera romântica, tudo isso dá à obra de Azevedo uma densidade nem sempre encontrada em nosso século XIX. Se somarmos a isso o fato de que ele tentou sempre expressar, criticamente, seus projetos enquanto autor romântico no

Brasil, temos um caso muito interessante de autoconsciência e autorreflexividade autoral entre nós, já por volta de 1850, ou seja, antes do consequente projeto literário de um José de Alencar, e muito antes do crítico Machado de Assis, que parece, inclusive, remeter a posturas críticas de Álvares de Azevedo em alguns de seus mais conhecidos ensaios, como “Instinto de nacionalidade” e “A nova geração”.

O fato é que existe uma linhagem crítica em nosso século XIX, visível nos prefácios e afins de nossos poetas e romancistas, além dos textos historiográficos e críticos stricto sensu, de que não se pode excluir o jovem Álvares de Azevedo. Sua postura antinacionalista em literatura é um contraponto essencial para pensarmos os rumos de um Romantismo tão marcado pela necessidade política de fundação do Brasil como estado-nação. Álvares de Azevedo se ancora em uma perspectiva não localista, voltada para uma ideia de literatura autônoma; ele parece estar sempre mais interessado no universo do livro e do literário do que numa ideia de funcionalidade imediata da literatura escrita no Brasil oitocentista. Isso é bastante “moderno” naquele contexto, diga-se de passagem, e só vai alcançar um âmbito maior de discussão com a contribuição crítica de Machado de Assis em 1873, no já citado “Instinto de nacionalidade”. O desvestimento de uma nacionalidade de fachada para a literatura brasileira – literatura que se formava frente aos olhos dos escritores e de seu público – já é questão candente para o poeta romântico que preferiu aos “toques nacionais” uma literatura voltada para uma verdade subjetiva, irregular, imperfeita, inacabada – expressa nas formas defeituosas do Romantismo crítico.

Esta seria a maior contribuição de Álvares de Azevedo para nosso Romantismo e para a literatura brasileira: sua procura incansável de formas, de maneiras de escrever, que não apenas inserissem o Brasil no debate do século XIX, em visada universalista, mas que também diferenciasse uma literatura jovem não por sua ornamentação indianista, de fauna ou de flora exótica, como expressa o poeta no diálogo de Macário. Ao invés de investir na construção de um mito de Brasil-floresta, de Brasil-paraíso perdido, a obra de Álvares de Azevedo nos oferece um mergulho, nem sempre sem perigos, na subjetividade conturbada do Romantismo, e nos convida a correr os riscos inerentes à experimentação formal e ao gosto pelo incerto, pelo grotesco, pelo sombrio.

Cada um dos capítulos deste livro apresenta e discute aspectos da obra de Álvares de Azevedo que dizem respeito à sua poesia, à sua visão de mundo romântica, à sua inserção no contexto do Romantismo, brasileiro ou global. Em minha contribuição, discuto os parâmetros de compreensão do que seria clássico e/ou romântico para um autor como Álvares de Azevedo, questão trazida à baila em “Puff”, que precede Macário; já o texto de Cilaine Alves Cunha examina implicações literárias e políticas do tão propalado antinacionalismo do autor, que não se estendia ao seu estatuto de cidadão do Brasil imperial. Gilberto Araújo retoma a ideia de fetiche para ler um dos capítulos de Noite na taverna, campo fértil para a transgressão e para a perversão típicas do Romantismo sombrio. Em outro texto sobre Noite na taverna, Júlio

França testa a possibilidade de um gótico oitocentista no Brasil: literatura da imaginação e do medo. Já Natália Gonçalves de Souza Santos retoma o poema “Ideias íntimas”, de Lira dos vinte anos, para aí averiguar o jogo paródico e binômico, a partir da recepção lusitana de José Feliciano de Castilho; também sobre o célebre “Ideias íntimas” é o capítulo de Patrícia Aparecida Guimarães de Souza, que centra sua discussão no sentimento de desencanto que permeia o Romantismo e o poema analisado. Rafael Fava Belúzio experimenta, entre o ensaio crítico e a forma da poesia, com as possibilidades poéticas da Lira; Vagner Camilo retoma o poema “Panteísmo” para discutir os significados de sua temática na obra de Álvares de Azevedo. Por fim, o capítulo de Wilton Marques acompanha a presença lírica, dramática e crítica de Álvares de Azevedo na obra de Machado de Assis.

Eu gostaria de agradecer, antes de fechar esta rápida apresentação, a todos os autores do livro, que aceitaram o convite para reunir uma série de artigos sobre Álvares de Azevedo em seus 190 anos – creio que não havia ainda, na fortuna crítica do autor, uma coletânea com leituras tão variadas e instigantes (na verdade, existe qualquer outra coletânea de artigos sobre o autor?). Devo notar também que o livro nasceu durante a pandemia de COVID que nos limita e angustia desde 2020 e, ao que tudo indica, em considerável parte de 2021. O trabalho de professores e pesquisadores da universidade brasileira não cessa, e tenho certeza que meus colegas aqui presentes podem atestar que esses foram meses de muitas e muitas tarefas e de adaptação rápida a modelos novos de ensino e pesquisa.

Outro enorme agradecimento vai para os editores e amigos Joana Monteleone e Haroldo Ceravolo Sereza, da Alameda, que toparam desde o início o projeto, e foram entusiastas sempre, fazendo do trabalho de produzir um livro algo prazeroso e muito bonito.

Agradeço aos meus colegas e alunos da UERJ sempre, porque são a base do meu trabalho, motivo e finalidade. E, claro, à FAPERJ, não só pelo custeio do livro, mas por manter possível a pesquisa na universidade pública brasileira em tempos adversos.

Desejo a todos os leitores um bom passeio pelo livro, mas sempre com o ferrão irônico do poeta a nos lembrar: “Cuidado, leitor, ao voltar esta página!”

Rio de Janeiro, janeiro de 2021

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