Polêmica: a arte inofensiva de Que horas ela volta

Anna Muylaert agrega outro filme à safra sobre desigualdade social. Mas sua obra é caricata, foge dos conflitos reais, entretém público em radicalidade apenas aparente

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Anna Muylaert agrega outro filme à safra brasileira sobre desigualdade social. Mas sua obra, como outras, é caricata, foge dos conflitos reais, entretém público em radicalidade apenas aparente

Por Deni Rubbo

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Por José Geraldo Couto

Que o filme Que horas ela volta?, da cineasta Anna Muylaert, procura observar a relação entre patrões e empregados e, por extensão, cria um debate amplo sobre um Brasil segregado, desigual, absurdo, isso não é propriamente uma novidade para o cinema brasileiro — basta ver, por exemplo, O som ao Redor e os documentários de Gabriel Mascaro. Ao contrário, o conteúdo tem se mostrado, até certo ponto, moeda corrente. Mas a questão central aqui é como foi construída essa relação no filme de Muylaert.

Do começo ao fim, a intenção de Que horas ela volta? é mostrar-se crítico à “família burguesa” que mora em um casarão no Morumbi, composta pelo pai, mãe e o filho. Desse modo, os elementos que o filme trabalha para caracterizar, ao longo de sua narrativa, ficam pouco a pouco evidentes. Carlos, um tipo meia idade, deprimido, não trabalha, pintou quadros quando era mais novo, herdou toda fortuna de sua família e vive em estado de ócio zanzando pela casa. A mãe, Bárbara, uma legítima madame, trabalha com moda, muito vaidosa, sem tempo para família e com tempo apenas para si mesma, uma seguidora fiel da ética protestante do trabalho. E o filho, um adolescente carente que está às vésperas de prestar vestibular, mas se preocupa mais em quando irá perder a virgindade. Por mais que morem juntos, cada qual tem uma vida bastante independente; uma família afastada de si mesma. Na hora do jantar, por exemplo, o único espaço da casa em que se encontram – e quiçá possibilitaria um momento de intimidade – esta oportunidade é frustrada pela companhia dos celulares utilizados por cada um.

Mas a virtude do filme não está na grande narrativa que costura a história contada — o começo, o meio e o fim do enredo –, ou na denúncia da “crise” da família rica. Que horas ela volta finca sua criatividade nas cenas mais despretensiosas, no navio das sutilezas, no mergulho das relações sociais invisíveis mas profundamente poderosas na relação entre patrões e criados no Brasil. A dependência dos patrões e da empregada – ia dizer, do senhor e da escrava –, fica explícita na cena em que ela abre a lata de refrigerante, despeja em um copo e, por fim, serve-lhe até a mão. Pois é nessas “insignificâncias” que, em um primeiro momento, a cineasta consegue mostrar de maneira satisfatória a luta de classes no ambiente doméstico. A recepção calorosa da patroa ao receber o presente (de que “não gosta”, mas faz que “gosta”) de Val; a desatenção constante ao ouvir a empregada e, principalmente, a aceitação (que tem muito de patriarcal) de que Jéssica, filha de Val, permaneça alguns dias na casa para que consiga prestar vestibular. A permissão é feita porque Val, a empregada, “é praticamente da família”. A simpatia e cordialidade da patroa não diminui a luta de classes; antes, intensifica-a. Parafraseando um velho barbudo do século XIX, se a aparência e essência coincidissem, a arte (engajada) seria desnecessária.

Arte engajada” com os dramas sociais do país? Bem, talvez seja exagerado caracterizar assim Que horas ela volta?. Não obstante, o filme demonstra essa meta, essa vontade, esse sentimento; apresenta-se na linhagem de “denúncia”, da tentativa de desvelar a intolerância da elite com os desvalidos. Por exemplo, quando Fabinho comenta com Val sua impressão sobre Jéssica — “estranha, porque segura demais” — há uma verdade mais profunda nessa confissão. Em seu “estado natural”, uma pessoa nordestina, sem recursos e com um nível de instrução escolar defasado, de origem social pobre, que irá prestar vestibular em uma das universidades mais concorridas e de mais prestígio do país, deveria estar, no mínimo, aflita e insegura. Mais cenas, especialmente na apresentação de Jéssica à família, coroam essa sinuosidade da aparência e essência, dos preconceitos não pronunciados aos criados, dos rituais sociais de recebimento da chegada da “estrangeira”.

Mas até onde vai esse empenho em desvendar o socialmente perverso de nosso patrimônio escravocrata, senhorial, arcaico, em Que horas ela volta?

Com a chegada de Jéssica, filha de Val (lembrando, bem de longe, a chegada do estranho na casa da família do industrial em Teorema, de Pasolini), as relações invisíveis tornam-se claras. O jogo da aparência e essência fica diluído — ambas coincidem indevidamente (ou apressadamente). Todo o protocolo social burguês de hipocrisia da classe se esvai, como um frágil papel levado por uma rajada de vento. Há uma relação de paixão por parte de Paulo, dirigida a Jéssica: “forçada”, a bem da verdade, apenas para mostrar sua carência (a decadência do “homem burguês”). Embora seja interessante apresentá-la, poderia ser trabalhada de outra maneira, nos subterrâneos das entrelinhas. O exemplo mais crível dessa mutação ocorre com Bárbara, que se transforma em uma “mulher má”, típica vilã, sem disfarces, a sobrancelha curvada, transtornada pela invasão da forasteira.

Francamente, em vários momentos parece o novelão tradicional e tosco da Globo, que retrata personagens com auxílio de estereótipos sociais, consagrados por meio da indústria cultural – o remédio mortal para que o público fique atento, embora passivo, aos desdobramentos do filme.

Porém, Quer horas ela volta incorre num problema comum do cinema brasileiro. Não é capaz de a retratar os burgueses e suas idiossincrasias senão por meio de caricaturas — na maior parte das vezes de quinta categoria. Recusa-se a examinar as relações sociais e psicológicas de forma a apontar contradições no terreno da lutas de classes, nas dimensões da cultura, da economia, do político e do simbólico. Claro que há exceções (um exemplo atual é o filme Obra, de Gregório Graziosi, que cria, por meio do profundo diálogo com a arquitetura da cidade de São Paulo, uma trama silenciosa, impactante, kafkaniana, através de seu protagonista – um arquiteto e proprietário. Este entra em profunda crise depois de descobrir uma ossada encontrada na obra que dirige e da qual é proprietário). A burguesia é sempre mais hipócrita com seus empregados do que se imagina.

Por falar em caricatura, vamos a Val, a personagem interpretada pela irreverente Regina Casé. Alguns críticos disseram que a larga experiência antropológica de Casé com os subalternos (principalmente no seu programa na TV aberta da Globo) forneceu subsídios fundamentais para atuar com “maestria e precisão” (alguns dizem de “cenas antológicas”) no papel de uma empregada doméstica. Que se trata de uma atriz interessante e com potencial, é inegável. No entanto, é uma atuação “demagógica” do pobre. Está entre a caricatura e o exótico. Entre o superficial e o comercial. É uma personagem “leve” demais para uma vida tão dura. Val é popular? Ou populista? De fato, a personagem é sedutora porque faz principalmente o público rir; o humor é um recurso interessante, mas apenas até certo ponto.

Aliás, não deixa de ser curioso, para não dizer patético, como cada gesto e pronúncia da personagem (com o sotaque “nordestino”) provoca risos estrondosos na plateia paulistana, mesmo em cenas consideradas “sérias”. Risos, em grande medida, desnecessários. É como se a Casa Grande (uma parte do público) estivesse vendo os bastidores da Senzala com suas peripécias e costumes extravagantes (e intragáveis), mas altamente risíveis. Aí, sim, estamos começando a discutir o profundo parentesco das classes possuidoras brasileiras da atualidade com o fantasma da escravidão, que se “abrem” para alterações da ordem, desde que as condições e os efeitos de tais processos estejam sob controle, como anunciava há quarenta anos o sociólogo Florestan Fernandes no seu seminal A revolução burguesa no Brasil. O atraso escravocrata de nossas elites é o alimento do Brasil moderno do século XXI.

Provavelmente, os mesmos que riem de maneira excessiva comovem-se ao final do filme, com uma suposta “redenção” da personagem que pede demissão para cuidar da filha e da neta (de fato, a demissão de Val permite enxergarmos o quanto a relação entre criada e patroa era esvaziada). Mas muito cuidado: quando os opressores batem palma ao final do “espetáculo” (o filme procura o espetáculo, no sentido debordiano, mas não interlocutores críticos) não é sinal de uma arte engajada, mas de uma arte inofensiva.

Dessa maneira, não conseguimos visualizar – e se visualizamos, é com uma neblina forte e perigosa – nem a densidade social e psicológica da empregada, nem dos patrões. Na realidade, o filme somente tem êxito por meio de alguns lampejos férteis. Não passam disso: lampejos. É possível que alguém desenvolva a seguinte questão: a exibição do filme, em tempos de crise politica indicaria que o lulismo não conseguiu extirpar a relação secular entre patrões e empregados. Pode ser uma hipótese crível apenas sob uma análise sociológica estrita do conteúdo da obra. Contudo, com a dialética da forma e conteúdo na luta de classes, Que horas ela volta aponta para uma saída pelo avesso da radicalidade que uma relação historicamente conflitiva entre opressores e oprimidos em sociedades semiperiféricas necessita.

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34 comentários para "Polêmica: a arte inofensiva de Que horas ela volta"

  1. Lendo essa crítica e a outra também postada aqui nos outras palavras, parece que o tema principal do fime é a relação patrão e empregada. Essa relação é sem dúvida é muito importante na narrativa, mas acho que não se pode perder de vista que o filme fala da relação de mães e filhos. E nisso o filme é sútil. A tentação é de fato tomar a patroa como uma vilã, mas me pergunto se isso é falha do filme ou do nosso olhar que tende a polarizar os personagens? Para mim ficou muito claro que cada mãe a sua maneira teve dificuldades de estabelecer relações com seus filhos. Inclusive a filha de Val que também deixa seu filho em Pernambuco para poder estudar. E para mim, outra virtude do filme é colocar as mulheres no centro da narrativa. Coisa que não vemos sempre.
    Também não vejo porque todo filme que retrate a sociedade patriarcal brasileira precise ser comparado a “O som ao redor”. Embora o último tenha abordado o tema, não significa que o tenha esgotado.
    Não sou crítica de cinema, apenas espectadora. E acho que os méritos de “Que horas ela volta” merecem ser destacados.

  2. Agni Berti disse:

    Não concordo com esta crítica. Na minha opinião a força da denúncia do filme está justamente na sutileza extrema. Cito em especial a cena em que Val usa uma camiseta meio surrada do Houston Texans ao mesmo tempo em que o Fabinho usa uma camiseta bem mais nova do Cleveland Browns, dois times de futebol americano, que claramente revela o gosto do rapaz, mas que quando fica velha demais é boa o suficiente pra dar para a empregada, e nova é a roupa de ir prestar vestibular, um momento importante. Ou seja, é aí nessa suposta bondade naturalizada que reside toda a perversão e é onde a alienação mais ganha força.
    Ao contrário de você, eu acho que é justamente o clima ameno que dá força para a luta de classes, pois acredito que este nada mais é do que um clima cotidiano, em que Val sabe muito bem qual é seu papel e seu lugar, é a alienação que mantém a ordem vigente e a pessoa alienada não deixa essa condição “do nada”. Ao contrário, mesmo constantemente confrontada pela filha, Val ainda resiste em enxergar os patrões como ótimas pessoas.
    Psicologicamente também acho o filme muito rico. Barbara se vê extremamente ameaçada por Jessica, ela morre de medo de perder o controle do castelo e não suporta sequer ver a adolescente nadar na piscina. O encanto que Jessica causa nos homens da casa é muito ameaçador da ordem vigente e põe em cheque o status de Barbara, imagina se ela aceita o pedido de casamento?
    A demissão de Val “por mim mesma” é um prato cheio para se falar de inconsciente, quando ela finalmente se sente incomodada apesar de não conseguir nomear.
    Por fim, acho que é um ponto importante a relação parental, as três personagens apresentam questões em relação aos filhos e isso pra mim invalida o argumento de novelão da globo, pois dá duas faces para todas. Quando Bárbara pergunta por que Val pode abraçar Fabinho e ela não, por exemplo.
    Enfim, resumindo, acho que o que espanta neste filme é o excesso de naturalidade, pois coincide muito mais com um cotidiano real do que, de repente, uma Val super consciente de sua condição ou uma família super culpada por manter essas relações senhorais.

  3. Kaike Wrechiski disse:

    É muito interessante o fato de um pós-graduado em Sociologia ter uma visão tão rasa acerca de um filme tão crítico e sensível quanto “Que Horas ela Volta?”. Mais interessante ainda é o Outras Palavras dar espaço a um sociólogo que está fora do seu domínio de discussão para fazer arguições sobre cinema. Uma pena. Um veículo de alta penetração como o Outras Palavras poderia nos oferecer mais análises feitas por críticos com fundamentações concretas do audiovisual e menos textos pseudo-sociológicos, prolixos e sem embasamento teórico algum da linguagem fílmica.
    Mas se alguém se der o trabalho de ler este comentário, gostaria de dizer que o texto acima não é somente raso, como também carrega preconceitos velados em seu discurso. O texto diz: “Francamente, em vários momentos parece o novelão tradicional e tosco da Globo, que retrata personagens com auxílio de estereótipos sociais, consagrados por meio da indústria cultural”. Primeiro tenho que dizer que em nada o filme lembra as telenovelas. Linguagem, narrativa, estética. Nada. Também é importante afirmar que não é demérito algum uma obra se influenciar da linguagem televisiva. É imprescindível, também, lembrar que da televisão podem surgir obras audiovisuais extremamente tocantes, poéticas e autorais. Até mesmo da novela. Muito provavelmente você não conhece “Capitú”, “Hoje é dia de Maria?”, “Meu Pedacinho de Chão”, “A Vida da Gente”, “Sete Vidas” e tantas outras produções que bebem da fonte do folhetim clássico e são incríveis.
    Agora vamos à análise em si. O texto e o seu autor acreditam que o filme trata de desigualdades sociais. Errado. Tanto do ponto de vista do roteiro quanto de uma perspectiva mais ampla da obra, é um filme sobre relações humanas modernas, novos retratos das famílias brasileiras, e, principalmente, sobre a Cordialidade (Acho que você deve conhecer a tese de Sérgio Buarque de Holanda em “Raízes do Brasil”, afinal você é Sociólogo).
    A crítica ainda afirma que o filme “demonstra essa meta, essa vontade, esse sentimento; apresenta-se na linhagem de “denúncia”. Balela. Em nenhum momento a narrativa, sob nenhum aspecto, se demonstra denunciativa. Pelo contrário, é um filme de sutilezas, detalhes, pormenores e críticas sutis aos preconceitos ainda vigentes na pós-modernidade.
    Outro indelicadeza do texto é afirmar que o filme é caricato, haja vista que as atuações do longa são extremamente verossímeis e concretas. Sem contar que a personagem Bárbara não é uma vilã, como acredita esta publicação. Alguém que tenha mínima noção de roteiro ou cinema nunca afirmaria isto. Para que fique claro, vilã é uma persona, um tipo que é má e maniqueísta por natureza, tal como a personagem mexicana Paola Bracho. Pelo contrário, Bárbara é multifacetada e não se enquadra neste tipo social, até porque é uma personagem ampla demais para ser categorizada.
    Por fim, leia Arlindo Machado, Balogh e Renata Pallottini. Tenho certeza que será de muita valia para você se despir de preconceitos e escrever textos mais profundos. Ou leia o texto do seu próprio colega: http://outraspalavras.net/posts/a-empregada-no-centro-de-uma-sociedade-cindida/

    • Paola Bracho disse:

      Mano, “O texto e o seu autor acreditam que o filme trata de desigualdades sociais. Errado. Tanto do ponto de vista do roteiro quanto de uma perspectiva mais ampla da obra, é um filme sobre relações humanas modernas, novos retratos das famílias brasileiras, e, principalmente, sobre a Cordialidade”. Falar do que você listou aqui não implica deixar de falar de desigualdade, pelo contrário, como você pode falar de cordialidade sem falar de desigualdade social? Tem certeza de que leu o livro? Manera a tua arrogância e melhora tuas referências. Vai querer dar carteirada lendo Arlindo Machado? Não cabe aqui discutir gosto estético, se tu gosta de minissérie do L.F. Carvalho, o problema é teu, agora querer falar do filme sem entrar nele, só lançando adjetivos e nomes não rola. Ps.: Apesar de concordar em parte com a crítica publicada pelo OP, nem achei ela lá essas coisas, podia ter aprofundado mais. Comentei mesmo pq a arrogância desse sujeito aqui me irritou. Beijocas!

      • Kaike Wrechiski disse:

        Olá, anô[email protected]
        Não era meu objetivo que o texto parecesse pedante. Meu comentário, na realidade, foi reflexo do meu incômodo com o texto prolixo do crítico. Que ironia isso.
        Bem, sobre a desigualdade que você comentou, reafirmo, o filme não é sobre desigualdade. Ao assistir o filme, a desigualdade social paira no imaginário de alguns como elemento simbólico e secundário, porque o conhecimento de mundo lhes permite afirmar isso. Isto é, um espectador sem senso crítico ou repertório muito apurado pode muito bem ver o filme e compreender que a obra somente narra a vida de uma doméstica, sem que necessariamente reflita sobre desigualdade social. Meu ponto principal é: tudo depende do referencial. Porém, em termos de roteiro, de narrativa, não é um filme sobre desigualdade social, porque o central são as relações familiares/sociais. A desigualdade entra em segundo plano, de forma subjetiva, pois antes dessa categorização pessoal há outros elementos mais objetivos e evidentes no filme. “Capitães da Areia”, por exemplo, trata muito mais de desigualdade social do que o filme em questão.
        Normalmente as sinopses dos filmes tentam ao máximo sintetizar a alma do filme. Leia a de “Que Horas Ela Volta?”: “A pernambucana Val se mudou para São Paulo a fim de dar melhores condições de vida para sua filha Jéssica. Com muito receio, ela deixou a menina no interior de Pernambuco para ser babá de Fabinho, morando integralmente na casa de seus patrões. Treze anos depois, quando o menino vai prestar vestibular, Jéssica lhe telefona, pedindo ajuda para ir à São Paulo, no intuito de prestar a mesma prova. Os chefes de Val recebem a menina de braços abertos, só que quando ela deixa de seguir certo protocolo, circulando livremente, como não deveria, a situação se complica”.
        Ou seja, a sinopse resume a trajetória de vida Val e comenta como a chegada de sua filha em São Paulo subverte algumas de suas crenças (tal qual a que ela acredita que deve ser submissa), mas não a desigualdade em si.
        Sobre a Cordialidade, não, eu não li o livro do Holanda. Mas isso não quer dizer necessariamente que eu não conheça sua teoria. Eu a estudei por meio da tese de mestrado sobre Cordialidade e Benjamin de meu professor, da mesma forma que você pode conhecer Marx através de outros textos. Desigualdade está intimamente relacionado à Cordialidade sim, mas, novamente, essas inferências só se concretizam a partir do imaginário de cada indivíduo.
        Sobre as minhas referências do audiovisuais, não vejo porque melhorá-las. Listei textos acessíveis e de leitura compreensível para quem não é necessariamente da área. Aceito sempre sugestões e sempre tento me atualizar para enxergar outros pontos de vista. Aí lhe devolvo a pergunta: você já leu Arlindo Machado para dizer que preciso melhorar minhas referências?
        E sobre seu comentário dizendo que aqui não cabe discussão sobre estética, discordo. Ao pensarmos em arte, estética é imprescindível. Não existe debate sobre arte sem falarmos de estética, porque uma está intrinsecamente imbricada a outra. E fazer uma crítica sobre esse filme em especial, que tem uma estética tão pulsante quanto os diálogos (tais como os planos extremamente sensíveis de Val na cozinha subjetivando a visão da empregada, as quebras de eixo durante as conversas representando as quebras sociais que Jéssica traz para a casa) o deixa muito pobre. É como um pensador discutir sociologia sem trazer para a cena do debate a sociedade. Por isso defendi que é necessário uma formação audiovisual para essa crítica. Não vemos cineastas escrevendo críticas sobre política sem ter o embasamento necessário, não é? Não estou falando em cerceamento, mas sim em enriquecer e legitimar a análise fílmica.
        P.S: Só citei a obra de Luiz Fernando Carvalho porque o autor se mostrou preconceituoso com obras televisivas. Evidenciei, apenas, que o seu comentário era raso e necessitava de maior profundidade, porque a academia em geral inferioriza a televisão sem sequer dissecá-la com o método e respeito que merece, em boa parte das vezes.
        Aguardo sua resposta!

        • MATEUS AUGUSTO SILVA disse:

          Como é bom ler alguém que sabe responder com classe, sutileza e embasamento teórico comentários de “portal de notícias” e “feice”. Parabéns. Concordo com o que disse. Achei rasa demais a crítica e caricata demais também. Essa galera “parto humanizado, opressor e oprimido, luta de classes” precisa deixar a arrogância de lado e saber seus limites. Como você mesmo disse, para analisar um obra cinematográfica é preciso um mínimo de conhecimento sobre o tema. Mas vale a reflexão, ainda que enviesada e caricata, do ponto de vista sociológico.

    • Bruno disse:

      Maravilhosa resposta. Traduziu tudo que senti dessa que foi uma das críticas mais preconceituosas e pedantes que já li, e não deste filme em específico, mas de TODAS mesmo que já li.
      Crítica preconceituosa, academicista, rasa e certamente vindo de um círculo de discussão que tem o “povo” como objeto teórico, não empírico.
      Gostaria de saber se a mãe do crítico vem dessa realidade de doméstica interpretada pela “irrelevante” Regina Casé (que eu também errôneamente desconhecia e desconsiderava).
      Se ele responder que sua mãe também foi doméstica e que ao levá-la às salas de cinema ela desmentiu todo o filme, aí reconsiderarei a crítica. Caso contrário me recuso a continuar lendo crítica acadêmica (e arrogante, por sinal) de uma obra de arte. Aqui não é o espaço, e essa crítica não está pegando nada bem.

    • Flor disse:

      Parece que o teu problema são com os sociólogos… Criticar um texto tudo bem. Mas arrogância e ironia fora de hora e lugar elimina a crítica e a deixa arrogante e menor.

    • Stuart Hall disse:

      Que piada! Começa o texto dizendo que o sujeito não tem embasamento nenhum de linguagem fílmica, mas não contribui em nada nesse aspecto. “Para que fique claro, vilã é uma persona, um tipo que é má e maniqueísta por natureza”. Super profunda essa definição, hein, usarei como epigrafe qualquer dia. Depois vem cagar regra de que leu Arlindo Machado, como se estivesse falando dos escritos perdidos de Nietzsche em alemão, e por fim ainda admite que falou de cordialidade, mas o conhecimento do assunto vem da dissertação do orientador. Filho, cresce e aparece! Leu meia duzia de livrinhos na faculdade e já tá se achando? A analise do colega aí em cima tem diversos problemas, mas você, como aluninho de comunicação, querendo dar um passo maior que as pernas, só demonstrou a fragilidade da sua formação teórica.

      • Kaike disse:

        Anô[email protected],
        Um texto é sempre metade de quem lê e metade de quem o escreve. A mensagem é uma via de mão dupla, mas infelizmente você leu os trechos que lhe convieram e os interpretou de maneira bem unilateral.
        Mais infeliz ainda é a atitude de tentar inferiorizar o conhecimento alheio sem conhecer a trajetória do outro. Academicismo retrógrado, pra não dizer estúpido. David Bordwell e o cinema são tão bons quanto Arlindo Machado e a telenovela, [email protected] Sinceramente, acho incrível o fato de alguém conhecer Sérgio Buarque de Holanda por meio de uma literatura terceira, e essa é a graça da construção do conhecimento, afinal. O saber se tece através do conteúdo e da força da palavra, e não pelo nome deste ou aquele autor. Conhecimento não se mensura, [email protected] Fico com pena de você e de seu posicionamento pequeno e categórico, mas por outro, feliz em saber que outras pessoas entenderam meu posicionamento e se manifestaram positivamente.
        Por fim, resta só uma dúvida: há razão para tanta agressividade e ódio? Não existe mais debate sem respeito ao próximo? Enfim, mesmo que fosse somente um “aluninho”, no diminutivozinho irônico mesmo, ainda sim teria orgulho de minha formação teórica. Ao menos não me escondi atrás do anonimato.
        Mais equilíbrio, [email protected]!

  4. Fiz uma crítica aqui no comentário e foi apagado. Qual o sentido?

  5. Suenya Santos da Cruz disse:

    Ainda não vi o filme. Mas para um filme entrar no grande circuito, já denota que possivelmente não se trata de uma “arte engajada”. Acho o debate sempre bastante salutar, e respeito as críticas que o autor do artigo teceu. Por outro lado, me pego pensando se na conjuntura atual as questões que o filme levanta não contribuem para uma reflexão crítica. Se isso vai revolucionar as relações ou não, pouco importa. A arte deve tocar e chamar para a reflexão. Na bojo da barbárie em que vivemos penso que qualquer “lampejo” que jogue luz nas contradições sociais devem ser enaltecidos, congratulados, ainda mais vindo de uma diretora. Isso mesmo, uma mulher nessa seara de machos do cinema.
    Vamos tomar cuidado para não enfraquecermos as forças de esquerda com avaliações impiedosas. Devemos ser impiedosos com nosso verdadeiros inimigos.

  6. Concordo com Larissa. Assistindo o filme num cinema de bairro de classe média, senti as risadas da platéia como uma certa reação típica de hipocrisia condescendente, paternalista mesmo. Doloroso, atual.

  7. Ravena Maia disse:

    Gostei desta critica em diversos aspectos, no entanto vejo como problemática sua abordagem sobre a personagem de Val. Ela é apenas uma das personagens pobres que são retratadas no filme e acho que os trejeitos, sotaques e gestos que se apresentam como “caricatas” e “folclóricas” de uma classe são apenas uma construção individual deste personagem. Jéssica é igualmente pobre, igualmente nordestina e não há esta mesma caricatura, pelo contrário,o próprio encontro das duas personagens revela esta estranheza entre estilos e gerações. Vejo as expressões gestuais, a espontaneidade da oralidade uma das preciosidades do brasileiro, que consigo ver no nordeste e que infelizmente é vista como exotismo, caricatura por muitos, ou mesmo a “nova” geração, a que expressa a “mudança”, almeje o silenciamento dos corpos contidos, polidos e recatados, assim como a família de elite retratada no filme expressa bem. E exatamente por isso que, em cada pláteia de diversos lugares do Brasil, este “riso” do espectador não se encontre nas mesmas cenas que atingiram o público paulistano. Mesmo destacando este ponto, não acho que o filme tenha se resolvido de forma brilhante, não é uma obra-prima, mas me contentei com ela. A grande crítica que faço em relação ao filme, e que acho que ocorre na maioria dos filmes nacionais é a vontade de destacar tudo em um único filme, e desta forma nunca consegue falar de maneira aprofundada sobre nada. A vontade de “mostrar” todas as tramas com a mesma importância (realidade da casa/trabalho, a relação filha/mãe, a relação empregada/filho, a relação jéssica/patroes, etc) acaba deixando falhas em todos estes aspectos, então sempre será um filme que falta em alguma destas partes.

  8. katiusca disse:

    Para mim o filme valeu muito pela exposição justamente da espuma dos conflitos de classe e esta superficialidade é mais profunda que se pensa pelo olhar feminino. Ela revela as entranhas de um padecimento secular das mulheres que abandonaram os seus filhos e a sua familia em busca de melhor vida e se emergem numa outra escravidão reveladas por códigos do que pode e do que não pode, apesar de ser “como alguem da familia”.,Por sobrevivencia, e carencia vai doar a sua maternidade ao filho dos seus opressores .isto para mim foi a grande qustão dentro desta relação de classes antagonicas .

  9. Murilo Morais disse:

    Realmente, politicamente falando o filme é raso em crítica. Qualquer um que assista dirá que a Bárbara é “do mal”.
    Quando saí do cinema fiquei com a sensação de que os personagens foram extremamente estereotipados(com ressalvas) pra que as ações peculiares deles (comparar a Jéssica com um rato; falar em inglês na frente da empregada; etc) pudessem atingir o público e fazer com eles se vissem fazendo o mesmo. Talvez tivesse sido mais interessante fazer o contrário.
    No entanto, as cenas de Jéssica foram muito bem executadas, e quando Bárbara interage com ela o incomodo sútil é muito mais preciso do que quando a patroa explicitamente mostra o desconforto de senhora que vê a escrava feliz.
    Isso ao meu ver, cinematograficamente falando, foi o maior pecado do filme, o personagem da Bárbara é muito caricato. E da raiva ver o potencial que ela poderia desenvolver ser usado de uma forma novelesca já saturada.
    Agora, politicamente falando, o ponto do filme deveria ter sido exatamente o Incomodo velado da patroa. Como se o preconceito e a escravidão tivessem terminado no papel, mas só no papel. O filme tangência esse assunto mas não o leva adiante.
    Isso a parte, Barbara Alvarez, diretora de fotografia, faz um trabalho lindo com as tonalidades, silhuetas e o uso de cores.
    O filme é bem fotografado e bem dirigido. Gosto de como a maternidade é abordada e das consequências das relações pais e filhos, acho que o final é tão tocante como foi justamente por causa dessa questão.
    Regina Casé realmente estava boa no filme, mas novamente, ela brilha mesmo é na sutiliza da personagem, como quando ela reclama que devolvam a forma de gelo sem água, mas saí da cozinha para por guaraná no copo do patrão. Fui criado numa casa de nordestinos e ví similaridades nos jeitos dela e da minha vó.
    Concordo com o autor do texto na questão do sotaque. Ví o filme num Cinema no centro de São Paulo, e durante a sessão tinha um cara que comentava as cenas num nordestinês forçado que culminou em um certo momento em ele chamar a Bárbara de “rapariga” no meio do filme. Não quero entrar na questão de apropriação cultural, até mesmo pq não sei quem o cara era, mas não curti.
    Como estudante de cinema digo que o filme é ótimo; Como cidadão digo que o filme regular; Como os dois são a mesma pessoa achei o filme bom.

  10. Elaine disse:

    É exatamente isso Larissa, vc está correta nas sua reflexões, não dá pra reduzir o filme apenas na relação entre empregada e patroa. O filme aborda fortemente o lado conflituoso dessas três mães. A escolha pela atriz Regina Case, não foi a toa. Ela queria sim dar pitadas de comédia. A intenção dela foi justamente abordar de forma leve os temas de assédio, relação de poder e submissão, a omissão na maternidade, as mães que precisam sair de casa, cada uma por seus motivos, e deixar seus filhos para serem cuidados por outras pessoas, e isso as três fazem no filme. Enfim, reduzir o filme a “lampejos férteis ” acredito que deveria ver o filme mais de uma vez, e de preferência junto a um bate papo logo depois da sessão como eu participei, pra ampliar as reflexões.
    .

  11. Rodrigo disse:

    Que alívio ler uma crítica a esse filme nesse tom. Saí do cinema intrigado com todas as questões expostas aqui. No final das contas achei um filme perigoso, fugidio. Incluiria nisso a questão do vestibular, da FAU, da USP. O filme quase levanta uma bandeira meritocrática. A menina pobre, nordestina, mãe adolescente, filha de empregada doméstica passa na FAU (o filme não conclui isso, mas sugere que a Jéssica será arquiteta formada pela FAU). Isso é uma mentira. Esse tipo de perfil na USP continua sendo a exceção da exceção, ainda mais em cursos como Arquitetura. Esse tema é naturalizado pelo filme. É como se construísse uma fórmula rasteira de que as mudanças políticas e sociais do país permitiram que o acesso a Universidade fosse um pouco mais democrático. Vai passar na FAU quem se esforçar mais, sendo você rico, pobre, morador do Morumbi, ou de Caruaru. Não, não é assim.

  12. Simone do Prado disse:

    Assim como o Rodrigo, saí intrigada, na verdade incomodada mesmo – tanto com o filme como com frenesi com que foi recebido. Se o filme tem algum valor, por conta da problemática que aborda, a o texto de Rubbo soube apontar isso bem. No entanto, a crítica não consegue sair da aparência ao abordar a questão sob uma forma absolutamente conservadora. Se a novela tratar da luta de classes então tudo bem? – me pergunto. Pois que a narrativa do filme em nada difere das produções globo – somos conduzidos a percorrer a trama adotando o ponto de vista da protagonista. Nos identificamos com ela, sofremos suas dores e rimos com ela – ou dela? o riso pode ser absolutamente transgressor, mas quando rimos do oprimido temos aí um claro efeito conservador sendo produzido. E, ao final, saímos todos aliviados do cinema após um belo happy end com direito à pedagogia moral. Assim, se o filme possui sutilezas interessantes, penso que sua potência é neutralizada pela adoção de uma forma dramática decadente e conservadora. Resumindo-se, como diz o título do texto, em uma arte inofensiva – que pretende déranger mas consegue apenas énchanter les bourgois.

  13. Pedro Braga disse:

    Caro Sr, Deni Rubbo,
    Que o senhor prefira um cinema “complexo”, “de arte”, que só consiga dialogar com seus pares acadêmicos, eu respeito muito. Mas veja: o que estamos aqui chamando de “ofensivo” (no sentido de arte de guerrilha)? Um filme que apenas acadêmicos tem acesso simbólico? Um filme que afaste as pessoas a ponto delas não entenderem do que se trata?
    Sou artista, mas venho de família pobre. Família essa que 50% não entenderia o filme “Que horas ela volta?”, acharia difícil, não compreenderia metade da crítica feita nele, e não por ineficácia do filme, mas por falta de repertório mesmo. Isto para dizer que já considero este filme suficientemente profundo em sua forma-conteúdo para a sociedade que nós temos hoje.
    Já vi muitas peças e filmes que você provavelmente iria adorar, que eu particularmente gostei muito, mas ao qual poucas pessoas tiveram acesso (e não estou falando só de divulgação e dinheiro, mas de acesso simbólico mesmo).
    Qual o papel da Arte? “Ineficaz”, palavra que prefiro à sua “inofensiva”, se basta apenas no plano da forma-conteúdo? Não se refere também a capacidade de tocar as pessoas que não entendem nada de Marx, nunca ouviram falar de luta de classes (mas a sentem na pele em cenas como as do filme)? Não se refere a tentar fazer uma ponte entre a profundidade teórica complexa a que a academia chegou e o povo?
    E ainda: você dá a entender que a forma-conteúdo do filme é ingênua e eu entendo o seu argumento, e até posso concordar com ele. Mas assim como prefiro falar em ineficácia à inofensibilidade (que discordo), também prefiro falar em otimismo ao invés de ingenuidade. Otimismo de que a esquerda e o povo necessitam para sobreviver a tempos de tanto obscurantismo da informação.

    • BrunO disse:

      Fico muito feliz de ver opiniões como a sua e como outra colega de cima, que perceberam o academicismo arrogante, que acredita que o bom é aquilo que sua comunidade intelectual acena positivamente.
      Venho da mesma situação que você. E acho patético nossa classe intelectual levantar tão pedantemente (embora com certa inocência) uma bandeira crítica que faz só aumentar a opressão cultural.
      Volto a questionar: será que os pais do crítico vêm dessa realidade? O que eu vi foram pessoas se identificando com o filme de forma tocante e emocionada.
      Não foi só essa “burguesia”. Foi gente pobre que viveu tudo isso, não pelo livro do Sergio Buarque ou frequentando as aulas de sociologia da fflch. E a arte ali cumpriu seu papel. Elas de fato não sairão das salas quebrando seus grilhões, não vão mesmo, mas vão pensando no que poderiam ter sido ou vivido se a vida tivesse sido diferente. E isso pros nossos tempos já é muito.
      Este filme fez o que talvez dezenas de teses e dissertações jamais poderão fazer. E é aí que ele deve ser avaliado, não pela régua da academia.
      Em tempos, venho da USP, convivo com parte dessa mentalidade cotidianamente, e lamento sempre e muito profundamente quando vejo que nada muda no front…

    • Kaike Wrechiski disse:

      Foi isso que eu quis dizer, com outras palavras, e alguns acharam arrogante. Boa, Pedro!

  14. Diene disse:

    O excesso de aspas escorre a raiva e transparece o tom de ironia como ponto de partida e base da crítica. Particularmente acho pouco produtiva essa posição de início. Minha impressão é que há a constante destituição dos méritos do filme a partir de uma referência (esperada) a qual o próprio filme e direção não se incumbem.

  15. Kécia Galvão disse:

    Após ver o filme e ler a crítica cheguei à seguinte conclusão sobre o escritor desta: parece-me que não conhece o Nordeste ou o povo nordestino a fundo.
    O que foi visto no filme retrata com maestria algumas verdades que vi como nordestina, sejam os patrões, sejam os nordestinos. Para alguns “desacostumados”, Val parece uma figura caricata, assim como Jéssica, mas eu vejo como nordestinas puras.
    Talvez ao escritor fosse interessante fazer um estágio nos pequenos distritos rurais do meu lindo nordeste para saber que o filme tem mais do que lampejos férteis, que o Morumbi é um exemplo de tantos outros bairros nobres do Brasil, que o foco maior do filme não eram os patrões e sim toda a história da Val.

    • Andreia disse:

      Perfeito seu comentário Kécia. Sou filha de migrantes baianos que vieram pra São Paulo nos anos 70. Cresci rodeada dessas histórias dos parentes que deixaram os filhos ou pais no nordeste e sofriam angustiados com a distância dos entes queridos, e a opressão do trabalho precário. Eu e meu irmãos somos “Jéssicas”, graças a sacrificio de nossos pais ” Val´s” ,ocupamos o lugar tradicionalmente destinado pelas elites, todos possuem ensino superior em universidades publicas. Nossas vivências são desconhecidas ou ocultados a toda instante, o autor é ofensivo quando fala em “caricatura” , aposto todas as fichas que este nunca conviveu com um nordestino. No filme vi claramente no protagonismo tudo que se nega no palco principal do cinema, isso deve causar um estranhamento num burguês paulistano que nos vê como objeto de estudo.

  16. Excelente análise, concordo totalmente.

  17. Camila Medeiros disse:

    Caro Deni: o dia que um acadêmico conseguir produzir e levar às telas do nosso Brasil um filme de ficção que emocione, faça rir e refletir, começarei a respeitar críticas como a sua. No mais, considero extremamente desrespeitosa, arrogante e ofensiva sua narrativa e observações acerca do filme de Anna Muylaert. E por que o uso de expressões tão complexas? Fale para ser compreendido por todos, rapaz, não apenas pelo seu grupo. Não se diferencie, agregue, trabalhe em equipe, faça mais “arte inofensiva”. Um conselho? Permita-se um pouquinho de felicidade despretensiosa. Assistir novela e dançar axé dão a a maior onda, pode acreditar. Tanto quanto ler Guimarães Rosa. Você, como sociólogo, deveria sair do pedestal, deixar de lado tanto julgamento e compreender o que faz o coração do seu povo bater… Um abraço, Camila.

  18. C. Terra disse:

    É interessante como o autor da critica não chega a tocar em aspectos mais sutis e fica boiando em obviedades tendenciosas por exemplo: É uma obra femina. Homens são coadjuvantes. Há aspectos estéticos e simbolicos que permeiam a narrativa como a relação com a tipologia arquitetonica da moradia e como a segregação que esses arranjos traduzem é vislumbrada entre pequenas aberturas, mostradas sempre em planos fechados, por detalhes. A fotografia que privilegia contrastes, reflexos, silhuetas, em muitas cenas anulando as diferenças sociais e deixando apenas as pessoas que vivem todas elas a perversidade do sistema. Faltou perceber o visual, faltou estudar o modernismo na arquitetura, faltou ao autor algumas aulas na FAU.

  19. Péssima crítica… quem escreveu, com todo respeito, não está vivendo e conhecendo o Brasil, ou não o conhece realmente. Talvez tenha se identificado com os patrões…

  20. Gabriel Costa disse:

    Que crítica pedante e tendenciosa meu pai, nem parece que assistiu o mesmo filme que o dos demais que comentaram. Parece que não entendeu nada com esse texto cheio de preconceito velado. Uma pena para um sociólogo.

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