Poesia e verdade?

Pode a obra espelhar o autor? Será este um ser monolítico, uma voz monocórdia? A quem interessa negar o humor e sua faculdade dúplice-cúmplice?

Por Airton Páscoa, no blog Citações  | Imagem: Ismael Nery, Nós (1926)

Jamais pensei precisasse dizer isto, mas no-lo intima a recepção de certas pecinhas de nossa lavra… pra não entrar na controvérsia da crítica exclusivamente identitária, danosa a compreensão mais apurada do fazer artístico. Machado deve ser lido apenas como escritor negro? só deve receber atenção por ser poeta mulher Emily Dickinson? e Proust, só cabe apreciá-lo como autor homossexual? Ou por pertencerem os três à constelação das mais brilhantes estrelas da literatura ocidental?

A fantasia, (pra não falar fantasma) que está na origem da literatura e a que humildemente dou voz e vez, ou forma literária, se me é lícito admiti-lo, e que por vezes pode parecer machista, misógina, racista, homofóbica, misantrópica etc., está longe de representar o homem. Aliás, a fim de chegar a ele, partindo do texto literário, há ao menos duas mediações poderosas: o narrador, em caso de prosa, ou o eu lírico, em caso de poesia; no caso nosso, em que domina o poema em prosa, o eu lírico-narrador, por assim dizer, ou borrador. Superada a barreira, surde outra, mais alevantada, o autor, a reunião de traços da(s) personalidade(s) criadora(s), harmoniosa ou contraditória, que caracterizam a dicção do dito cujo, tons e modulações tais que conferem timbre original a sua voz literária.

Quer dizer que tudo que se escreve nada tem que ver com a pessoa? Sim e não. Quem entra pela psique humana, por curiosidade ou por ofício, seja ético, seja estético, sabe que não se trata exatamente de paisagem edênica… E quando falamos em psique humana, estamos falando, com Freud, em psique social, pois, como ensina ele, não há psicologia individual, toda psicologia é necessariamente psicologia social. Eis por que, ao pintá-la, digamos, em minhas pobres porcelanas, comparecem em alta frequência, do bonachão ao malsão, do ácido ao dócil, faces diversas do humor, recurso dos mais preciosos em arte, e apreciáveis, quero crer, pela capacidade que tem de apontar, sem acusar ou escusar, o que confinamos de pior.

Em outras palavras, o humor porta a faculdade, dúplice, cúmplice? de ironizar o que temos de mais antissocial, distanciando-nos dele, e a um tempo compreendê-lo, aproximando-nos do que temos de mais social. O humor humaniza, no fim das contas, e nos comunga a todxs… riamos por dentro ou de dentro.

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