Poesia: A morte se fez um, se fez mil

Em um dia pandemia, 1.179 mortes — uma a cada 73 segundos — em velocidade quase a superar a barreira do som. No Rio de Janeiro, um menino é assassinado pela polícia. Mil disparos nas periferias. Uma marca, um espanto, um horror

Imagem: Junião/Ponte Jornalismo

Mil

A velocidade do som,
Uma onda de pressão;
1.234 quilômetros por hora
A ultrapassarem uma barreira.

Mil!
Um número, uma cifra.
Um estrondo.
Foi além, 1.179.

Uma
A cada 73 segundos;
17.971 desde a primeira,
A velocidade do horror em 63 dias.

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Um
Menino.
Baleado, assassinado,
“os policiais saíram atirando”, escreveu um primo.

Mil!
Só havia crianças
Deitadas no chão e com as mãos para cima.
Mil disparos.

Era um menino, quatorze anos.
Era eu.
Eram tantos.
Eram eu.

Mil!
No mesmo dia, 1.179,
Quase a barreira do som.
Eram nós.

Uma marca, um espanto, um horror.
Um deboche, um descaso, um desprezo.
Um dia em um país em desamparo.
A morte, a destruidora de mundos, se fez um, se fez mil.

(Célio Turino, madrugada de 20 de maio de 2020)

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