Filmes para relembrar os escritores que se foram

Obras de dois mestres da literatura, falecidos recentemente, viraram êxitos e fracassos no cinema. De Rubem Fonseca, foram 17 — nenhuma com sua vitalidade original. Já com Sérgio Sant’anna, um belo diálogo com suas inquietações

Por José Geraldo Couto, no Blog do Cinema

No intervalo de menos de um mês o Brasil perdeu dois de seus maiores escritores, Rubem Fonseca e Sérgio Sant’anna. E o que isso tem a ver com este blog? Muita coisa, uma vez que ambos mantinham uma intensa e fecunda relação de mão dupla com o cinema.

Seja como autor de obra literária adaptada, seja como roteirista – frequentemente como ambas as coisas –, Rubem Fonseca está presente em pelo menos dezessete filmes (de longa e curta metragem) e séries televisivas. A literatura de Sérgio Sant’anna, por sua vez, gerou por enquanto quatro longas-metragens.

Paradoxalmente, apesar da presença maior nas telas, o autor de Feliz ano novo teve até agora menos sorte nessa passagem da escrita para o audiovisual. Nenhum filme conseguiu dialogar de igual para igual com a força e a vivacidade de sua literatura. É difícil explicar por quê, mas podemos arriscar algumas hipóteses, examinando um punhado de casos.

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Herdeiro de Nelson Rodrigues

A trajetória de Rubem Fonseca no cinema é curiosa. Apesar de ter ficado mais conhecido como autor de histórias violentas, que trafegam entre a alta sociedade corrompida e o submundo mais sórdido, os primeiros longas inspirados em sua obra – Lucia McCartney (David Neves, 1971) e Relatório de um homem casado (Flávio Tambellini, 1974) – exploravam outro aspecto da literatura do autor: a crônica moral de costumes.

Lucia McCartney junta dois contos, sem entrelaçá-los: o relato homônimo e “O caso de F. A.”. Ambos tratam da relação de garotas de programa ou prostitutas com seus clientes e/ou amantes. O primeiro, do ponto de vista da mulher (Adriana Prieto); o segundo, do homem (Nelson Dantas) e do amigo (Paulo Vilaça) que o ajuda a resgatar uma jovem prostituta. Neste, surge pela primeira vez nas telas o personagem do advogado-investigador Mandrake, de presença constante na bibliografia de Fonseca – e que daria origem em 2005 a uma série de TV, dirigida, entre outros, por José Henrique Fonseca, filho do escritor.

São como dois curtas-metragens independentes, e trazem por um lado o frescor e a liberdade característicos de David Neves (por exemplo, quando reproduz em preto e branco, com legendas, as cenas que ocorrem no imaginário de Lucia McCartney) e por outro um certo desleixo nas filmagens que, somado à precariedade da produção, deixa uma sensação de amadorismo. A ausência do som direto – isto é, os atores dublavam seus diálogos – é fatal para uma das qualidades da literatura do autor, que é a porosidade para a respiração das ruas e para a fala coloquial.

O problema do som se agrava em Relatório de um homem casado (baseado no conto “Relatório de Carlos”), em que o ator principal (Nery Victor) é dublado por Paulo Cesar Pereio, intensificando a artificialidade. Para quem tiver interesse, o filme está inteiro no Youtube, numa cópia precária gravada do Canal Brasil:

De todo modo, são dois filmes interessantíssimos, que mostram Rubem Fonseca como uma espécie de herdeiro bastardo de Nelson Rodrigues – como se as famílias decadentes e corrompidas do dramaturgo tivessem gerado os personagens em crise, à deriva, do autor de A grande arte.

Desenraizamento

Aliás, A grande arte (1991), de Walter Salles, ilumina um outro tipo de problema na passagem de Rubem Fonseca ao cinema. Primeiro longa de ficção do cineasta, era uma ambiciosa produção internacional, falada em inglês e com Peter Coyote como protagonista. Para isso, o personagem do advogado-detetive Mandrake foi convertido no fotógrafo norte-americano Peter Mandrake, em passagem pelo Rio para fazer imagens pitorescas para um livro de arte japonês.

A sofisticação visual (fotografia, montagem, direção de arte) se impunha sobre a história, e a energia vital dos personagens e de seu ambiente se diluía. O próprio diretor reconheceria posteriormente que seu filme não fazia jus ao livro.

Um problema semelhante – esse desenraizamento da ficção de Rubem Fonseca de seu habitat, o caótico e movediço Rio de Janeiro – afeta ainda mais claramente a coprodução internacional O cobrador (2006), dirigida pelo mexicano Paul Leduc. Estrelado pelo brasileiro Lázaro Ramos, pelo norte-americano Peter Fonda e pela argentina Antonella Costa, com ambientação em Nova York, Miami, Rio, Buenos Aires e Amazônia, o filme entrelaça confusamente quatro contos: “O cobrador”, “Passeio noturno”, “Cidade de Deus” e “Placebo”. É difícil detectar a literatura de Rubem Fonseca no meio disso tudo. O filme completo, numa cópia razoável, está no Youtube:

Nesse contexto de frustrações, um resultado mais satisfatório talvez seja o do mais modesto Bufo & Spallanzani (2001), de Flavio Tambellini (curiosamente, filho e homônimo do diretor de Relatório de um homem casado), que enxuga ao essencial o romance original para construir uma espécie de filme noir autenticamente carioca, em que se misturam policiais corruptos, mulheres fatais, magnatas facínoras e marginais de toda espécie. O ritmo e a composição visual remetem ocasionalmente a uma estética de minissérie (impressão reforçada pela presença no elenco de atores como Tony Ramos, José Mayer, Maitê Proença e Gracindo Júnior), mas a narrativa é consistente em suas idas e vindas e na manipulação dos pontos de vista.

A inquietação como método

Com “apenas” quatro longas-metragens inspirados em sua literatura, Sérgio Sant’anna tem sido mais feliz nas telas. Com exceção de Bossa nova (Bruno Barreto, 2000), adaptação chocha e convencional do conto “Senhorita Simpson” que não agradou ao escritor, os outros três longas são tentativas mais do que dignas de dialogar com seu universo pleno de inquietações existenciais e de linguagem.

Em Crime delicado (2005), transposição da novela “Um crime delicado”, o diretor Beto Brant radicalizou a ousadia do original, não só em relação aos personagens (a protagonista, que era apenas manca, passa a ser uma amputada, vivida com extrema coragem por Lilian Taublib), mas também à carga erótica explícita e à linguagem narrativa, entrelaçando teatro, literatura, dança e artes plásticas de modo estimulante. O próprio Sérgio Sant’anna, que não participou do roteiro nem das filmagens, estranhou e até rechaçou, num primeiro momento, o resultado. Só depois, segundo declarou, reviu o filme e compreendeu melhor sua proposta.

Um romance de geração (David França Mendes, 2008), inspirado no livro homônimo, é um caso ainda mais curioso. O livro já era uma mistura de gêneros: peça de teatro, diário, romance, crítica – e o filme potencializa essa transgressão metalinguística ao encenar a discussão e a preparação de uma peça e do filme em si com a presença, entre outros, do próprio escritor Sérgio Sant’anna. É a “construção em abismo” levada ao extremo.

Por fim, O gorila (José Eduardo Belmonte, 2012), baseado no conto homônimo, entrelaça uma história policial de mistério ao inventário de solidões do texto original, em que um ex-dublador de séries americanas (o Gorila do título, vivido brilhantemente por Otávio Müller) constrói vidas imaginárias ao telefonar para pessoas desconhecidas. Como o espaço está curto e já falei demais, remeto ao que escrevi aqui quando o filme foi lançado.

Por fim, a palavra do próprio Sérgio Sant’anna. Ao contrário do recluso Rubem Fonseca, avesso a entrevistas, Sérgio era sociável e falante, discorrendo com verve e humor sobre literatura (sua e alheia) para quem quisesse ouvir. Neste curta-metragem, ele e o filho, o também escritor André Sant’anna, falam da relação de um com o outro e de cada um deles com a escrita e a vida. Vale cada palavra.

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