Cinema: Os ossos que falam

Um Macunaíma contemporâneo, aspirante a cineasta e traficante de pedras preciosas. Entre o Brasil, Moçambique e Portugal, Um animal amarelo é uma tresloucada (e lírica) fábula sobre o colonialismo e suas violências na carne e na alma, ainda vívidas no entremares

Por José Geraldo Couto, no Blog do Cinema do Instituto Moreira Salles

Um animal amarelo, de Felipe Bragança, que está em cartaz em várias cidades do Brasil, é um filme desconcertante e difícil de classificar. Sua sinopse mais básica poderia dizer que é a história de um brasileiro branco, aspirante a cineasta, que, seguindo o que parece ser um destino atávico, vai a Moçambique em busca de diamantes e acaba se envolvendo com o tráfico internacional de pedras preciosas.

Não deixa de ser isso, mas ao mesmo tempo não é nada disso. Fernando (Higor Campagnaro), o cineasta-aventureiro, recebe a visita ocasional de um estranho monstro amarelo que engole gente. Além disso, herdou do avô (Herson Capri) um fêmur humano que encerra em si a memória de um passado de violência. O velho conversava com o osso, Fernando não chega a tanto.

Na África, ele assume o nome do avô, Sebastião, pleno de significado na cultura luso-brasileira, e é enquadrado por ativistas moçambicanos que defecam pedras preciosas e procuram vendê-las no mercado exterior. Fernando/Sebastião, com sua estampa de branco respeitável, servirá a eles como negociador.


Colonizadores e colonizados

Isso é apenas uma parte do enredo. Em Portugal, Fernando tem um romance com Susana (Catarina Wallenstein), a filha de um comerciante de joias racista, e tenta negociar com um excêntrico barão salazarista (Diogo Dória). Entre outras peculiaridades, Susana tem um rubi incrustado no clitóris. O fato histórico de os colonizados produzirem a riqueza consumida pelos colonizadores ganha aqui uma metáfora fisiológica: as pedras que os moçambicanos defecam são as mesmas que a burguesinha lusitana usa como graciosos apêndices corporais.

O componente fantástico perpassa a narrativa em fricção permanente com um realismo quase documental: aldeias moçambicanas miseráveis, um grande hotel convertido em cortiço na cidade da Beira, ruas sujas do Rio de Janeiro, reunião com gerente de banco para cavar patrocínio, notícias televisivas sobre o impeachment de Dilma Rousseff, etc. Em Moçambique, dos velhos navios encalhados na areia aos edifícios em ruínas, tudo é signo de um passado escuro, cruel e ainda presente.

A opção pelo antigo formato de tela 1,33 (ou 4:3), quase quadrado, acentua o estranhamento. Do mesmo modo, há durante todo o tempo, na narração em off por uma voz feminina moçambicana, uma sugestão de metalinguagem que só se explicita, aliás lindamente, nos minutos finais. A voz que narra, descobrimos no devido tempo, é de Catarina (a extraordinária Isabél Zuaa), a altiva líder dos moçambicanos que cagam preciosidades.


Discrepâncias fecundas

O que desconcerta e inquieta em Um animal amarelo é que suas partes não se encaixam perfeitamente. Há algo de destrambelhado em sua construção, uma cacofonia de gêneros, e não chega a se formar uma alegoria “redonda”, de leitura clara e unívoca. Tanto melhor. Suas próprias discrepâncias de tom, bem como as contradições no perfil do protagonista, mantêm sempre teso o arco da surpresa e da invenção.

Em seu ziguezague psicológico e moral, Fernando/Sebastião remete a outro herói ambíguo, o Macunaíma de Mário de Andrade (e mais ainda o de Joaquim Pedro), ambos oscilando entre a intrepidez e a covardia, a sinceridade e a fraude, a esperteza e a ingenuidade. Seu périplo fantástico também lembra o do “herói sem caráter”. O tom de rapsódia picaresca, de fábula sem moral explícita, é análogo. Em ambos os casos trata-se de uma indagação sobre a origem, a identidade, o lugar do personagem na sua própria cultura e na história do mundo.

Realizado com uma liberdade notável de imaginação – em que mais de um crítico, incluindo eu mesmo, viu pontos de contato com o português Miguel Gomes –, Um animal amarelo fala de um processo torto de opressões seculares, violências recorrentes, injustiças sociais e raciais persistentes. Fala do desconcerto do mundo a partir da perspectiva dos explorados, a exemplo do Glauber Rocha de Der leone have sept cabezas, mas com uma veemência menos estridente e imperativa, mais doce, lírica, eventualmente cômica. De quebra, satiriza indiretamente a literatura e o cinema dos heróis aventureiros imperialistas estilo Indiana Jones ou Allan Quatermain.

Não deve ser por acaso que a oscilação política e moral do protagonista branco é alvo da crítica sarcástica da narradora negra. É ela que mantém o personagem e cada espectador, sobretudo os brancos, num estado de autoquestionamento. Cada um de nós é visitado de quando em quando por algum animal amarelo e tem que conversar com os ossos do passado para conhecer a si mesmo e deixar de ser mero repetidor da história, esse pesadelo do qual, como o Stephen Dedalus de James Joyce, não conseguimos acordar.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos

Leia Também:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *