A poesia vertiginosa de autores em desconstrução

Em dois livros de poetas da periferia, a desconstrução e a incompletude que se reflete em versos pessoais e imagens da cidade, ora sombrios, ora oníricos. Literatura de combate — que primeiro derruba; depois ajudar a juntar os cacos

Por Eleilson Leite, na coluna Literatura dos Arrabaldes

Vendedor de travesseiros1 (2015) e Aprender menino2 ( 2014), ambos publicados pelo Selo Poesia Maloqueirista, são os livros comentados neste texto. O primeiro é de Emerson Alcalde e o segundo de autoria de Victor Rodrigues, poetas da Zona Leste de São Paulo e que atuam em saraus e slams por toda a cidade. Ambos são arte-educadores e ativistas culturais. São da mesma geração, embora Emerson tenha oito anos a mais que Victor que nasceu em 1990. São poetas que construíram suas carreiras na Era Lula, período de certa prosperidade nas periferias no qual havia boa oferta de políticas públicas de fomento à cultura.

Os livros, porém, não refletem o agitado contexto político da época marcado pela polarização esquerda e direita e o advento do impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Os poetas estavam mais atentos aos seus conflitos internos e revelam uma inquietação, por vezes, perturbadora sobre o lugar em que estão no mundo, sua condição humana e de artista. Vivenciam os dilemas e as poucas alegrias da vida adulta em um processo de desconstrução. Nesse sentido, é interessante que os poemas discorram sobre questões de afirmação pessoal em meio aos conflitos na dinâmica urbana. Combinam assim uma reflexão sobre a existência e território numa modulação de tom que vai da negação do mundo e de si: “vivo em ruínas” (Victor Rodrigues) “minha vida é um sonho sem recheio” (Emerson Alcalde) à resiliência que para Emerson se dá pelo universo onírico por meio do qual faz sua travessia. Já para Victor, a superação está no menino que lhe habita e não deixa que ele se reconheça como homem feito.

O Vendedor de travesseiros

O livro de Emerson Alcalde tem 21 poemas de alta densidade reflexiva e sofisticação formal. O autor aborda dois temas especialmente e que não estão compartimentados: inquietações pessoais perante à vida e reflexões sobre a cidade. Um terceiro grupo de poemas são experimentais nos quais a forma se sobrepõe às temáticas neles contidas. Há um poema de apelo erótico (Banho) que ficou isolado em meio aos demais que pouco falam de amor, mas que merece menção pela beleza plástica da composição: “ela no banho/esperando voltar/aproveitando o olhar/já é o início da preliminar”. Emerson poderia explorar mais seu talento para esse tipo de poema algo pouco presente em sua obra, pelo menos até 2020 quando ele lançou seu mais recente livro, Gênesis, o qual ainda não li.

Os poemas mais reflexivos que versam sobre seu lugar no mundo e a condição de poeta somam oito textos quase todos líricos dado o tom pessoal, as vezes confessional dos versos. Diferente de Victor Rodrigues, Emerson é mais altivo. Resiliência abre o livro e dá o tom para os demais. Trata-se de um poema para elevar a autoestima. O título é ao mesmo tempo o tema, e um mote para o poeta explorar a textura das palavras. Ele destaca uma série delas em caixa alta: PEIXE (referindo-se ao Santos Futebol Clube, time do qual é torcedor); INTANGÍVEL; SOLETRAR; PANACEIA; SOLIPSISTA; SAPIÊNCIA entre muitas outras. Emerson, poeta de Slam, calcula bem as palavras que usa num poema; não pode fazer trava-língua, mas desafia: “quero ver um concurso de SOLETRAR neologismo”.

O poema fala de sua trajetória de vida até chegar na cena dos slams: “SOBREVIVI quase desisti da luta/ sou GRATO aos que me colocaram na cultura”. O poema termina com versos de motivação: “RESISTA e esqueça a palavra CULPA/o universo ONÍRICO é NECESSÁRIO para a TRAVESSIA”. Observei aqui uma relação com título do livro e que nos ajuda a entender a maneira como ele está impresso na capa: “O VENDE/DOR DE/TRA/VESSEIROS. A palavra travesseiro está associada ao sono e ao sonho, obviamente, mas a sua escrita pode ser um neologismo indicando se referir a alguém que faz travessias: um travesseiro.

Aprax apresenta uma reflexão sobre o ser e estar no mundo. Poema complicado, um tanto enigmático e abstrato com versos que criam imagens fortes, cuja compreensão se dá melhor ao ler o livro todo: “não vivo este sentido reto/já disse que buscava transcendência/agora busco a imanência/ no fluxo caótico babilônico/engarrafado no trânsito sem faróis”. Hora de partir é sobre a hesitação que incide na iminência da despedida: “aquele lugar seguro/estático/é confortável estar aí/as pessoas gostam de mim/já me conhecem por aqui”. O pêndulo entre o ficar e o partir dá ritmo ao poema até a quarta estrofe quando o poeta se decide: “mas você não vai crescer aí/não há mais espaço/se temos uma essência/ela é nômade”. Já Falai por si, é uma exaltação à fala como expressão relacionada ao spoken word e o slam: “se fosse para ser objetivo escreveria artigo/e o que faço é spoken word: poesia oral/sou slammer atleta do esporte verbal”. Mas ele também se refere a sua condição de ator: “e pra não ser eternamente escada/o apoio pra estrela brilhar/tive que me posicionar/eles não vão parar pra te escutar/levantei a cabeça fui ao proscênio e falei”. E conclui: “mesmo sem voz/o corpo fala/ por si”.

Os demais poemas com tom mais pessoais, tem traços alegóricos, revelando a habilidade do autor para fabular o que tem a ver com a formação que ele tem em dramaturgia. Vendedor de Travesseiros tem essa característica. Todos os 75 versos do poema começam com palavras iniciadas com as letras “t r”, como travesseiro, travessa, tração, num efeito acentuado de aliteração. Com esse recurso estilístico sofisticado compõe um longo poema em que fala de uma paixão do vendedor de travesseiros por uma moça de trinta anos que morava no número trezentos de uma tranquila travessa. Trocaram olhares e queijos, mas nunca rolou um beijo. Tudo não passou, porém, de um sonho que o vendedor teve sentado sobre seus travesseiros em um banco de trem urbano.

Outros dois textos são oníricos confirmando o que disse no poema Resiliência que abre o livro. Um é Comunidade dos sonhos, poema cujo título já situa o leitor na proposta estética do poeta. Fazendo uso de alegorias, esse poema é recheado de referência a títulos de filmes (Morangos Silvestres; Tomates verdes fritos) Cita também a Comuna de Paris, que “poderia ser em Franca ou Parintins” e o dramaturgo gaúcho do século XIX, Qorpo Santo. No sonho, o poeta exercita uma lucidez delirante: “bolhas impedem/o toque/acelero o cavalo ele chora/atola a cada tentativa/apenas a cabeça fica pra fora”. Emerson volta à reflexão do poema dos rios (Da habitação invisível – abordado adiante): “morro mas sobrevivo/sobre sonhos sem recheio/minha vida é um sonho sem recheio”.

O outro texto onírico é Mercúrio, um poema narrativo no qual encadeia diversas situações numa noite escura em um território de quebrada. “Salomão” parece ser o articulador das diferentes situações aparentemente desconexas. Uma mulher, enigmática, surge: “desloco de uma emboscada por causa de uma mina/gelo na tíbia poças desenham uma face/esboça uma mulher”. A face refletida na poça seria, supostamente, de “Prosérpina”. Alcalde deu a sua personagem, o nome da deusa filha de Júpter e que foi raptada por Plutão e se tornou um mito da amada desaparecida. “Salomão” interage com “Mercúrio” que parece ser a luz escassa nos becos de favela. No final do poema a mulher reaparece: “Ela toca em meus ombros”/“lívida, descalça/Suas pernas estão geladas”. Ao se referir ao arrepio que tal imagem lhe causou, ressaltou a abundância de pelos nos braços, mas adverte: “não sou licantropo” que é o nome grego do lobisomem. E se fosse, já estaria se metamorfoseando, pois, o poema termina na aurora: “clareou/ e na poça a impressão/de uma boca tremulando/o rosto em esboço delineando/os traços de um lábio”. Sugere, na minha leitura, que “Salomão”, enfim, encontrou Prosérpina.

Terreno na antiga lagoa é o poema que encerra o livro e esse conjunto de poemas mais líricos. O texto fala da infância numa periferia com traços rurais numa casa construída numa várzea e mostra que as enchentes, no olhar de uma criança, tem seus encantos. O texto é construído em torno da figura do pai, espanhol, da Andaluzia e que veio para São Paulo, vindo do Pará. Saia cedo para trabalhar; um dia não voltou: “o som agudo da notícia ainda ecoa/ pelas vigas de meu corpo/eu era pequeno/a partir de então/ o amargo passou a ser minha melhor expressão”. Lembra Crisântemo, de Emicida, cuja narração da morte do pai do cantor é feita pela mãe dele, Dona Jacyra.

Os poemas que abordam a cidade são quatro. Da habitação invisível, citado anteriormente, é o mais profundo deles. Poema composto para o espetáculo Cidade dos rios invisíveis, do Coletivo Estopô Balaio, do qual Emerson foi ator, o texto traz de forma latente as questões relacionadas aos rios urbanos: “pimenta nos olhos do rio é refresco sem líquido/muretas para proteger-nos da água”. Uma questão shakespeariana anuncia e finaliza o poema: “existir é morrer e não existir é desaparecer”. Ou seja, não há saída para o rio da metrópole, pois se resistir está condenado à morte insalubre e se ele for aterrado ou canalizado, desaparece. Nos versos finais, o autor transpõe o dilema para o campo da existência humana: “nossa trajetória segue sinuosamente/ou você se canalizou?”

Seicentos e 6 é um texto em prosa mesclado com versos e até uma estrofe em espanhol. Trata de conflitos de família de baixa renda em meio à construção de uma casa no ritmo da quebrada, cômodo por cômodo, conforme a prole aumenta. Narrativa fragmentada e tensa e a variação de forma (prosa, drama e poesia) acentua a proposital ausência de linearidade. Vi 100 V é um poema todo feito com palavras em V, sem uso de artifícios como no poema que dá título ao livro. Em ritmo acelerado, retrata situações do cotidiano de violência na periferia: “voltei verificando/vila visivelmente vazia/vândalos vararam vidraças varreram varanda/vasculhando vasilhas vasos/velhos velhas vazaram velozmente”. A violência contra mulheres especificamente é também tratada no poema: “violaram vossas vulvas/virgens vislumbrando ventre vertendo”.

Corvos grafitados completa o bloco de poemas citadinos e retoma a estética onírica e alegórica explorada pelo autor em poemas anteriores. O argumento parte de um graffiti em um muro visto da janela do poeta e que ganha vida. Os corvos pintados voam, assim como a criança que também está na pintura. Ele vai à rua sob um céu pintado de laranja. Uma linda garota sai do outdoor e pega um girassol do desenho e dá ao poeta. A pintura vai se recompondo. O rio aparece como alegoria. Um rio azul no qual há quatro barcos, citados em português e francês. “Cadê meu fuzil?”, pergunta o poeta. “Aqui/eu quero os girassóis/aqui/eu quero ela nós dois/A sóis/aqui”. Sugere que o eu lírico do poeta, seja um jovem envolvido com o crime e que se vê num universo paradisíaco? Tal qual Racionais “o cheiro é de pólvora, eu prefiro rosas”, Emerson imaginou esse contraste com base num desenho aprazível em meio a um cenário inóspito e violento.

Os poemas mais experimentais estão, praticamente todos, no capítulo II. Diss é o primeiro deles. Neste poema, o autor constrói seu texto explorando o verbo dizer que é transitivo direto quando tem o significado de exprimir algo ou bitransitivo quando o sentido é de dirigir um cumprimento ou ofensa a alguém. O autor explora o “diz que me disse”, a dissimulação: “disfarça o que sua ideologia diz”. Aborda a distorção, o boato: “você, eu não sei o que diz, eu sei que disseram”. Destaca aqueles que na história tiveram o que dizer: “Lênin disse:/A prática é a única detentora da verdade”. Lembra que quando falamos mal de alguém, muito de nós é dito: “diz do outro e diz de si?”

Riscos explora os vários significados da palavra que lhe serve de título: riscar o disco, riscar de excluir da lista; risco do pichador no topo dos edifícios…. Acorde acrescenta o elemento da sonoridade explorando onomatopeias, além das variações de sentido da palavra. Não por acaso foi composto para um EP do rapper Kamau, informação contida no rodapé da página. Meio pedaço quebrada é outro exercício criativo em torno dos sentidos das palavras. Meio quer dizer contexto; pedaço, o território assim como quebrada. Mas faz uso do sentido conotativo: “meia noite sozinho/um pedaço de mim/se quebra”. Em Paulistas, discorre sobre os sentidos de ser paulista/paulistano, algo como Adriana Calcanhoto fez na canção Cariocas com versos que sempre começam com “Paulistas são”: playboys/roubados/caipiras”. E prossegue: “Paulista é a avenida/ Paulistas são “Meu”. Termina o poema citando sua metáfora preferida e bem paulistana: “São Paulo é a cidade dos sonhos/sem recheio”.

Por fim, em Pontos, o poeta brinca com os diferentes sentidos da palavra ponto. Começa com o ponto final que encerra uma frase e vai para uma exclamação conclusiva: “Era isso que nos dividia?/Era!/ Então, ponto.” Passa pelo ponto cirúrgico que fecha um corte no corpo; o ponto de fuga em perspectiva; ponto de Umbanda. Finaliza fazendo reticências com pontos, pontos, pontos… O poema nos remete a História de Ponta, de Andrio Cândido já analisado nesta coluna: “na Ponta, para um homem portando uma Ponto/ para no Ponto, aponta a Ponto/no Ponto, outro homem fumando Ponta”. Ponta na sua primeira citação se refere à periferia; Ponto é uma arma de fogo que também é ponto de ônibus e ponta, na segunda citação, é um baseado. Outro que enveredou pela mesma linha foi Michel Yakini no poema Alinhando os pontos: “nosso amasso no ponto/harmonia em ponto certo/a ponto de explodir” Tais ressignificações configuram um traço recorrente na poesia periférica e Alcalde parece seguir essa tradição.

Aprender menino

Com apenas 16 poemas, o livro de Victor Rodrigues encerra uma trilogia3 e, ao que parece, um ciclo em sua trajetória de poeta (ou de vida). Cada poema é precedido de trechos de canções (alguns são anunciados por fotografias) e que acabam por servir de título para os textos, já que apenas três deles são nomeados. Tal recurso não é um dado aleatório. Ao contrário. Victor dedica-se autodidaticamente, ao que me consta, à pesquisa da poesia como gênero musical. Lenine, Zeca Baleiro, Skank, Nação Zumbi e Emicida são alguns dos compositores citados como epígrafe para seus poemas. O poeta parece ter uma certa predileção por canções pop da década de 1990.

Embora poucos, os poemas reunidos formam um conjunto robusto e denso que impacta o leitor pelo tom perturbador e melancólico de sua bem elaborada poesia. Na época da publicação do livro, o autor tinha apenas 24 anos e os dilemas e conflitos da vida adulta estão expostos com uma carga sentimental do tamanho do mundo. O poeta expôs suas vísceras e se reconciliou, reconhecendo o menino que lhe habita e que não permite que ele seja um “homem feito”. Construiu sua casa na árvore e a leva nas costas e renasceu um “brincar filho”.

Assim como Alcalde, Victor dedica a maior parte de seus poemas à reflexão sobre sua condição humana e aos transes da cidade. Nove poemas tem um traço pessoal em tom perturbador e uma recorrente pulsão de morte. Outros cinco discorrem sobre a vida urbana e outros dois não cabem em classificações. Um desses, sem título (página 29) faz uso do café para, na minha leitura, narrar um dia da vida do trabalhador e como a bebida marca essa reprodução cotidiana: “café pra acordar/quem sonhou vida inteira”. Já no trampo: “sem atraso/café pra chegar/que o dia espera”. A aflição do trabalho explorado: “a vida em pó/um pó de ser/que só queria descansar/queria mesmo se juntar/de grão em grão(…) “que assim/como em tempos atrás/são escravos e cafezais”. E a resignação: “o corpo gasto/na boca o gosto/no rosto o susto/que a vida amarga/e a lida segue/por um qualquer/que a vida paga/na fé entregue/pra conseguir/comprar mais café”.

O outro poema fora de classificação faz uso da alegoria da crucificação de Jesus Cristo que assume o eu lírico do poeta. É um dos três textos que tem título: O evangelho conforme me pregam. Um Cristo ressentido, mas resignado: “me furem de lado/que a coragem é pouca eu sei/vendam as lascas/ enrolem nos trapos/que o tempo é pouco eu sei”. Aos que nele cuspiram e atiraram pedras ele rejeita a compaixão: “não tentem me ajudar/deixa que eu carrego/a de vocês um dia vem/ a minha eu mesmo prego”. O autor faz uso do sentido duplo da palavra pregar. No título do poema é a pregação como ato de evangelizar e parece expressar uma falsa devoção. Ao longo do poema ressalta o sentido de furar num jogo ambíguo sutil e sugestivo.

Os poemas marcados por reflexões pessoais sobre a vida e seu lugar no mundo, são todos pessoais e líricos e nenhum deles têm título. Seguirei assim a ordem em que aparecem no livro, citando a respectiva página, já que a ausência de títulos inviabilizou um sumário. O primeiro deles está na página 13. Trata-se de um poema que expressa um transe do poeta enfadado com a vida. Em doze estrofes modula os sentimentos partindo de uma situação matriz: o anúncio da feitura de uma poesia como resistência: “não tenho ainda aquele tédio enorme pela vida”. Na estrofe seguinte, o tédio é por ele mesmo em face de seu recolhimento: “já não atendo o telefone/ e raramente recebo alguém à porta”.

Na sequência, como que em Metamorfose Ambulante, do Raul Seixas, vem o oposto do que disse antes. Quer anunciar um vídeo e um livro e declara: “vejo um tédio enorme em estar vivo”. Depois quer sucumbir: “me deixem dormir pelo amor de deus”. O tédio agora, é da vida. Cai em depressão. Vem novamente o desejo de fazer poesia. Crianças aparecem no texto e o poeta dá sinais de que o pulso ainda pulsa: “ainda quero crer nessa vida”. A frustação de não ter sido um gerente de banco ou o técnico do Palmeiras aparece na estrofe posterior. O poema se encerra como um aparente conformismo com a condição de poeta: “levo no máximo/um canto miserável/um sorriso uma praga um insulto/às vezes forçados/a vontade de um samba/e alguma poesia na mochila”. E o poeta sintetiza enfim seu sentimento: “tenho um negócio esquisito com a vida”.

No texto da página 19, o poeta, a contragosto, sai para o rolê. Quer vencer o tédio que lhe prende à cama. Perturbado e deprimido, se queixa da vida: “tenho me cansado/ transado sem vontade/ e muito mal”. Parafraseia Lenine: “já deu minha hora/ só que fico”(…) “se pudesse fugia antes do fim/mas há espelhos demais aqui”. Aparentemente embriagado sente alguém lhe tirar para dançar. O poeta esquece os passos, sente o calo apertar, mas não resiste: “que é dia de festa”. Na página 25, temos um devaneio lírico sobre o poder que o cigarro tem de nos fazer divagar e aliviar o estresse. Fumar como uma forma de vivenciar a solidão: “eu e meu cigarro/como se não houvesse ninguém/como se nunca houvesse você/pra minha própria alegria/pro meu próprio bem/fumar e seguir meu rumo”. Fumar foi a inspiração do poeta que não fuma.

Precedido por uma foto de João Claudio Sena, o texto impresso na página 35 é um poema do operário em desconstrução: “sou operário de um mundo em obras/por isso vivo em ruínas”. O incômodo existencial: “num projeto inacabado/sou mais humano/sem teto”. E a pulsão de morte aparece pela primeira vez: “vejo em mim/apreço pelas crateras/desejo por demolição”. Na página 39, o poeta cansado de guerra parece desistir do combate: “a luta/cada vez mais gritante/mata/eu sei que mata/e nem os que matam/nem os que morrem/escutam os gritos”. Mas o poeta dá sinais de que quer lutar com as armas que tem: “ando com a boca seca/quero dizer novos versos/mas o novo não há mais/e o velho já cheira mal”. Próximo do final do poema, a motivação para o combate se revela. Não é idealismo utópico ou uma motivação ideológica: “não quero saber de mais uma guerra/só que o desgosto e a vingança me aliciam”. E a pulsão de morte mais uma vez aparece: “num simples gesto de dedo/uma grande explosão/não quero saber da última guerra/por favor/me deixem apertar o botão”, refere-se o poeta ao tal botão que o presidente dos EUA tem acesso e, provavelmente, o da Rússia também.

Na página 79 um poema que é o retrato da depressão: largou os estudos; parou de limpar a casa; as camisetas ficam amassadas: “vestem do mesmo jeito”. O despojamento tem seus benefícios: “quando descalços os pés/não há sapato que aperte”. E filosofa: “se a sujeira é do coração/não é preciso lavar as mãos”. A narrativa depressiva aqui ganha contornos de ironia e certa graça: “já não corto mais as unhas/hora de começar a arranhar”. Na página 83 está o poema que poderia ter o título do livro. A epígrafe de Lenine também anuncia o poema que fala do menino que habita no homem e assim nunca o deixa ser um adulto: “não posso ser homem feito/porque sou feito mulher também/e a criança dentro de mim/ vem desmanchar só de pirraça/ as coisas prontas/ que esse homem faz”. A imperfeição e o desatino aparecem no poema: “eu aprendo com o menino/carregar água na peneira/aprendo com a menina/apagar incêndio com álcool”. E a morte aparece mais uma vez:” o dia em que me achar homem feito/ é o dia em que estarei morto/nesse dia poderão me matar”.

No final do livro dois poemas marcados pela pulsão de vida. O da página 89 é sobre o desejo de construir uma casa na árvore. Poema destoa dos demais pela alegria e o bucolismo: “minha casa da árvore/ terá paredes plantas/como aquelas/ que tem na casa da minha vó/um cesto pra subir/e deixar cartas e presentes/e uma pipa amarrada na ponta/ pra lembrar que céu é chão que cai”. O poeta diz que carregará a casa nas costas, alegoria que me remete ao personagem do grafiteiro Mauro Neri. E na derradeira página do livro, o último poema que fala em renascer: “um nascer de novo/entre gargalhadas/ um brincar filho”.

Entre os quatro poemas que tratam da cidade, o da página 49 fala sobre os mecanismos e proteção da privacidade como forma de proteger a propriedade. Na página 53 está um poema escatológico no qual o anúncio do apocalipse é o advento dele: “ele vem/veloz e voraz/pisando em cabeças/de quem vai para trás/ele volta/e pisa de novo/espreme até o fim/devora com gosto”. O poeta consegue manter a incógnita. Quem seria ele? “Ele é sonho/meta e miragem/e por ele as bolsas e ações/as fábricas/as reuniões/é ganância e esperança/e tudo que é feito querer/ele virá para nos ver”. No final, o autor revela quem ele é: “o futuro é a morte”.

Dois poemas que retratam situações de conflito urbano têm título. Um chama-se A moça, a cidade e o metrô, um poema narrativo sobre uma mulher que ultrapassou a faixa amarela e caiu no fosso do Metrô. Mas a moça havia subvertido catracas e assentos preferenciais; estava na mira dos guardas: “investigada/descoberta/pulou a catraca/tentou ser esperta”. Talvez pela aflição da perseguição tenha se distraído e caiu. A condição de infratora causou indignação na multidão: “a moça caiu no metrô/e ninguém ajudou”. Em A revolução que faltava retrata os meninos que vivem nas ruas em bandos, desprotegidos com os quais as leis estão sempre em conflito. Furtam, descem e sobem as escadas rolantes: “dizem que já lhes ofereceram abrigo/mas hostis e um pouco teimosos/preferiram liberdade”. Versos que indicam que o tal abrigo é confinamento. Os meninos “acordam cedo com o barulho/e passam a tarde/voando com as pombas”. Mas no fim do dia, correm da polícia.

Tendo como epígrafe versos da canção Eu disse a ela, do Skank, o poema da página 65, fala da cidade, ao que me parece, trata-se de São Paulo, mas sem citar elementos objetivos que comprove essa hipótese. Parece falar de uma mulher: “não posso nem pensar/em te perder de vista/nem consigo imaginar/outra em seu lugar”. Revela a exclusão da cidade que protege seu centro e destina a periferia aos que rejeita: “logo você/ que não deseja e seduz mesmo assim/abre caminhos para mim/como se fosse carinhar/como se eu pudesse querer/depois me joga pras beiradas/tentando esquecer”. Trata da poluição e da violência: “dorme um sono/ acumulado e descoberto/pesado como seu concreto/não quer levantar da cama/sonha ser postal/ e acorda de ressaca/vomitando fumaça/nos pés do policial”. A pulsão de morte aparece: “você todinha/é meu suicídio do alto do prédio”. E o dilema de ir ou ficar: “não lembro de te ver sorrir/não sei se sou feliz/ algo diz que devo ficar/você diz que devo partir”. Mas o poeta se rende à metrópole: “nego mas não saio/ pago o preço todo/pra te ter por perto/por costume ou prazer/e odeio como poucos/pois pareço com você”. Sem citá-la, Victor fez uma declaração de amor (e ódio) à metrópole paulistana.

Rios sinuosos não são canalizados

Os livros de Emerson Alcalde e Victor Rodrigues têm acentuado tom pessoal, como foi visto. Os poetas expuseram seus conflitos, incertezas, inconformismos, decepções e desilusões. Uma poesia vertiginosa que pouco fala de amor e na qual a esperança apenas vaza pelas frestas em meio aos escombros dos poetas em desconstrução. Os dois, porém, se reergueram, mas não de modo triunfal. Levantaram cambaleantes mirando a travessia e a casa na árvore. Mostraram-se seres em estado de incompletude que, longe de ser um problema, é uma virtude.

“Homem feito tem caminho certo/tem que se manter/sempre de pé”, fala Victor no poema em que se recusa ser completo. “Não sou esse homem/ porque quero saber de amar/ e quando amo/deixo que me desmontem/ fico espalhado por aí/ de um jeito difícil pra depois juntar”. É o entendimento de que a desconstrução é a obra e a construção a ruína, ou a morte: “o dia em que me achar feito/ é o dia em que estarei morto”. Por isso a casa que ele quer fazer na árvore pode ser levada nas costas. A desconstrução nos conecta com a natureza onde nada se cria; tudo se transforma. Para Victor crescer não é voltar a ser criança, mas é deixar o menino habitar em você. São formulações que só os poetas conseguem fazer e eles têm o dom de desestabilizar as vigas rígidas que sustentam nosso ser.

Emerson fala de rios que não podem ser canalizados. São aqueles sinuosos e ele alerta para que não nos deixem canalizar. Ele defende em seu livro a necessidade de sonhar, pois “o universo onírico é necessário para a travessia”. E completa: o “sonho é irmão da loucura”. Num sonho, ele resgatou, enfim, Prosérpina que um dia foi raptada por Jupter. No sonho, podemos rechear o sonho de creme ou doce de leite. No sonho, seu pai nunca se foi; se eternizou no último abraço. Além da revolta, ele defende o encantamento do mundo. Se perdermos a capacidade de nos encantar, seremos como o rio que aprisionado num duto.

A leitura conjunta dos livros desses poetas lucidamente delirantes nos tira do lugar comum, da mesmice renitente. E não se trata de literatura edificante, de efeito imediato, mas pouco duradouro. Ela primeiro derruba e depois ajuda ajuntar os cacos. Não apontam caminho fácil, reto e plano. Ajuda-nos a enxergar nossa incompletude e o quanto isso é libertador. São poetas do combate, das batalhas de poesia falada que são spoken word e o slam. Tem mensagem, mas não tem massagem. Mas são horizontais nas relações na frátria. O troféu que ganham, mesmo o de Paris, vai para o boteco de quebrada e fica ao lado dos conquistados pelo time de várzea do bairro. Ensinam-nos que somos grandes, mas não maior que os outros. O falecido poeta Marco Pezão, fundador da Cooperif, dizia que “nóis é ponte e atravessa qualquer rio”. Nossos poetas aqui analisados acrescentam que rios sinuosos não se canalizam.


1 Com formato 11 x 15, o livro tem 71 páginas. A capa é de |Rodrigo Motta e projeto gráfico de Victor Meira. O rapper Kamau faz o texto da orelha no qual diz estar retribuindo os dois poemas que Alcalde fez para seu recente EP Entre. A poeta e atriz-mc Roberta Estrela Dalva escreve o prefácio. Na outra orelha há uma foto do autor com sua biografia. Emerson é fundador do Slam da Guilhermina, foi campeão do Slam SP de 2013 e vice-campeão da Copa do Mundo de Slam em Paris em 2014. Publicou em 2011 o livro A Massa. Posteriormente publicou Diários Bolivarianos (2019) e Gênesis ( 2020), além de inúmera antologias.

2 Terceiro volume de uma trilogia, Aprender Menino também publicado pelo Selo Poesia Maloqueirista tem 90 páginas e formato 11 x 15. A capa é de Alexandre Luiz Camaleão e projeto gráfico de Victor Meira. O poeta e editor Ni Brisant faz o prefácio e Juliana Bernardo o texto da orelha. Posteriormente, Victor publicou Deuses fazendo bolo – ou ingredientes para nascer de novo pelo Selo Doburro (2017). Participou de várias antologias e publicou em 2013 o pequeno livro ( 5 cm x 10 cm) Versos para aumentar o mundo.

3 O primeiro volume é Praga de Poeta ( 2012) e o segundo, Sinceros Insultos ( 2013), ambos publicados pelo Selo Poesia Maloqueirista.

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