Sonegação: outra face da injustiça fiscal

Em 2013, endinheirados deixaram de pagar equivalente a 17 anos de Bolsa Família. Arrecadação continua penalizando mais pobres. Reforma Tributária indispensável

Por Rodrigo Gomes, na RBA

Pessoas jurídicas e magnatas do país burlam o fisco e mais pobres pagam a conta. Reforma tributária é urgente

Pessoas jurídicas e magnatas do país burlam o fisco e mais pobres pagam a conta. Reforma tributária é urgente

Em 2013, empresas e endinheirados deixaram de pagar equivalente a 17 anos de Bolsa Família. Arrecadação continua penalizando mais pobres. Reforma Tributária indispensável

Por Rodrigo Gomes, na RBA

A sonegação de impostos no Brasil superou R$ 415 bilhões em 2013. O valor corresponde aproximadamente a 10% de toda a riqueza gerada no país durante o período e é maior que os orçamentos federais de 2014 para as pastas de educação, desenvolvimento social e saúde, somados. Neste ano, o total de impostos e tributos não recolhidos já se aproxima dos R$ 68 bilhões. Os dados são do Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda Nacional (Sinprofaz), que organiza o painel Sonegômetro.

O serviço calcula, a partir de estudos daquela entidade, o total de impostos e tributos que deveriam, mas não são pagos, por obra das chamadas pessoas jurídicas, isto é, empresas em geral, de todos os ramos e tamanhos. Para comparação, o programa social do governo federal Bolsa Família tem R$ 24 bilhões ao ano para atender 14 milhões de famílias. Portanto, o que foi sonegado no ano passado equivale a 17 anos do programa.

Ainda segundo o Sinprofaz, a soma dos tributos devidos pelos brasileiros, constantes na Dívida Ativa da União, ultrapassa R$ 1,3 trilhão, quase um terço do Produto Interno Bruto (PIB) de 2013 que foi de R$ 4,84 trilhões.

O estudo do sindicato baseia-se em dados da Receita Federal e em outras análises específicas sobre cada tributo, o que permitiu chegar a uma média ponderada. Os tributos não pagos são relativos a impostos diretos – aqueles que não estão embutidos em produtos – como Imposto Sobre Serviços (ISS), Programa de Integração Social (PIS), Contribuição para Financiamento da Seguridade Social (Cofins), por exemplo. E escancaram a diferença com que o sistema tributário brasileiro atua sobre ricos e pobres.

“Eles são sonegados pelos muitos ricos e por pessoas jurídicas (empresas, indústrias), com mecanismos sofisticados de lavagem de dinheiro e de caixa dois”, afirmou o presidente do Sinprofaz, Heráclio Mendes de Camargo Neto, que é advogado e mestre em Direito.

A sonegação gigantesca, diz Camargo Neto, impõe a necessidade de tributar pesadamente o consumo, onde não é possível sonegar. “É injusto que todo paguem uma carga em tributos indiretos. E o povo paga muito. Mesmo que você seja isento do Imposto de Renda, vai gastar cerca de 49% do salário em tributos, mas quase tudo no supermercado, na farmácia”, explica.

Outra injustiça está na forma como incide o Imposto de Renda. Quanto mais o contribuinte tem a declarar, maiores são as possibilidades de abater valores. “Os mais ricos podem abater certos gastos no Imposto de Renda. Em saúde, por exemplo, se você tem um plano privado um pouco melhor, você pode declará-lo e vai ter um abatimento (no cálculo final do imposto). Esta é uma característica injusta do nosso sistema. Os mais pobres não conseguem ter esse favor.”

No entanto, continua o advogado, quem tem salários a partir de R$ 2.400 é tributado automaticamente pelo Imposto de Renda Retido na Fonte e muitas vezes não tem como reaver parte deste valor.

Em 2005, o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário e a Associação Comercial de São Paulo criaram o impostômetro, cuja versão física está instalada no Pátio do Colégio, região central da capital paulista. O objetivo, ao mostrar o tamanho da arrecadação do poder público, é justamente debater a carga tributária do país, com vistas à redução de impostos e à reforma tributária.

Logicamente, os valores registrados pelo impostômetro (R$ 313 bilhões este ano, até o fechamento desta matéria) são superiores aos do sonegômetro (R$ 68 bilhões), caso contrário nem sequer haveria dinheiro para manter o funcionamento da maquina pública.

No entanto, alerta Camargo Neto, se o governo brasileiro efetivasse a cobrança deste valor sonegado, já seria possível equalizar melhor os impostos no país. “Se nós conseguirmos cobrar essas grandes empresas e pessoas físicas muito ricas, o governo poderia desonerar a classe média e os mais pobres. Seria o mais justo. Se todos pagassem o que devem, nós poderíamos corrigir a tabela do Imposto de Renda (que incide sobre os salários) e reduzir alíquotas sobre alimentos e produtos de primeira necessidade, que todo mundo usa”, defende.

Desigual

Detalhando-se a carga tributária brasileira pelas principais fontes, percebe-se que os tributos sobre bens e serviços, que afetam sobretudo os mais pobres, respondem por quase metade do total (49,22%). Em seguida vêm os tributos sobre a folha de salários (25,76%) e sobre a renda (19,02%). Somados, eles respondem por 94% da carga tributária total. Para o procurador, existe uma “escolha política” em não atuar na cobrança dos mais ricos e manter a situação como está.

Uma demanda urgente, segundo o procurador, é uma reforma tributária, que incida sobre o capital e deixe de onerar os trabalhadores. “É preciso um avanço maior da tributação sobre a riqueza. Veja os lucros astronômicos dos bancos, por exemplo. Por que o Banco do Brasil precisa lucrar R$ 12 bilhões e não pode ser tributado sobre metade disso? Essa é uma escolha política da sociedade. Imagine bilhões de cada um dos grandes bancos, o quanto você poderia desonerar os produtos de primeira necessidade?”, questiona.

Camargo Neto aponta ainda que a sonegação é maior por conta da precariedade estrutural em que a própria Procuradoria da Fazenda Nacional, responsável pela fiscalização sobre os tributos, se encontra. Ele conta que existem 300 vagas de procurador abertas há pelo menos seis anos esperando serem preenchidas.

“Nós não temos carreira de apoio, por exemplo. Há menos de um servidor de apoio para cada procurador. Os juízes, por exemplo, têm de 15 a 20 servidores de apoio. Nós temos 6,8 milhões de processos para cobrar e quase nenhum auxílio”, denuncia.

Para completar, a sonegação de impostos prescreve em cinco anos, o que aprofunda o favorecimento dos sonegadores e sonegadoras. “É muito fácil se livrar com todas essas condições”, lamenta.

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4 comentários para "Sonegação: outra face da injustiça fiscal"

  1. Andrea disse:

    As empresas de pequeno e médio porte sonegam visando a sua sustentabilidade, se essas empresas pagarem TODOS os tributos, elas nem sequer conseguiriam crescer, gerar renda, emprego e ainda manterem-se competitivas. Isso não é achismo meu, são palavras do meu pai, Auditor aposentado do Banco Central. É muito fácil cobrar desses empresários quando as grandes multinacionais conseguem apoios governamentais e isenção de inúmeros impostos por parte do estado. Um grande exemplo é a Renault, onde trabalhei por 3 anos, goza de inúmeros benefícios com a premissa da geração de empregos e sustenta a sua Matriz Francesa afetada pela crise da UE. Mesmo com arrecadações recordes o governo ao invés de inclinar-se para a sua gestão, para o inchaço da máquina pública e ineficiência do funcionalismo, prefere taxar a população e os empresários cada vez mais. Enquanto muitos servidores públicos gozarem de direitos excessivos, incentivos e salários acima do teto constitucional e do mercado, não haverá imposto cobrado que chegue para cobrir todas as despesas desse país.

  2. Tatiana disse:

    Vão cobrar o imposto das fortunas dos donos de igrejas que hoje são o melhor negócio do país.
    Quanta caridade não daria para fazer com esses impostos que deixam de ser arrecadados?

  3. Geraldo Crsitino de disse:

    O Rodrigo fala de sonegação.Aqueles que deviam pagar e não pagam e quando aqueles que devem pagar e não pagam os serviços públicos prestados ficam ruins, educação, saúde saneamento básico etc; portanto para mim quem sonega faz mal à sociedade, afinal República é República, se existe imposto tem que ser pago.

  4. Com todo o respeito, é necessário ponderar os comentários acima, principalmente no que tange a tomar as excessões como regra, prática comum nos comentários.
    Como bem abordado no texto, a decisão política de agir sobre as grandes fortunas e os grandes lucros (sobre o capital) não é tomada. Se não é tomada, é porque há interesses sendo atendidos, tanto do lado da classe política servil ao sistema econômico, quanto do lado dos detentores do poder econômico, pois esses retribuem à classe política benesses pelo bom trabalho prestado ao capital.
    A crítica aos funcionários públicos privilegiados, como por exemplo os militares reformados do alto escalão, é cabível. Mas não cabe generalizar a crítica a toda a classe de funcionários, pois a esmagadora maioria é miseravelmente paga para trabalhar sob as mais precárias condições, controlados por câmeras, ponto biométrico e chefes psicopatas; por isso sua “ineficiência”. Além do mais, esses funcionários pertencem à mesma categoria de “população” taxada que o/a comentarista Andrea classificou. Também são onerados em 50% de encargos, pois também são consumidores.
    O restante do discurso caminha para a defesa do neoliberalismo, do Estado mínimo, o que é uma posição pessoal e, portanto, divergente de outras.
    E quanto à crítica da Tatiana às fortunas acumuladas pelas igrejas, ou por seus “donos”, a questão é complexa, além de ser como areia movediça. O ordenamento jurídico concede diversas isenções às instituições religiosas. Além disso, esse acúmulo tem o aval dos fiéis que o proporcionam e o acumulado não fica, em geral, em nome do “dono”, mas da instituição. Mas, o que quero ponderar, com a devida licença, é que o foco da matéria é a sonegação de impostos pelas empresas. E se as igrejas possuem empresas, é delas que a matéria trata, e não das igrejas como tais.
    Por fim, caso algum dia o Estado consiga arrecadar impostos ao menos das grandes igrejas, a destinação de tal recurso não viria a constituir “caridade”. Assim como qualquer outro recurso, sua aplicação em benefício da população é obrigação do Estado, por meio de seus governantes, como parte imprescindível do “contrato social”. Pois esse Estado que o neoliberalismo quer eliminar (a despeito das evidências de inviabilidade disso), tem o papel de fazer a CONCILIAÇÃO de classes a fim de manter a Ordem e a dominação de uma classe sobre a outra, sem que haja revolta da segunda contra a primeira.
    Obrigado por ler.

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