São Paulo: por que comemorar a não-construção de novo túnel

Prefeitura desiste de obra viária caríssima, que aprofundaria modelo baseado no automóvel. Agora, falta destinar recursos a habitação e mobilidade urbana

Por Raquel Rolnik, em seu blog

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Prefeitura desiste de obra viária caríssima, que aprofundaria modelo baseado no automóvel. Agora, falta destinar recursos a habitação e mobilidade urbana

Por Raquel Rolnik, em seu blog

Ontem o prefeito Fernando Haddad anunciou a suspensão da construção do túnel que ligaria a avenida Roberto Marinho à rodovia dos Imigrantes, previsto na operação urbana Água Espraiada. Sem dúvida o anúncio é muito positivo e sinaliza para uma mudança de prioridades em relação à mobilidade de São Paulo, especialmente neste momento em que a cidade coloca como urgente a necessidade da melhora na qualidade e acessibilidade do transporte público.

Como eu já havia afirmado antes aqui, independente de novas negociações com empresas de ônibus, a prefeitura já tem condição de tomar decisões que vão no sentido da ruptura com o modelo rodoviarista que privilegia o transporte individual por carro. A suspensão da construção desse túnel significa uma economia de cerca de R$ 2,4 bilhões, que poderão ser destinados a intervenções de maior interesse público.

Aliás, nas últimas décadas, a zona Sul, onde se situa a operação urbana Água Espraiada, recebeu uma série de obras viárias de grande porte, como o complexo de túneis Ayrton Senna, o túnel Sebastião Camargo, a ponte estaiada, as próprias avenidas Juscelino Kubitschek e Berrini, a extensão da Faria Lima, o alargamento da Roberto Marinho e sucessivas ampliações da marginal do Pinheiros… Além de serem prioridades discutíveis, considerando o conjunto da cidade, nada disso, obviamente, conseguiu resolver o problema do trânsito.

É importante lembrar que, até hoje, o modelo de operações urbanas implementadas em São Paulo dependeu da venda de cepacs (certificados de potencial adicional de construção) para se viabilizar. Isso produz uma lógica em que as prioridades de uso dos recursos acabam sendo orientadas mais para gerar valorização imobiliária – que se reflete nos preços desses títulos – do que para atender as demandas mais urgentes da cidade.

Até agora, no âmbito da operação urbana Água Espraiada, ações também previstas, como produção de habitação popular, por exemplo, estiveram longe de ser uma prioridade e demoraram para começar a ser implementadas. Essas ações representam uma parcela pequena do total de recursos investidos na operação. As obras viárias foram sempre priorizadas e consumiram a maior parte dos recursos angariados com a venda dos cepacs, como é o caso da ponte estaiada, onde ônibus, ciclistas e pedestres são proibidos de circular.

Além disso, é falacioso também o argumento de que estas obras não consumiriam recursos públicos – já que se trata de venda de cepacs obtidos no mercado. Na verdade, além do enorme investimento administrativo e de gestão para viabilizar estas operações, várias destas obras – como seria o caso do túnel – exigiriam uma complementação de recursos adicionais, para além dos já angariados via cepacs.

Esperamos que esta sinalização de mudança de prioridades da prefeitura, ao suspender a construção do túnel, venha no sentido de corrigir uma dívida histórica com a cidade com o sentido e o modo de implementação das operações urbanas, repensando-as para finalidades de interesse social, como transporte, áreas públicas e habitação de qualidade para a população de baixa renda.

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16 comentários para "São Paulo: por que comemorar a não-construção de novo túnel"

  1. Agora falta cancelar o RodoAnel Norte. Obra de 6 bilhões, pra começar, que vai impactar áreas de proteção na Serra da Cantareira que conta com todo um ecosistema que já está no limite com centenas de nascentes de água. E qualquer pessoa mais informada sabe que não vai resolver o problema do trânsito, nem aqui nem na China. É um projeto de 20 anos atrás, já foi a época.

  2. Ricardo Anibal disse:

    Interessante que o Haddad quer um corredor de ônibus na Bandeirantes, ou seja, esse túnel tiraria carros de uma das principais avenidas da cidade e deixaria mais espaço para os ônibus.
    Aliás, vamos partir do princípio de que ônibus transitam em ruas, avenidas, túneis, ou seja, a cidade inteira seria beneficiada com um túnel ligando a Águas Espraiadas à Imigrantes, que abastece todo o ABCD – inclusive, com transporte público.
    Que avaliação rasa, heim?

  3. paigililherme disse:

    Ricardo Anibal, no túnel não poderiam circular ônibus, pedestres ou bicicletas, portanto ela beneficiaria somente motoristas de carros particulares dessas regiões, e proprietários de imóveis.
    As soluções de mobilidade urbana devem ter sim, foco exclusivo no transporte público, priorizando metro em primeiro lugar (Parcerias com o estado e com iniciativa privada), qualidade nos ônibus e aumento da abrangência da rede.
    Os corredores são sim prioridade pois aumentam a velocidade de deslocamento do transporte público.
    A iniciativa é correta. em qquer país de primeiro mundo a mobilidade por transporte coletiva é prioridade em detrimento de transporte particular individual, em alguns lugares do mundo carros nem podem circular no centro das cidades…
    O coletivo deve sempre vir primeiro nas prioridades do governo, e o Haddad está coberto de razão no plano piloto onde estabeleceu esta prioridade para SP.

    • Ricardo Anibal disse:

      Paigiliherme, essa é uma forma muito superficial de ver as coisas.
      Se as pessoas simplesmente deixarem seus carros em casa, o transporte público, que já não dá conta, não será capaz de atender uma mínima parte da demanda.
      Concordo que a prioridade deve ser o transporte público, e por isso mesmo o túnel era importante: muito mais importante para o transporte público que para os carros.
      Isso porque tiraria carros da Bandeirantes, que é uma das avenidas de trechos mais complicados da cidade, e ainda de parte da Marginal Pinheiros, Berrini e arredores, liberando mais espaço para circulação de ônibus e até mesmo para ciclovias por quilômetros. TODOS seriam beneficiados. Seria uma das obras viárias mais democráticas que a cidade já viu.
      Essa é a maneira macro de se ver as coisas.
      Outro ponto é que a administração pública deve ser para todos. Em vários trechos afastados, ou para os moradores de São Bernardo do Campo, como é meu caso, é IMPOSSÍVEL ir trabalhar na Vila Olimpia de transporte público. Vou de carro e demoro 40 minutos, de ônibus é duas horas e meia. Eu também sou trabalhador como qualquer um, iria de ônibus se pudesse (adoro ir lendo e ouvindo música no ônibus), mas simplesmente não posso comprometer 5 horas do meu dia e sou obrigado a pagar prestações caríssimas de um automóvel porque o transporte público não me atende. Então não, não me peça pra deixar o carro em casa. E não, não mereço ficar em segundo plano.

      • Fabio disse:

        Ricardo, o fato de você demorar muito tempo de ônibus não serve de justificativa para a posição de privilegiar um investimento rodoviário. Ora, se os ônibus demoram 2h40, então os investimentos devem ser feitos para que ele demore 40 ou 50 min, oras! Objetivamente, o monotrilho de SBC até o Tamanduateí e o corredor de ônibus BRT na Bandeirantes dali até a estação Vila Olímpia da CPTM com certeza contribuiriam para a redução substancial do tempo de viagem dos ônibus para valores próximos do feito por automóvel. Mas aí é claro, não há almoço grátis: essa redução de tempo dos ônibus representará um aumento do tempo dos carros. Com relação ao efeito geral do túnel no trânsito, ele só faria sentido se fosse feito EM CONJUNTO com o BRT na Bandeirantes, e essa NÃO era a opção original. O fato é que o BRT Bandeirantes/Salim Farah Maluf fará um anel de alta capacidade/velocidade ligando diretamente a zona leste à zona sul sem passar pelo centro, desafogando as linhas 2, 3 e 4 do metrô e a linha 9 da CPTM; e isso faz muito mais efeito pra cidade do que a eventual diminuição da velocidade dos motoristas desta avenida.

        • Ricardo disse:

          Fabio,
          É uma falácia dizer que eu não priovilegio transporte rodoviário. Milhares de pessoas usam carros simplesmente porque o transporte público não as atende. Também deve tomar cuidado ao falar isso dos motoristas, afinal, se eles se zangarem e andarem de ônibus, você vai ter que esperar muito até passar um ônibus que você consiga entrar, de tão cheios, e estes, mesmo em corredores, não andarão acima de 20 km/h. Olha lá heim…
          O ideal é fazer o túnel e o corredor na Bandeirantes, o que faz todo o sentido. Você tira veículos da avenida, manda eles para o túnel e abre caminho para ônibus e até ciclovia na Bandeirantes. Quem ganharia com isso? TODOS!
          Neste caso, a prioridade deveria ser o túnel, pois não seria necessário esperar os corredores ficarem prontos: bastava criar linhas que percorressem a Bandeirantes, ou desviar algumas existentes. Sim, dá pra fazer em curtíssimo prazo.
          Não há como reduzir ainda mais a velocidade dos carros. Cabe dizer que a industria automobilística é talvez a maior empregadora do país, então deve-se tomar muito cuidado ao tratar motoristas trabalhadores e honestos como marginais. Pelo contrário!! Sem os impostos destes a prefeitura nem poderia pensar em monotrilho.
          A administração pública deve trabalhar para TODOS!
          Para tanto, os investimentos na mobilidade urbana devem contemplar todas as realidades possíveis, afinal, realmente não existe almoço grátis 😉

          • Eduardo disse:

            É uma piada que o nosso prefeito e o sercretário de transporte venham dizer que vão privilegiar o transporte público e as pessoas que se acostumem a deixar o carro em casa…
            Investir em transporte público está correto, com metrô, trens e criação de NOVAS faixas para ônibus. Pegar uma avenida já saturada e dizer que por uma de suas faixas vai passar só ônibus e que quem tem carro tem que se acostumar é um absurdo.
            A verdade é que hoje quem tem carro faz um favor ao governo… Sugiro que por uma semana todos deixem seus carros em casa e usem o transporte público para ir para o trabalho… A cidade explode… Ninguém vai trabalhar e a economia vai pro buraco!
            Eles tem que dar graças a Deus que as pessoas que podem(e as que não podem) arcam com prestações/IPVA/Seguro/Estacionamento etc… Se dependesse do transporte público atual a cidade tava parada.

  4. Rodrigo Silva disse:

    Quem pagará pelos cancelamentos dos contratos das obras (prolongamento da Roberto Marinho) ja assinados?

  5. timao disse:

    só venho dizer uma coisa, parabens ao governador, ao prefeito e a todos pela iniciativa da população. Mas quando começa estas mudanças. Pois se for demorar faz logo o tunel da roberto marinho, pelo menos este eles já estavam começando.

    • carlos disse:

      Pessoal tem que fazer Obra só assim a cidade anda, porque SP, nunca foi uma cidade planejada, isto aqui é uma Metropole e para tanto que que estar revitalizada constantemente,Imagina ´so SP a 20 anos atrás se o Maluf não tivesse feito as obras viárias que fez, quem tem mais de 40 sabe do que estou falando

  6. Realista disse:

    As obras deveriam ser retomadas urgentemente. O projeto desta avenida existe há mais de duas décadas.
    O problema é ainda maior, o transporte mais eficiente e mais durável é o metrô, a extensão das linhas não chega a 80 km.
    Não é privilégio dar continuidade a esta obra aos cidadãos, que aliás, contribuem e muito para terem acessibilidade de qualidade, direito assegurado pela CF, algo muito longe da prática.
    Agora o que mais deixa indignado, é criarem verdadeiras favelas verticais, prejudicando os contribuintes que serão vizinhos destes prédios…. sem pré-conceitos, são em suas maioria baderneiros e acomodados, visto que conforme pesquisas atuais, a melhora dos indicadores demonstra que a maioria dos moradores de favelas já se enquadram na classe média, Há vários terrenos vagos em regiões valorizadíssimas como Alto da Boa Vista, Chácara Flora, regiões próximas que não tiveram nenhum incômodo como as HIS na região do Jabaquara. Será por influência dos vereadores que moram nestes bairros, que só querem dos paupérrimos seus votos, será pelo incômodo que estes iriam gerar sendo seus vizinhos?
    Me ajudem aí, criem as HIS em todos os bairros, e não centralizá-los no Jabaquara, bairro violento e quase sem nehum investimento público. Quero ver criar a HIS em bairros com os citados acima, aí verei que não há privilégio algum, que a Administração é imparcial.
    O investimento tem que ser constante, através de obras para facilitar a mobilidade, criar moradias populares, investir no todo, assim como fazer campanhas de planejamento familiar, pois quanto mais estudo se tem, menos filho se tem, quanto menos estudo se tem, mais filhos se tem, algo muito encontrado em pólos periféricos. A fila de espera nas creches municipais é altíssima, culpa em parte da má gestão, culpa em parte dos próprios pais muito jovens, que concebem uma criança sem o mínimo de estrutura/condições de criá-los.

  7. Muito obrigado pela notícia,
    agora, posso fazer novos planos
    pra vinha vida e de minha família.
    Aqui fala um morador com ensino superior, e
    com uma boa casa de 160 m2 legalizada..
    Só disse isto com o propósito de abrir a mente
    dos opinadores que acham que conhecem
    a verdade só porque assistiram uma reportagem
    na tv na hora do faustão ou novela…
    Aqui, não tem só favela e bandido,
    aqui é um bairro de miscigenação, etnias, culturas
    e classes sociais, assim como o Brasil.
    Agora, Imaginem se fosse onde vocês moram ?

  8. Tarciso disse:

    O que é necessário é fazer a conexão entre o ponto interrompido da Roberto Marinho e a Imigrantes. Seja isto feito de forma subterrânea ou pela superfície, o que não pode é ficar do jeito que está!

  9. carlos disse:

    Concordo com vç. Tarcisio, esta tudo parado e só tem a placa da SP OBRAS enfeitando, porque obra que é bom nada, e o pior é que o povo ribeirinho já recebeu ou esta recebendo bolsa aluguel a mais de 3 anos, e nos estamos pagando por isso. e o pior vç. não sabe, os trechos onde passará o prolongamento da avenida que foram desfavelizados no embocamento da Av. Roberto Marinho com a Lino de Moraes leme, estao ocupando tudo de novo. e só ir lá para ver.

    • Rafael disse:

      Só uma retificação ao que o Sr. Carlos acima escreveu –
      Não recebemos e não estamos recebendo nenhuma bolsa aluguel ok…
      O que a prefeitura fez foi apenas o cadastro das famílias que moram na área em que o projeto iria passar…
      Ficaram prontos os apartamentos da rua corruíras e a favela que ficava em frente ao Saboia se mudou para lá, conforme iam mudando também iam derrubando as casas e o terreno em que estavam se encontra limpo e cercado, provavelmente ali sairá um respiro da linha ouro do monotrilho…
      3 anos atrás, a prefeitura pagou 5 mil reais a quem morava em cima do córrego para deixarem os barracos e provavelmente voltarem para sua cidade natal, em toda sua extensão, e fizeram a limpa retirando todos os barracos NO CÓRREGO. O que está acontecendo hoje é nova invasão desta área já que o projeto tão cedo não sairá do papel…

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