Saída pela porta dos fundos

Nem a entrega do Pré-Sal, nem o esforço deliberado de destruir o Mercosul, comoveram Washington. Esnobado, ministro viu sua “nova” política naufragar

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Nem a entrega do Pré-Sal, nem o esforço deliberado de destruir o Mercosul comoveram Washington. Esnobado, ministro viu sua “nova” política naufragar — com ou sem dores nas costas

Por Josué Medeiros, Gonzalo Berrón e Lys Ribeiro

Menos de um ano após tomar a frente do Ministério das Relações Exteriores, José Serra pediu exoneração do cargo na noite desta quarta-feira 22 a Michel Temer, devido a problemas de saúde.

Para além dos motivos alegados, o timing do pedido de demissão revela as dificuldades e erros na formulação e implementação da chamada Nova Política Externa Brasileira, cujas diretrizes anunciara quando tomou posse como Chanceler em maio do ano passado.

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Ao mesmo tempo em que este fracasso coloca em risco até as ambições presidenciais do agora senador Serra (PSDB-SP), apresenta o lado selvagem das pessoas para quem ele serviu, e serviu bem: os inimigos da integração regional e as petroleiras estrangeiras (assim como os Estados que as defendem).

Entre a tentativa fracassada em convencer a comunidade internacional da legitimidade do golpe, gafes, diretrizes anacrônicas, presenças decorativas, e retóricas desproporcionais em relação aos vizinhos latino-americanos, pouco ou quase nada de relevante sobra da sua breve passagem pelo Itamaraty.

Salvo dois pontos: a alteração do marco regulatório do Pré-Sal em favor das multinacionais petroleiras do exterior e o esvaziamento do Mercosul.

Ora, abrir mão da soberania energética nacional e desmantelar concertações políticas regionais são dois dos fatores fundamentais para levar a cabo uma política externa submissa, cujo pano de fundo é sempre a proposital ignorância de centro e periferia nas relações globais, bem como a posição do Brasil neste certame.

Para contento dos saudosos de Carlos Lacerda, Serra prestou aos capitais internacionais o maior serviço jamais imaginado ao formular e incentivar a votação favorável do projeto de Lei 4567/16, que modificou definitivamente a Lei de Partilha do Pré-Sal, incorrendo em enormes prejuízos para o País.

Não é difícil encontrar nessa dádiva a origem da blindagem midiática e jurídica que beneficiou o ex-chanceler não obstante as revelações obtidas através dos acordos de delação premiada firmados com executivos da Odebrecht, que apontam o recebimento de R$23 milhões de reais para o caixa 2 da sua campanha presidencial de 2010.

Isto para não falar da extensa lista de irregularidades e práticas contra a coisa pública que implicam Serra desde, pelo menos, a década de 1990. Serra não apenas se manteve de forma imperturbável no cargo, como sequer deu maiores explicações a respeito das denúncias.

A questão do impedimento à presidência pro tempore venezuelana em conluio com Paraguai e Argentina, e a tentativa de expulsão do país caribenho do bloco é capítulo à parte no qual José Serra logrou ampliar o golpe para o âmbito regional.

Ao refutar o aprofundamento da integração regional como meio de fortalecimento das nações constituintes do bloco em relação ao resto do mundo, nos moldes da Política Externa Ativa e Altiva do saudoso chanceler Celso Amorim e, sem condições de promover uma abertura comercial absoluta como previa o visionarismo míope do “quarteto” Temer/Serra e Macri/Malcorra, em tempos de recrudescimentos nacionalistas e protecionistas, o resultado é um Mercado Comum do Sul paralisado e cada vez mais irrelevante no cenário internacional.

No sentido de desfavor à diplomacia brasileira e desenvolvimento do País, Serra serviu enquanto serviu e cumpriu suas promessas em relação às elites internacionais. Oxalá não teve tempo para finalizar as tratativas para entregar também a base de Alcântara e o espaço aéreo brasileiro, mas encaminhou.

Dentre gafes cometidas nas suas viagens à Europa e América Latina, cumpriu à risca o que o mentor seu antigo mentor FHC pedira: esqueceu a diferença entre centro e periferia.

Um deslize, no entanto, foi mais caro ao senador tucano: o indiscreto comentário sobre um possível êxito republicano na corrida presidencial dos Estados Unidos. Ao afrontar Trump, qualificando sua possível vitória como desastre, infringiu a regra plúmbea que distingue centro e periferia.

Foi, portanto, descartado, apesar dos imensos serviços prestados, como fora antes o ex-Deputado Eduardo Cunha: ambos serviram enquanto serviram.

A elite “criolla” não poderia aceitar o tapa na cara que foi o silêncio de Trump após a posse, nem uma ligação telefônica sequer ao golpista mor depois de mais de um mês de mandato, marginalizando ainda mais o Brasil do golpe e estragando o plano da estratégia pífia de Serra, que, segundo ele, deveria nos levar para a mesa dos senhores.

Nessa última semana a Casa Branca alegou “problemas de agenda”, o que sabemos, é uma das piores humilhações que podem existir nos códigos da diplomacia. Sendo assim, serviu enquanto serviu. Que a elite “criolla” aprenda: Washington não acredita em lágrimas.

Assim como o golpe que a pariu, a gestão de Serra à frente do Itamaraty foi marcada por atitudes que nunca seriam eleitas pela maioria da população brasileira, e sim eram reflexos de conchavos e grandes interesses que regem a maior parte do sistema político tradicional brasileiro que conhecemos, assumido sem pudores pelos atuais governistas.

Escolhas como a de abrir mão do Pré-Sal, originalmente pensado como fonte de um fundo financiador da educação e saúde de nossas futuras gerações; ou por jogar contra a integração latino-americana, princípio constitucional de nossa política externa, são mais uns entre os infinitos sinais que escancaram o breve e triste governo Temer.

A demissão de Serra, no entanto, é motivo de apreensão. O que virá após o fim da desastrosa política externa transilvânica será certamente mais desastre se considerarmos os nomes cotados para sua substituição na pasta.

Todos eles parecem extraídos de quadros da UDN: Sérgio Amaral, Marcos Galvão, Rubens Barbosa, Aloysio Nunes, José Aníbal e Tasso Jereissati. Serra pode até estar ausente da liderança na formulação e aplicação da política externa brasileira, mas com candidatos como os citados, o vampirismo deverá prosseguir e indubitavelmente continuaremos a presenciar tempos sombrios para a diplomacia brasileira.

Seja quais forem os motivos da saída e qual for o novo chanceler, os requisitos que fundaram a situação em que hoje nos encontramos continuarão aprofundando o abismo entre a política oligárquica, violenta, entreguista, precarizadora e as vontades de um povo cada vez mais indignado com a situação em que nos encontramos.

*Gonzalo Berrón é Doutor em Ciência Política e Diretor de Projetos da FES. Josué Medeiros é professor de Ciência Política. Ambos são membros do Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais/GRRI. Lys Ribeiro é convidada do GR-RI.

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3 comentários para "Saída pela porta dos fundos"

  1. O trabalho que este cretino vendilhão prestou para os grupos “banksters”, com relação à modificação da exploração do pré-sal, é uma questão abominável… em qualquer país, esse verme seria defenestrado… é um pilantra que vende a mãe por qualquer dinheiro… deveria ter o seu registro de nascimento cancelado… esse pulha não tem o direito de dizer que nasceu no Brasil… é muita sordidez… se estiver com cancer, vai gastar todo o dinheiro obtido de seus comparsas… e não terá nenhum resultado…

  2. Jorge disse:

    Particularmente, acho que ele é a cara daqueles seus eleitores, do seu estado, os mesmos espertos e inteligentes paneleiros que mais fortemente bancaram o Golpe no Brasil e que se acham melhores que o resto dos brasileiros.
    Da mesma forma que o ex ministro da justiça (KKKK) e agora, ministro do grande stf (KKKK).
    Está tudo muito certo! Ambos são representantes perfeitos de quem os elegeu!

  3. Arthur disse:

    Serra é o exemplo acabado da canalhice que compõe o (des)governo Temer. A lata de lixo da história será o seu destino final.

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