Em Londres, encapuzados com causa

Jovens ativistas destróem artefatos anti-mendigos, obrigam rede de lojas a se retratar e anunciam intenção de combinar ação direta com formação política

Por Simon Childs, na Vice

140630-antimendigos

Jovens ativistas destróem, nas madrugadas, artefatos anti-mendigos, obrigam rede de lojas a se retratar e anunciam intenção de combinar ação direta com formação política

Por Simon Childs, na Vice

Falei com o grupo de ativistas que concretou os espetos antimendigo numa loja Tesco na Regent Street, Londres. Demorou um pouco porque eles estavam ocupados fugindo e tentando não ser pegos pela polícia. Mas hoje, mais cedo, eles entraram em contato, dizendo que não notei a tag que eles deixaram no concreto: “LBR. Casas, Não Espetos”. LBR – a sigla do grupo ativista a que eles pertencem – significa “London Black Revolutionaries” (“Revolucionários Negros de Londres”), ou Black Revs para encurtar. Encontrei alguns membros do LBR na semana passada e os acompanhei enquanto eles corriam pelas ruas de Londres, alertando imigrantes ilegais de que seus locais de trabalho poderiam ser invadidos pela polícia em breve.

A abordagem de ação direta do LBR parece estar funcionando – a Tesco anunciou que vai remover os espetos, afirmando que eles nunca tiveram como objetivo afastar os sem-teto. “Clientes disseram que estavam intimidados pelo comportamento antissocial de pessoas que ficavam em frente à nossa loja na Regent Street, então colocamos aqueles espetos para tentar impedir que isso acontecesse”, disse o porta-voz. “Os espetos causaram preocupação para alguns, que os interpretaram como uma medida contra os sem-teto, então decidimos removê-los.”

Liguei para o LBR para saber mais sobre esse ato de vandalismo, quem são eles e por que ser negro é uma parte tão importante do que eles fazem.

Vocês estão assumindo a responsabilidade por concretar os espetos do lado de fora da Tesco, certo?

Sim.

Por que vocês fizeram isso?

Tomamos uma ação direta porque queríamos ligar a objeção política aos espetos antimendigo a uma mensagem real, pressionando para que eles fossem removidos. Não partimos para a ação direta todas as vezes, mas pensamos que – dado o ultraje contra os espetos – enviar uma mensagem clara à Tesco de que eles não seriam deixados em paz poderia ajudar na questão.

E vocês ficaram satisfeitos em como a coisa acabou?

Subestimamos muito a quantidade de concreto que tínhamos. E misturar foi muito mais difícil do que pensamos que seria. Provavelmente precisávamos de equipamento de construção para fazer isso direito. Mas ficamos bastante satisfeitos com o resultado depois, porque não queríamos fazer uma cobertura perfeita sobre os espetos. Queríamos fazer uma bagunça que eles tivessem que limpar depois, para que eles pensassem seriamente antes de colocar espetos novamente. Recebemos dicas de alguns pedreiros que estavam vendo tudo do outro lado da rua. Da próxima vez, nosso trabalho com concreto vai ficar muito melhor.

Obviamente, muitas pessoas vão dizer que vocês passaram dos limites. Que isso foi vandalismo.

É. Não nos preocupamos nem um pouco com isso. Considerando o tipo de organização que somos e a origem de nossos membros… não pensamos duas vezes. Vamos fazer o que for necessário. Tudo que fazemos é político. Não só uma ação direta abstrata – simplesmente violência e destruição de coisas.

Vocês disseram que vão fazer isso de novo. Quem mais deve se preocupar com uma ação de vocês?

Absolutamente toda organização que esteja planejando colocar esses espetos. O que esses lugares deveriam fazer é doar esse dinheiro para abrigos locais, cozinhas de sopão ou bancos de alimentos, porque isso realmente pode ajudar. Isso não vai resolver o problema dos sem-teto, mas vai aliviar um pouco a dor e o sofrimento da vida dessas pessoas.

Quem são os Revolucionários Negros de Londres? 

Somos um grupo socialista fechado de revolucionários negros e asiáticos. Há princípios antirracistas, antifascistas, anti-homofóbicos e antissexistas no centro disso. O grupo se formou em Londres e agora opera em diferentes localidades, mas não direi onde. Somos todos jovens, negros e politizados. Estamos muito descontentes com a falta de militância de outras organizações, que acabam transformando a organização política em retórica e num estilo de vida. Muitas dessas organizações, apesar de serem da classe trabalhadora, têm aspirações e ansiedades de classe média, o que faz com que elas percam qualquer conexão real com a classe trabalhadora comum.

Em que tipo de estrutura vocês trabalham?

Somos democráticos. Somos organizados em ramos locais. No momento, somos três. Isso está crescendo rápido e logo podemos ter alguns ramos no norte, o que vai pôr em questão o nome “Revolucionários Negros de Londres”.

E em quantos vocês são?

Menos de 20, mas não vou especificar.

Acompanhei vocês outro dia, enquanto sabotavam as operações do Ministério do Interior. Em que outras coisas vocês estão envolvidos?

Campanhas contra a brutalidade policial, racismo institucional e a taxa de quartos, além de resistência antidespejo… Entre nossos planos está montar uma cozinha – pode parecer um pouco romântico, mas a ideia é ir até locais mais pobres e distribuir comida. É uma maneira de mostrar que somos seriamente dedicados à nossa organização política. Ao mesmo tempo, é um jeito de começar um diálogo. Alguns membros vão montar um site de torrent para cursos grátis, para minar a privatização da educação – levando mais conhecimento para as pessoas que ficaram de fora dela em razão dos cortes e das taxas.

Em setembro, vamos passar por faculdades FE [Further Education, similar a cursos técnicos] de Londres para recrutar e politizar as pessoas. Nas [revoltas estudantis de] 2010, vimos que a maioria dos militantes eram de faculdades FE e aquelas pessoas voltaram à apatia. As pessoas têm se politizado cada vez mais jovens, mas também são antipolíticas em termos de partidos locais. As pessoas estão insatisfeitas e se sentem impotentes para fazer as coisas. Queremos mostrar que isso pode ser feito, e você não precisa de um PhD nem ser rico. Você pode ser o mais pobre dos pobres e fazer uma mudança política.

Vocês estão envolvidos em mais alguma coisa? Você mencionou que o grupo é antifascista.

É, também estamos envolvidos em ações antifascistas. Em fevereiro, interceptamos um grupo do Jobbik [fascistas húngaros] no centro de Londres. Mostramos a eles o que acontece quando os fascistas vêm para Londres. Não queremos somente protestar – bom, queremos fazer uma grande manifestação e envolver muitas pessoas, mas não queremos apenas fetichizar protestos quando não há nenhum impacto. Queremos enfrentar os fascistas. Até 2015, queremos que Londres tenha uma reputação de zona livre de fascismo.

Por que vocês se concentram na política de raça?

Tenho uma família mista. Tenho pessoas brancas na minha família. Mas sou negro e asiático e isso definiu minha experiência social desde o primeiro dia de escola até o dia em que saí da universidade. É isso o que acontece com muitas pessoas negras e asiáticas. Vivemos num país de maioria branca, então a maioria das organizações políticas também é branca. Não que isso seja um problema, mas acaba significando a falta de um ângulo específico ou experiência dentro dessas organizações. Essa pode ser uma experiência muito isolada. Essas organizações de esquerda querem se organizar entre as pessoas de classe trabalhadora, mas não conseguem se relacionar com uma camada mais ampla. Então não é só ênfase em raça, mas também em sermos da classe trabalhadora e pobres.

Não é um pouco duvidoso excluir brancos? Isso não impede vocês de “se relacionarem com uma camada mais ampla”, como você disse?

Estamos nos organizando sobre questões em particular, como racismo institucional, que nossos colegas brancos da classe trabalhadora não enfrentam da mesma maneira. Mas damos valor aos nossos aliados políticos. Não quero pensar que estamos isolando outras pessoas. Começamos uma base para criar nosso grupo. Não podemos querer falar por pessoas que estão fora de nossa experiência racial e social. Talvez, quando formos maiores, possamos ser uma organização da classe trabalhadora mais ampla como militantes – estamos abertos a todas as possibilidades. Não podemos escapar de maneira alguma de nossa posição. A única coisa que nos dá o poder de aliviar algumas das merdas que temos experimentado é o poder político, que conseguimos através da organização.

Vocês são como os grupos de direitos LGBT, então? Comandados por pessoas LGBT, o que não significa que eles odeiam heterossexuais.

Exatamente. Espero deixar claro que não somos antibrancos de maneira alguma. A maioria dos ativistas que conheço são brancos.

Vocês parecem ter planos bem grandes para uma organização tão pequena.

Somos uma organização modesta, mas somos altamente efetivos por nosso tamanho. Vamos continuar por aqui. Estamos preparados para fazer o que for preciso. A maioria de nós não tem nada a perder mesmo.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos

Leia Também:

Um comentario para "Em Londres, encapuzados com causa"

  1. Paulo disse:

    Vejo na ação politica do grupo algo digno de reflexão,isso a nível mundial,acima de qualquer circunstância a liberdade de expressão e ação no contexto politico é o que gera a transformação social.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *