Quem são e que pensam os "Novos Tradicionalistas"

Na galeria do neoconservadorismo brasileiro faltava um tipo: Ulisses Campbell, repórter de “Veja” que ameaça e fabrica “provas”, é seu símbolo

Por Wilson Ferreira, em seu blog

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Ulysses Campbell, repórter de “Veja”: métodos antiéticos e fascínio por vinis coloridos

Na galeria do neoconservadorismo brasileiro faltava um tipo: Ulisses Campbell, repórter de “Veja” que ameaça e fabrica “provas”, é seu símbolo 

Por Wilson Ferreira, em seu blog

Tudo começou com uma nota da revista Veja Brasília redigida por um repórter chamado Ulisses Campbell sobre festa em buffet infantil na cidade, de um suposto sobrinho do ex-presidente Lula. O custo da festa teria sido de 200 mil reais pagos em dinheiro pelo ex-presidente. Com os desmentidos feitos pelo Instituto Lula e comprovada a mentira, o repórter foi para São Paulo disposto a produzir provas que sustentassem sua bizarra pauta.

Usando nomes falsos passou a assediar a família de “Frei Chico”, como é conhecido o irmão de Lula, através de ligações telefônicas como representante do buffet de Brasília ou como estudante da USP fazendo uma suposta pesquisa. Após ameaças de que “publicaria o que quisesse”, invadiu o condomínio da família passando-se por um entregador de livro para obter de uma babá informações sobre horários de chegada dos moradores, além de obter RG e CPF dela.

Tudo terminou em um BO registrado pela família em uma delegacia e o repórter localizado pela Polícia Militar após fugir do condomínio.

Não importa a vertente política ou ideológica: temos que admitir que, em termos de técnica jornalística, a atitude do repórter da Veja foi ética e moralmente abominável – para sustentar uma pauta, inventam-se afirmações, arrancam-se declarações a fórceps mediante ameaças, para depois colocá-las no contexto que o redator quiser.

Mas nada disso é surpreendente. Deixou de ser escandaloso por já ter-se transformado em modus operandi diário da grande mídia nesses tempos em que ela obrigatoriamente assumiu o papel de oposição política ao Governo Federal diante de uma oposição parlamentar inepta.

O mais preocupante de toda essa história é a figura do repórter Ulisses Campbell: de qual ovo ele foi chocado? Esse modus operandi da grande mídia só pode funcionar se ela encontrar uma farta mão de obra de jornalistas dispostos a mandar às favas qualquer lastro ético que ainda resta à profissão.

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Uma tipologia do neoconservadorismo

Casos como esse de um repórter pego com a boca na botija tentando fabricar “provas” para uma pseudonotícia são apenas a ponta do iceberg de um caldo sociocultural que está sendo gestado já há algum tempo, e que começa a entrar em ebulição com a atual temperatura política.

Está ainda para ser feita uma pesquisa etnográfica da tipologia do neoconservadorismo: os novos tipos-ideais, grupos ou tribos urbanas que foram incubados e que agora estão florescendo em uma atmosfera de polarização e radicalização.

Faz-se urgente fazer um verdadeiro inventário dos tipos da fauna humana atual, algo como fez o cartunista Angeli no final da década de 1990 com uma série de tirinhas chamadas “República dos Bananas”: representações cômicas de tipos urbanos cotidianos dos meios culturais, corporativos, privados e políticos – ressentimentos, frustrações, fantasias e mediocridades de todas as classes como advogados, artistas plásticos, jornalistas e flanelinhas.

Este blog já vem tentando iniciar esse esforço de mapeamento dos novos tipos-ideais no neoconservadorismo, traçando o perfil dos “coxinhas”, “coxinhas 2.0”, “simples descolados” etc. – sobre isso clique aqui.

Certamente a carreira e estrepolias do repórter Ulisses Campbell apresentam características e sintomas de um novo tipo-ideal dentro da atual onda neoconservadora. Poderíamos chama-lo de “Novo Tradicionalista”.

Hal Niedzviecki no seu livro Hello, I’m Special: How Individuality Became The New Conformity sustenta que o novo tradicionalismo prospera em uma espécie de sensibilidade pós-milênio de que alguma coisa foi perdida na atual sociedade tecnológica – algum propósito ou conexão que a geração anterior possuía e que a atual obviamente perdeu.

Nostalgia por épocas que não foram vividas e o gosto estético pelo retrô fazem parte desse novo tipo-ideal que acaba transformando esse inclinação para o passado em pretexto para o reacionarismo e práticas políticas golpistas como únicas formas de combater um contexto atual que, acredita, esteja corrompido. Esses traços podem ser encontrados no destemido repórter Ulisses Campbell, como veremos.

Jornalista e DJ

O que chama a atenção no repórter “investigativo” Ulisses Campbell é que ele é um dublê de jornalista e DJ nas baladas de clubes e festas privadas nas noites de São Paulo e Brasília. Segundo o próprio repórter, em uma entrevista concedida ainda nos tempos do jornal Correio Brasiliense, após ganhar dois prêmios Esso regionais com matérias sobre prostituição infantil nas grandes cidades e crianças mutiladas em carvoarias, ficou “estressado com o trabalho”. E a partir de 2003 passou a se aventurar na carreira de DJ.

Começou então a ser “super requisitado para festas particulares e o preferido do pessoal fervido” do Itamaraty e dos jornalistas baladeiros de Brasília. Uma vez por mês, Campbell toca no Gate’s Pub, na festa concorrida chamada Cabaret, no sábado”, diz o lead da entrevista de 2006 – clique aqui para ler.

Sua marca é a discotecagem com discos de vinil por ser “um som mais puro e vibrante” e o repertório dos anos 80 e 90 por serem “musicalmente as décadas mais ricas”. E disponibiliza sets musicais completos gravados com LPs para download no SoundCloud.

Um curioso mix de conservadorismo estético, com a prática da reportagem “investigativa” e discotecagem de festas privadas no Lago Sul de Brasília.

Campbell aparece em muitas fotos ao lado da sua coleção de antigos discos de vinis, usando t-shirts com motivos sobre as velhas bolachonas, posando ao lado de pick-ups com vinis coloridos – que até lembram a velha coleção da Disquinho, pequenos vinis dos anos 1970 com histórias infantis.

A marca dos novos tradicionalistas é inclinar-se para o passado para querer entender o presente. Para eles, “tradicional” e “inovação” não são excludentes – estranhamente, ser “cool” é ser tradicional.

O cantor e compositor Ed Motta é outro Novo Tradicionalista com sua coleção de 20 mil vinis organizados em ordem alfabética – notório pelo seu apreço também a antiquários, objetos e roupas “de bom gosto” do passado e o seu apego a “gente bonita do Sul” para onde gosta de ir de avião para fugir do “povo feio brasileiro”.

Talvez seja atrás dessa “gente bonita” que também esteja o destemido repórter “investigativo” Ulisses Campbell: discotecar festas privadas e a “ferveção” de clubes ao som do “Psicokiller” dos Talking Heads ou “Heart of Glass” do Blondie, sucessos da new wave dos anos 1980.

Por que o novo tradicionalista é neoconservador?

Todos os Novos Tradicionalistas partilham do conservadorismo político, o retorno ao passado para buscar fantasmas que justifiquem seu reacionarismo – “comunismo”, “ouro de Cuba”, a ameaça da “União Soviética” – sendo que essa nem mais existe, mas há Novos Tradicionalistas que falam dela e dos seus planos para dominar o Brasil em vídeos indignados no YouTube.

Os “nerds” da Folha sabem o público que possuem: o conservadorismo político atual se associa a tudo aquilo que um dia foi inovador e moderno, para hoje se converterem no signo de um novo tradicionalismo. Não é à toa que o jornal Folha de São Paulo criou um jogo online retrô para o leitor “entender os problemas do governo Dilma”. O jogo tem o design dos primeiros jogos de computadores do Pacman – e chama-se “Dilman”. Um bonequinho representando a presidenta tenta “capturar” inimigos, ao som das antigas musicas de computador em MIDI – sobre isso clique aqui.

Mas os Novos Tradicionalistas não se tornam neoconservadores por quererem fazer oposição ao Governo Federal. Isso é natural e faz parte do jogo democrático. O problema é que o conservadorismo estético resulta em reacionarismo social (o fascínio pelos lugares onde “gente bonita ferve”), preconceito e golpismo – como a intrépida aventura do repórter Campbell em tentar fabricar provas para uma pauta fictícia.

Como Novos Tradicionalistas, exemplares como Ulisses Campbell são ambiciosos e buscam um lugar de destaque junto aos seus (a gente-bonita-que-ferve): tornam-se a mão de obra ideal para as pautas decididas em reuniões que não são mais feitas nos “aquários” das redações, mas agora nos porões escuros das empresas jornalísticas.

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3 comentários para "Quem são e que pensam os "Novos Tradicionalistas""

  1. Bem sagaz a conexão entre a atração pela sofisticação fetichista e o conservadorismo; sintomas da paralisia do imaginário político contemporâneo.

  2. coleção disquinho é tudo de bom!!

  3. Ademir Benedito Alves de Lima disse:

    Estarrecedor

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