Piketty opina: "Syriza pode libertar Europa"

‘A Alemanha finge ter se esquecido do superperdão de suas dívidas após a II Guerra. Se não tivesse sido perdoada, teria se desenvolvido tanto?

Por Eugenio Occorsio | Tradução Carta Maior

 

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Para economista, redução da dívida, exigida pelo novo governo grego, é única maneira de salvar continente da ditadura financeira e retrocesso social e político

Por Eugenio Occorsio | Tradução Carta Maior

“Não entendo por que as chamadas chancelarias europeias estão tão aterrorizadas com a vitória do Syriza na Grécia. Ou melhor, eu entendo, mas é hora de desmontar suas hipocrisias”. Thomas Piketty (1), que leciona na École d’Économie parisiense, “o economista mais conceituado de 2014”, tal como definiu o Financial Times, vem à tona com toda a sua garra em um editorial publicado ontem pelo jornal Libération. “Na Europa, faz falta uma revolução democrática”, ele escreveu, e repete alto e bom tom ao telefone, no aeroporto de Paris, antes de embarcar para Nova York, a cidade que lançou seu O capital no século XXI como livro do ano graças ao respaldo do prêmio Nobel Paul Krugman.

Professor, Tsipras abriu o caminho — defendendo, no entanto, o estandarte da saída do euro?

Sim, mas agora suavizou muito as suas posições. Revelou-se, ao contrário, como um líder fortemente europeísta.. Desde já, o Syriza fará valer suas posições na Europa, mas isso não será um mal. Ao contrário.

Em resumo, algo acontecerá. Mas estamos certos de que será algo inovador?

Veja, consideremos a situação com realismo. A tensão na Europa chegou a um ponto em que, de uma forma ou de outra, explodirá em 2015. E as alternativas são três: uma nova crise financeira tremenda; a consolidação das forças de direita que formam uma coalizão cujas bases estão se formando agora, centradas na Frente Nacional na França, incluindo a Lega Nord e o 5 Stelle; ou uma sacudida política que venha da esquerda: o Syriza, os espanhóis do Podemos, o Partido Democrático italiano, o que resta dos socialistas. Você escolhe qual das soluções? Eu escolho a terceira.

A famosa “revolução democrática”, em resumo. Quais deveriam ser as primeiras ações?

Dois pontos. Primeiro, a revisão total da atual política baseada na “austeridade”, que está asfixiando qualquer possibilidade de recuperação na Europa, a começar pelo sul da zona do euro. E essa revisão tem que prever como primeiríssima coisa uma renegociação da dívida pública, uma ampliação dos prazos e, eventualmente, perdões de verdade de algumas partes. É possível, eu asseguro. Já se perguntaram por que os EUA vão de vento em popa, assim como a Europa que está fora do euro, por exemplo a Grã-Bretanha? Mas por que a Itália deve destinar 6% do PIB para pagar os juros e apenas 1% à melhoria de suas escolas e universidades? Uma política centrada apenas na redução da dívida é destrutiva para a zona do euro. Segundo ponto: uma centralização nas instituições europeias de políticas de base para o desenvolvimento comum a partir da política tributária e, no mais, reorientar esta última para onerar mais as maiores rendas pessoais e industriais. Nesses assuntos fundamentais, deve-se votar por maioria de países — e não mais por unanimidade –, e vigiar depois para que todos se ajustem. Uma maioria centralizada vale também em outras frentes, à semelhança do que se está começando a fazer com os bancos. Só assim se poderá homogeneizar a economia e desbloquear a fragmentação de 18 políticas monetárias com 18 tipos de juros, expostas ao açoite da especulação. Não se dar conta disso é ser míope, e o que é pior, profundamente hipócrita.

As “hipocrisias europeias” das quais falava no início: a que o senhor se refere, mais concretamente?

Vamos pela ordem. O mais hipócrita é Jean-Claude Juncker, o homem a quem se entregou, inconscientemente, à Comissão Europeia depois que ele levou Luxemburgo durante vinte anos a uma sistemática depredação dos benefícios industriais do resto da Europa. Em segundo lugar, está a Alemanha, que finge ter se esquecido do superperdão de suas dívidas após a II Guerra Mundial. Elas foram reduzidas, num só golpe de 200 para 30% do PIB, o que permitiu financiar a reconstrução e o impressionante crescimento dos anos seguintes. Aonde teria chegado se fosse obrigada a reduzir, a duras penas, sua dívida em 1% ou 2% ao ano, como está obrigando o sul da Europa a fazer? O terceiro lugar nessa embaraçosa classificação de hipocrisias pertence à França, que agora se rebela diante da rigidez alemã, mas que esteve na primeira fila prestando apoio à Alemanha quando esta impôs a política de austeridade, e pareceu igualmente decidida quando o Fiscal Compact de 2012 condenou às economias mais frágeis a reembolsar suas dívidas até o último euro, apesar da devastadora crise de 2010-2011. Assim que se desmascarar e ilhar essas hipocrisias, será possível retomar o desenvolvimento europeu no ano que está prestes a começar. E o Syriza dará menos medo.

(1) Thomas Piketty (1971) é diretor de estudos da EHESS (École des Hautes Études en Sciences Sociales) e professor associado da Escola de Economia de Paris, além de autor de recente e fulgurante celebridade pro seu livro O Capital no século XXI (Fundo de Cultura Econômica, 2014).

Tradução de Daniella Cambaúva

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2 comentários para "Piketty opina: "Syriza pode libertar Europa""

  1. Professor e professora do Brasil, vocês conhecem a chamada “Dívida Pública” do Brasil?
    Você sabe como ela foi e é criada?
    Você sabe quem ganha com ela?
    Se você respondeu não para uma ou para todas as alternativas acima, você precisa correr para saber.
    O documentário – Dívida Pública Brasileira a Soberania na corda bamba – https://www.youtube.com/watch?v=aFzke1cCwUg, pode te ajudar a entender quem ganha e quem perde.
    Por que o Brasil se sujeita a pagar juros exorbitantes que inviabilizam as Políticas Públicas para o atendimento aos trabalhadores e à sociedade como um todo?
    O que a Grécia, com a vitória do partido Syriza está fazendo é o que todos os países com as mesmas dificuldades podem e devem fazer.
    A América Latina, a África e a maioria dos países asiáticos e, muitos países europeus mais pobres, principalmente do leste do continente, foram explorados violentamente pela Inglaterra, pelos Estados Unidos e pela Europa Rica.
    Os super ricos desses países é que saíram mais ricos ainda. O sistema colonial, que assassinou milhares de americanos, africanos e asiáticos, foi uma construção dos países ricos da Europa e depois dos EUA como parte de um projeto de acúmulo e controle da riqueza mundial.
    Portanto, o Brasil, a América Latina, todo o Continente africano e os países em dificuldades da Ásia e da Europa têm sim todo o direito moral e legal para exigirem o perdão de suas dívidas, a renegociação de suas dívidas e, até a reestatização de empresas importantes para suas soberanias e seu desenvolvimento social e humano.

  2. Por que temos tanto medo da democracia?
    Se o povo decide deve ser respeitada a sua vontade cabe a elite se corrigir.
    Um mundo mais igualitário é possível e provavelmente mais feliz para todos.
    Estou lendo o livro ” O capital no Seculo XXI” estou achando excelente.
    ” O conhecimento e a educação de qualidade libertará a humanidade” .

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