O páreo duro das eleições paulistanas

Corrida de cavalos - quem vence?


Análise qualitativa da última pesquisa eleitoral na corrida paulistana aponta tendências, desfaz mitos e mostra disputa complexa e cheia de novidadesPor Elton Flaubert, no Razão Crítica

Até aqui, a sucessão paulistana tem sido tratada como grande incógnita. É normal que assim seja pela presença de tantas variáveis não convencionais no jogo. O PSDB apostou num candidato com alto recall, mas também com ampla rejeição, e que conseguiria unir em torno de si um número razoável de partidos. O PT apostou num candidato novo, com baixo índice de rejeição, palatável para classe média e que pudesse crescer no momento decisivo sem bater no teto histórico do partido na capital, pelo menos, na última década. O PMDB decidiu lançar um nome promissor, com sucesso em campanhas para o legislativo e que pudesse roubar tanto parte do voto conservador dos tucanos, quanto da simpatia pelo PT nas periferias: Gabriel Chalita. Acontece que o papel de “terceira via” coube até aqui a outro candidato: Celso Russomano. Já tendo sido candidato a prefeito, deputado e governador, além de apresentar um programa na televisão defendendo os direitos do consumidor, Russomano aproveitou-se da demora pelo início da campanha eleitoral, avançando em várias frentes: periferia, classe média baixa, evangélicos. Todos esses componentes deixam a sucessão paulistana com um bom grau de imprevisibilidade, mas com alguns movimentos previstos. Analisando a última pesquisa do DATAFOLHA vemos:
1) Os eleitores que dizem ter preferência pelo PT tem como perfil médio: idade entre 16 e 49 anos, não possui curso superior, e tem renda baixa ou média. Em contrapartida, os eleitores que dizem ter preferência pelo PSDB são em termos gerais: classe média ou alta, mais velhos, e possuem curso superior.
2) 76% dos que preferem o PSDB afirmam votar em José Serra. Enquanto, nos que preferem o PT, 33% indicaram sua preferência por Celso Russomano e 21% por Fernando Haddad. Mas não existem tantos motivos assim para desespero por parte do petista.  Vejamos um gráfico comparativo entre as camadas que preferem o PT e quem vota em Haddad:
2a) A barra de votos de Haddad se aproxima mais do eleitorado do PT nas camadas mais ricas ou escolarizadas. As pesquisas mostraram que essas faixas acompanham mais de perto o processo de sucessão paulistana. O grosso do eleitorado petista (as classes média e baixa, e as pessoas menos escolarizadas) ainda não tomou o conhecimento devido da eleição. Podemos reparar que entre os petistas que ganham mais de dez salários mínimos, Haddad já conseguiu acompanhar seus votos.
3) Serra e Russomano são amplamente conhecidos. Enquanto, 63% dos entrevistados dizem não conhecer ou conhecer só de ouvir falar, Fernando Haddad. Em dezembro, este índice era de 83% e Haddad tinha 3% da preferência do eleitor na estimulada. Ou seja, nove meses depois, o candidato cresceu 5% nas intenções de voto e viu seu nome ser conhecido por mais 20% do eleitorado. Se formos considerar esta passagem de conhecimento a voto um ritmo constante, Haddad chegará, no mínimo, ao piso de 23%. No entanto, a maior parte desses 20% que passaram a conhecer o candidato petista nestes nove meses, não faz parte do eleitorado médio do PT. Boa parte dos que passaram a conhecer Haddad são mais velhos, possuem curso superior, tem renda alta ou média e vêm acompanhando a eleição. Portanto, é provável que o crescimento do candidato petista seja num ritmo mais acelerado do que 5% de votos a cada 20% de conhecimento, já que agora seu nome deve chegar ao perfil mais próximo do eleitor fiel ao seu partido, deixando o candidato numa posição muito favorável de crescimento. Observemos este gráfico, onde colocamos em contraste aqueles que “desconhecem ou conhecem só de ouvir falar” o candidato petista e aqueles que declaram seu voto nele:
3a) Vimos no primeiro gráfico que proporcionalmente a maior camada de eleitores do PT se encontra entre os que tem apenas o fundamental ou ensino médio e possui renda mensal de cinco salários mínimos para baixo. Neste segundo gráfico, fica claro também que são estes eleitores que menos conhece Haddad. Entre os que ganham até dois salários mínimos, quase 80% desconhece ou conhece só de ouvir falar o candidato petista, quase à mesma proporção entre os que estudaram até o ensino fundamental. Por fim, chegamos a este número definitivo: 59% dos que tem como partido de preferência o PT não conhecem ou conhecem pouco Haddad.
4) Pois bem, justamente por não ser conhecido do grosso do eleitorado petista, que o perfil dos eleitores do candidato não está em conformidade com o do partido. Quanto à renda, por exemplo, Haddad tem melhor projeção entre os mais ricos (acima de 10 salários mínimos), sendo que no dia da eleição certamente terá mais votos entre os mais pobres. Ainda assim, outros dados podem demonstrar isso. Espera-se do candidato petista que tenha um eleitor com média de idade um pouco menor, no entanto, Haddad é o terceiro candidato com eleitor de perfil mais velho, com 43,1; perdendo apenas para José Serra (45) e Gabriel Chalita (44,1). Enquanto, os de Celso Russomano têm média de 41,7. Outro dado: proporcionalmente, o eleitorado que mais tem interesse pela eleição são os de Chalita e Haddad, com 47 e 42%, respectivamente. O mais desinteressado é o de Soninha, com 30%. Em síntese, Haddad cresceu entre os mais escolarizados, ricos, de idade mais avançada, e que conhecem os candidatos; e tem um bom cenário de crescimento no eleitorado que deve ser o seu carro-chefe, mas que ainda não tomou contato com a eleição, e que ainda não sabe quem é o candidato do PT, de Lula ou Dilma. A pesquisa de Julho do DATAFOLHA mostrou que o maior cabo eleitoral da cidade era Lula, e o que o pior era Kassab. No entanto, quase ninguém associava Lula a Haddad, e os que assim faziam, não eram o eleitor médio do PT.
5) Apesar deste cenário favorável de crescimento, a campanha de Fernando Haddad precisa ter atenção a alguns componentes: a) precisa diversificar seu eleitorado se quiser ter chance num possível segundo turno (66% dos eleitores de Haddad tem o PT como partido preferencial); b) precisa urgentemente crescer entre as mulheres (entre todos os candidatos, o petista é o que tem a proporção mais desequilibrada entre homens e mulheres: 63% para 37%); c) precisa impedir o avanço sólido que Celso Russomano tem feito na classe média baixa.
Amanhã, continuaremos nossa análise da sucessão paulistana, focando: Celso Russomano, José Serra, rejeição, e a afinidade entre o eleitor de Serra e Chalita.

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4 comentários para "O páreo duro das eleições paulistanas"

  1. Isadora Calil e Ana Livia Plurabelle Esteves: ainda existem esperanças…

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