Os EUA flertam com o fundamentalismo egípcio

Relação de Washington com Fraternidade Muçulmana é menos antagônica do que sugerem as aparências

Outras Palavras tem dado amplo destaque, nas últimas semanas, aos levantes populares que sacodem parte dos países árabes. São o grande fato novo do cenário internacional, por muitos motivos. Sacodem uma região paralisada há décadas — primeiro, por uma geopolítica mundial que dividia o planeta entre aliados dos Estados Unidos e da União Soviética; mais tarde, com a migração, a órbita norte-americana, de parte das ditaduras que girava em torno da URSS. Expressam que uma nova cultura política, marcada pela ação direta de cidadãos que se conectam em rede, expande-se também onde não se suspeitava. Uma marca essencial das revoluções tunisiana e egípcia, mas também dos protestos na Jordânia, no Yêmen e na Argélia é o fato de não se darem sob a liderança de partidos políticos, nem de movimentos sociais tradicionais.

Neste aspecto está seu frescor e, também, sua debilidade momentânea. As multidões tomam as ruas, enfrentam exércitos, derrubam governos (como na Tunísia) ou os fazem balançar — mas não têm como constituir  (contra-)poder. As antigas formas de organização ainda imperam. No Egito, há o próprio governo Mubarak, o exército e… a Fraternidade Muçulmana. Há alguns dias, seus dirigentes provocaram surpresa, ao anunciar que já não reivindicam a deposição do presidente.

Mas o que é a Fraternidade? Dois textos ajudam a conhecê-la melhor. Redigido por Wendy Kristianasen e publicado em abril de 2010 na Biblioteca Diplô, o ensaio “Os Irmãos Muçulmanos divididos” (tradução de Jô Amado) é um ampla radiografia do movimento: origens, história, ramificações nos diversos países árabes, ideologia, formas de agir.  Já “Washington e a Fraternidade Muçulmana” acaba de ser publicado, na excelente New York Review of Books”. Está disponível em Outras Palavras, com tradução do coletivo Vila Vudu. Pode ser surpreendente, para quem (como a velha mídia) acostumou-se a enxergar o Oriente Médio dividido basicamente entre os Estados Unidos e a tradição fundamentalista islâmica.

O texto relata com riqueza de dados, a colaboração de décadas que Washington manteve com a Fraternidade — que atua ao mesmo tempo como Previdência para-estatal, sistema de escolas religiosas (madrassas) e força política. Ela era vista como contraponto ao nacionalismo árabe dos anos 1950 ou, pouco mais tarde, à presença da União Soviética no Oriente Médio. Nesse aspecto, as relações que manteve (e mantém) com os EUA assemelham-se às da própria Al-Qaeda, cuja expansão foi estimulada pela Casa Branca, no esforço para expulsar a URSS do Afeganistão.

No intrincado cipoal político do Oriente Médio, quase tudo tem bem mais de um sentido. A Fraternidade é, ao mesmo tempo,  peça importante na oposição aos regimes pró-EUA, na região. Esta contradição pode abrir brechas para rebeliões populares que parecem se opor tanto às ditaduras apoiadas pelo Ocidente quanto aos fundamentalismos religiosas.

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