Oito cidades mostram que é possível despoluir rios urbanos

Contaminação que marcou era industrial começou a ser revertida no século 20. Seul, recordista, limpou seu rio em apenas quatro anos

No EcoD

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Contaminação que marcou era industrial começou a ser revertida no século 20. Seul, recordista, limpou seu rio em apenas quatro anos

No EcoD

O crescimento desordenado das cidades, somado ao descaso do poder público e à falta de consciência da população, fazem com que boa parte dos rios urbanos do Brasil mais pareçam a extensão das lixeiras. A falta de tratamento de esgoto e o descarte de poluentes industriais são os grandes vilões para esse quadro.

Atualmente, os 500 maiores rios do planeta enfrentam problemas com a poluição, segundo dados da Comissão Mundial de Águas. Contudo, diversas cidades conseguiram transformar seus rios mortos em belos retratos de cartão-postal, como Paris e Londres, integrando-os à sua vida econômica e social. Eis alguns exemplos que podem inspirar as autoridades brasileiras para que alcancemos os mesmos resultados.

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Sena pode estar 100% despoluído em 2015 (Foto: Danielle Meira dos Reis)

1. Rio Sena, Paris (França)

O Sena, em Paris, foi degradado por conta da poluição industrial, situação comum a outros rios europeus. Neste caso, porém houve um agravante: o recebimento de esgoto doméstico.

Por conta de seu estado lastimável, desde a década de 1920 o Sena é alvo de preocupações ambientais. Mas foi apenas em 1960 que os franceses passaram a investir na revitalização do local construindo estações de tratamento de esgoto. Hoje já existem 30 espécies de peixes no rio, mas o processo para que isso acontecesse foi lento.

No começo, havia apenas 11 estações em funcionamento. Em 2008 já eram duas mil, mas a meta é que em 2015 o rio já esteja 100% despoluído. Como parte do processo de tratamento de esgoto, o governo criou leis que multam fábricas e empresas que despejarem substâncias nas águas. Além disso, há um incentivo entre 100 e 150 euros por hectare para que agricultores que vivem às margens do rio não o poluam.

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Tâmisa era conhecido antes como o “Grande fedor” (Foto: Wikimedia Commons)

2. Rio Tâmisa, Londres (Reino Unido)

O Tâmisa tem quase 350 km de extensão e um longo histórico de poluição. As águas deixaram de ser consideradas potáveis ainda em 1610, por conta da falta de saneamento básico da Inglaterra. Ocorriam até mesmo mortes por cólera. Em 1858, no entanto, reuniões parlamentares precisaram ser suspensas por conta do mau cheiro das águas, o que levou os governantes a resgatar a vida do rio apelidado como “Grande fedor”.

Na época foi colocado em prática uma alternativa sem êxito, já que o sistema que coletava o esgoto despejava os dejetos recolhidos no rio a certa distância abaixo da cidade. Apenas entre 1964 e 1984 novas ações de revitalização surtiram efeito. Foram criadas duas estações de tratamento de esgoto com investimentos de 200 milhões de libras. Quinze anos depois, um incinerador passou a dar destino aos sedimentos vindos do tratamento das águas, gerando energia para as duas estações. Fora isso, hoje dois barcos percorrem o Tâmisa de segunda a sexta e retiram 30 toneladas de lixo por dia.

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Famoso rio de Lisboa teve investimento de 800 milhões de euros (Foto: Wikimedia Commons)

3. Rio Tejo, Lisboa (Portugal)

Para despoluir o famoso rio de Lisboa foram investidos 800 milhões de euros. A revitalização, que se encerrou em 2012, incluiu obras de saneamento e renovação da rede de distribuição de águas e esgotos, visto que os dejetos eram depositados diretamente nas águas do rio. Foram beneficiados com o projeto 3,6 milhões de habitantes.

O Tejo é o maior rio da Europa ocidental e passou a ser despoluído com a criação da Reserva Natural do Estuário do Tejo, em 2000. O plano envolveu a construção de infraestrutura de saneamento de águas residuais e renovação de condutas de abastecimento de água. Hoje, até golfinhos voltaram a saltar nas águas do rio europeu.

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Os 5,8 km do rio que corta metrópole foram revitalizados em apenas quatro anos (Foto: longzijun)

4. Rio Cheonggyecheon, Seul (Coreia do Sul)

Pode parecer mentira, mas os 5,8 km do rio que corta a grande metrópole de Seul foram totalmente revitalizados em apenas quatro anos. Hoje ele conta com cascatas, fontes, peixes e é ponto de encontro de crianças e jovens.

Seu renascimento começou em julho de 2003, quando o governo da cidade implodiu um enorme viaduto (com cerca de 620 mil toneladas de concreto) que ficava sobre o rio e começou, em paralelo, um grande projeto de nova política de transporte público e construiu diversos parques lineares, ampliando a quantidade de áreas verdes nas ruas para uma cidade sustentável. Todo o processo teve um investimento de 370 milhões de dólares.

Com as melhorias ambientais, a temperatura em Seul diminuiu 3,6°C, além de haver melhorias econômicas para a cidade. O rio sul-coreano era responsável pela drenagem das águas da metrópole com mais de 10 milhões de habitantes quando seu leito se tornou poluído. Hoje, as águas que correm por lá são bombeadas do Rio Han, outro que passou pelo processo de despoluição.

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O Han também passou por mudanças e hoje já tem algumas espécies de peixe (Foto: Divulgação)

5. Rio Han, Seul (Coreia do Sul)

Formado pela confluência dos rios Namhan e Bukhan, ele passa por Seul e se junta ao rio Imjin, que em seguida deságua no Mar Amarelo. Com 514 km de extensão, sendo 320 navegáveis, o rio sempre teve papel fundamental para o desenvolvimento da região, visto que era fonte para a agricultura e o comércio, além de ajudar na atividade industrial e na geração de energia elétrica.

No entanto, o Rio Han sofreu grande degradação durante a Segunda Gerra Mundial e Guerra da Coreia, além de receber o despejo de esgoto.

Mas, em 1998, com o plano de Desenvolvimento e Implementação de Gestão da Qualidade da Água, o local mudou o seu destino. Com a revitalização do rio Cheonggyecheon, o Han também passou por mudanças e hoje é considerado limpo e já tem algumas espécies de peixe. O governo tem em prática, inclusive, o projeto Han Renaissance, que tem por objetivo revitalizar 12 parques à beira do rio.

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Governos das cidades banhadas pelo Reno criaram Programa de Ação em 1987 (Foto: Vladimir Rys/Getty Images)

6. Rio Reno, várias cidades da Europa

Com cerca de 1,3 mil km de extensão, o rio nasce nos Alpes Suíços e banha seis países europeus até desaguar no Mar do Norte, na Holanda. Durante muitos anos recebeu dejetos de zonas industrias, o que o levou a ser conhecido, em 1970, como a cloaca a céu aberto da Europa.

Um dos principais casos de contaminação aconteceu em 1986, quando 20 toneladas de substâncias altamente tóxicas foram despejadas no rio por uma empresa suíça. Com o ocorrido, o governos das cidades banhadas pelo Reno se reuniram e criaram o Programa de Ação para o Reno em 1987, investindo mais de 15 bilhões de dólares em sua recuperação, que contou com a construção de estações de tratamento de água monitorado. O resultado são 95% dos esgotos das empresas tratados e a existência de 63 espécies de peixes vivendo por ali hoje.

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Cleveland investiu U$ 3,5 bi para purificar água do Cuyahoga e seus sistemas de esgoto (Foto: Cuyahoga jco)

7. Rio Cuyahoga, Cleveland (Estados Unidos)

Localizado no estado de Ohio, ele conta com 160 km de extensão, passando pelo Parque Nacional do Vale Cuyahoga e desaguando no Lago Eire. Hoje ele é parte fundamental do ecossistema da região, sendo lar e fonte de sustento de diversos animais. No entanto, a história era bem diferente em um passado não muito distante.

Devido à atividade industrial maciça e o esgoto residencial da região entre Akron e Cleveland, o rio era bastante poluído. Para piorar a situação, em junho de 1969, uma mancha de óleo e outros produtos químicos incendiaram o rio. Por conta desses fatores, em 1970 foi assinado o Ato Nacional de Proteção Ambiental, que viabilizou a criação do Ato Água Limpa, em 1972, estipulando que todos os rios do país deveriam ser apropriados para a vida aquática e para o lazer humano.

Assim, Cleveland investiu mais de 3,5 bilhões de dólares para a purificação da água do Cuyahoga e dos seus sistemas de esgoto. E a previsão é de investir mais 5 bilhões nos próximos 30 anos para manter o bom estado de suas águas.

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Galerias pluviais foram reconstruídas nos Canais de Copenhague Foto: Pramzan45/Wikimedia Commons

8. Canais de Copenhague (Dinamarca)

Provavelmente você conhece a capital dinamarquesa por ser referência no assunto meio ambiente. Hoje ela possui uma meta muito clara: quer chegar em 2025 como a capital a primeira capital do mundo a neutralizar suas emissões de carbono.

Mas nem sempre foi assim. Antes os canos que levavam a água da chuva para os rios e canais muitas vezes se misturavam com a rede de esgoto, transportando os dejetos para as águas. Além disso, o entorno do rio era uma área industrial, o que fazia com que boa parte do lixo da região fosse para os canais e rios.

Em 1991, no entanto, surgiu o plano de despoluição das águas e a remoção da área industrial ao redor do rio. Assim, as galerias pluviais foram reconstruídas, os reservatórios de água foram estabelecidos em pontos estratégicos da cidade para que a água da chuva se armazenasse em caso de tempestade e o encanamento dos esgotos foi melhorado. O lixo, por sua vez, passou a ser reciclado e incinerado.

Hoje os habitantes e turistas podem, até, tomar banho nas piscinas públicas artificiais criadas pelo governo.

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19 comentários para "Oito cidades mostram que é possível despoluir rios urbanos"

  1. Eu fico pensando com esses exemplos! Que política falta para despoluir definitivamente o rio Tiete e tantos outros rios Brasileiros? Como me sinto envergonhado vendo esses exemplos e muitos de nós de braços cruzados sem mover uma palha.

    • Na minha humilde opinião, é a política da educação prática. Nós cobramos ações de todos(principalmente governantes), menos de nós mesmos. O simples gesto de arremessar uma embalagem de bala pela janela do carro é um exemplo disso. Em praias, rios e parques nós descartamos latas e papéis na natureza. E muitos fazem de forma inconsciente porque ao assistirem a uma reportagem na TV falando sobre a poluição, são os primeiros a bravejarem: “que povo sem educação!”. Eu também me envergonho. Me envergonho pela quantidade de copos plásticos que uso no trabalho, me envergonho de não separar lixo orgânico de reciclável. Me envergonho de não fazer nada para mudar nada.

      • Apenas a educação, apesar de fundamental, não basta. Se dependermos exclusivamente dela os nossos piores rios jamais serão despoluídos. Quiçá, daqui a 200 anos. É fundamental que haja investimento direto nesse processo. Mais, que se puna financeiramente aqueles que ainda insistem em descarregar dejetos de toda ordem nos mananciais e rios, especialmente a grande industria. Paralelamente, aí sim, deve haver o investimento na educação (aliás, sempre, independente se a questão é despoluir rios).

      • Fiora disse:

        Veja se faz alguma coisa é não julgue os outros pela sua atitude .
        Mesmo assim acho que se não tiver uma ação coletiva ,fundamentalmente ,do Estado e a mudança no conceito do LUCRO a qualquer custo. Sim a poluição é Industrial , Agrária (Agrotóxicos- Monoculturas) , lixo e esgoto domiciliar . Ou seja depende do ESTADO DO CAPITAL / EMPRESARIAL E MENOR GRADO VC,EU ,ELES …

      • Da fato. Isso é premissa básica. Mesmo pq, o governo é a cara do povo. Então, um povo educado, teremos, consequentemente, governantes éticos e com pensamento no coletivo. Afinal de contas, o poder emana do povo.
        Um triste diagnóstico visível nas cidades é quando ruas estão cheias de carros e calçadas vazias. Sempre digo que sustentabilidade é uma questão de pensamento coletivo. O transporte coletivo, não apenas melhora a fluidez no trânsito, como também fomento o pensamento coletivo nas pessoas, premissa básica para uma sociedade coletivista e participativa. As conexões são infinitas. Ação e reação.

  2. luiz sergio santos disse:

    Primeiro, tem que despoluir Brasilia pra depois se pensar em algo do tipo. Esse povinho daqui não entende esse tipo de atitude. Tem que se educar pra entender o porque de uma atitude dessa.

  3. Souza Bonfá disse:

    Se resolvermos o problema da miséria e da má distribuição de renda, lutando para que nossa “elite” se descolonize e nosso “povinho” se eduque, também dá pra chegar lá.

  4. Andreia disse:

    Para que um projeto deste aconteça no Brasil, precisamos de políticos comprometidos, porém antes de mais nada, de uma população comprometida em participar do começo ao fim das tomadas de decisões. Além de um órgão ágil e sério de fiscalização do gasto do dinheiro público. Todos devem estar envolvidos.

  5. sami bussab disse:

    O meio ambiente esta presente em todos os programas de governo dos candidatos,mas só nos programas qd eleitos esquecem o programa.

  6. Clinton Zav disse:

    Essas atitudes são pouco divulgáveis aqui no Brasil e o povo não cobra dos políticos para que se tenha mudanças efetivas. Aqui os políticos estão mais preocupados em encher os bolsos com o dinheiro público,enquanto a população fica a mercê da própria sorte. E evidente que temos que fazer a nossa parte para que nossos filhos tenham um lugar para chamar de casa!

  7. Geraldo disse:

    Que tal se os políticos abrissem mão da grana usada em campanhas eleitorais bilionárias e fossem revertidas para a revitalização dos nossos rios?

  8. Marcelo disse:

    A foto ta errada no Tejo,a foto é do Cheong Gye Cheon da Corea.

  9. A primeira atitude no Brasil deveria ser o investimento na educação. Só para mudar a mentalidade das pessoas levaria décadas. Em Minas Gerais houve um investimento grande para recuperar o Rio das Velhas, compensou muito, o rio voltou a viver, mas o lixo atirado pela população, a poluição das cidades ribeirinhas, não deixam o trabalho durar. Basta diminuir a fiscalização uma semana e tudo volta ao que era. Em Belo Horizonte não se consegue despoluir duas lagoas, mas a culpa é principalmente do próprio povo.

  10. Saneamento Já! disse:

    O Brasil também tem o seu exemplo para o mundo. O lago Paranoá, que fedia na década de 80, hoje está totalmente saneado, é utilizado para lazer, pesca, esportes náuticos e mergulho (inclusive) e , dentro em breve, será também utilizado para o abastecimento público da população de Brasília.

  11. Onésimo Gomes disse:

    Os últimos acontecimentos envolvendo a falta de chuva e água para o abastecimento levam à reflexão sobre a necessidade de ações efetivas e urgentes para a preservação dos mananciais. É urgente Despoluir rios, proteger veredas e nascentes, além de impedirmos os desmatamentos.

  12. sergio barros minucci disse:

    Nosso Problema não é facil, vai demorar muito, é a CULTURA DO POVO.

  13. O capitalismo destrói tudo.
    Em nome da maior lucratividade, da maneira mais fácil, se destrói tudo.
    Aí os problemas vão se agravando e as politicas se reinventam, e estes países mais “desenvolvidos” com maiores reservas de capital, começam a investir para consertar estas merdas que eles mesmos fizeram em seus países.
    Mas estes países exportam o lixo deles para outros países, instauram o capitalismo predatório nos outros países, desertificam áreas enormes, praticam extrativismo irresponsável…
    E estes países vão investir tb no conserto destes erros em outros países?
    Óbvio que não….
    A matéria é muito boa pra mostrar que é possível melhorar, mas infelizmente, deixa claro que as pessoas só limpam o próprio quintal, e continuam sem se importar de sujar o dos outros.

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