Occupy Wall Street: crise e estratégia

A questão mais visível é o autismo dos partidos institucionalizados da esquerda nos EUA ou Europa

Por Hugo Albuquerque, O Descurvo

Quinta-feira foi um dia histórico para o movimento Occupy Wall Street: dezenas de milhares de pessoas ocuparam as ruas da Big Apple, depois do gesto oportunista do prefeito nova-iorquino, o republicano Michael Bloomberg, que esperava conseguir dissuadir o movimento com um ataque rápido e rasteiro na calada da noite, na última terça, ao ordenar que a polícia removesse os manifestantes enquanto dormiam – sob os auspícios da emergência na segurança e na saúde pública.

Até ontem, o movimento OWS era muito mais o catalisador de uma série de acampadas, maiores e até mais intensas, por várias cidades americanas e ao redor do mundo, do que propriamente um movimento de massas. Mas isso mudou. Não se trata de um fato pontual no qual o poder disciplinar, ressuscitado na forma de arcaísmo pela sociedade de controle, potencializou o movimento, mas sim que sua natureza multitudinária, rizomática e intensa é particularmente potencializável por essa forma de intervenção.

Não que historicamente sempre que a força do Estado tenha sido posta a funcionar de forma total, não houvesse um esvaecimento da ordem, uma vez que o medo passa a dar lugar a qualquer outra: a capacidade de agir de uma coletividade é neutralizada sempre pela expectativa de violência contra seu corpo, não pela sua aplicação sistemática dela, o que cria um efeito de nada a perder.

O meu ponto é que a natureza desse movimento produz um sentimento de partilha e co-pertencimento efetivo – o que permite às singularidades sentirem o que, de fato, é um corpo, e não o absurdo hierárquico que Descartes legou no nosso imaginário -, lhe possibilitando uma capacidade única de atualização e produção intensa de afetos ativos, quando sob o ataque direto do Poder Soberano. Portanto, não é a vanguarda na qual depositamos esperança sob ataque, somos nós que partilharmos este devir multidão sendo atacados. Isso muda tudo.

É algo semelhante ao que vimos na Tunísia, cuja Revolução foi iniciada, há quase um ano, não pelo empobrecimento ou pela desdita, como insistem os catastrofistas, mas sim pela ação efetiva de hackers organizados e empoderados pelos dados de Wikileaks – da repressão estatal tradicional surgiu um modo de resistência novo, pelo menos naquela escala, que levou à pane os dispositivos de controle. Aliás, do recrudescimento da repressão veio o sacrifício do homem da plebe, o camelô sem perspectivas e humilhado, que se imolou mostrando que o Poder Soberano não tem, nem pode ter, controle sobre tudo; o resultado de tudo aquilo, para a população, foi produzir a faísca necessária para fazê-la multidão: nada a temer, o rei está nu e sempre haverá linhas de fuga, nem que seja a própria morte.

Não houve Revolução como consequência necessária do empobrecimento, mas sim como possibilidade de um processo deflagrado a partir da pobreza causada pela exploração da capacidade produtiva daqueles que estão, inexoravelmente, incluídos na máquina por ela mesma: pelos mãos daqueles que estão incluídos (na produção do valor) enquanto excluídos (da realização do valor). E os Estados Unidos compartilha um laço muito mais profundo com a Tunísia – e o efeito libertador que ela disparou pelo Magreb, Egito incluso – do que parece a uma primeira vista: não são os tunisianos os mais miseráveis da África, mas certamente eram, como ainda são, explorados e cada vez mais, ao passo que a capacidade produtiva só aumenta, para além das amarras existentes, ou que podem ser postas em prática, pelo Biopoder.

Assim, não é o empobrecimento que explica tais processos: é o avanço da exploração do Biopoder sobre uma riqueza comum em ascensão, uma riqueza que dá subsídios para a própria construção da resistência – e falamos de uma riqueza imaterial, afetiva, cognitiva. E o Poder Soberano, pelos arredores do globo, não sabe o que fazer com esse enorme horror que lhe percorre a alma. Se o conservador Bloomberg deu um tiro no pé, Obama conseguiu ser pior ainda, na sua infinita capacidade de irritar a todos, ao comparar o OWS ao Tea Party – demonstrando um alheamento soviético, talvez gorbatchioviano, em relação às ruas e às praças públicas de sua própria terra.

A questão mais visível do processo, portanto, torna-se o autismo, em menor ou em maior grau, dos partidos institucionalizados da esquerda (ou próximos disso), seja nos EUA – talvez o Partido Democrata caiba razoavelmente nessa classificação – ou na Europa. Antes de mais nada, convém esclarecer que os movimentos que colocam o dedo nessa ferida não surgiram do nada, anarquicamente, mas sim pela organização autônoma da multidão – e aqui concordamos com Agamben: anárquico mesmo, só a forma como o poder é exercido no Ocidente, sempre baseado na ausência de um fundamento, seja por conta de um Deus infundado ou o que lhe faça as vezes. Esse enriquecimento cognitivo, que se opera a despeito do sistema, nas brechas que ele próprio precisou permitir – a Universidade, a Internet etc – ou no que foi conquistado pelas lutas – liberdades civis etc – é a base potencial da emancipação, não o processo emancipador, que só é deflagrado e operacionalizado pela organização.

Isso requer realismo, algum senso de engenharia e sensibilidade. Por maior que seja a torpeza da centro-esquerda parlamentar ao redor de todo mundo – e, em certa medida, do próprio PT governista brasileiro -, a questão não é agir como se todas as forças institucionalizadas fossem iguais, idênticas, mais do mesmo – raramente é, embora nos EUA se aproxime disso enquanto no Brasil a distância entre elas seja um pouco maior -, tampouco deixar de agir sob o medo de “fazer o jogo da direita” – a outra parte da falsa dicotomia. Não é deixar de agir ou agir irresponsavelmente, mas agir tendo em vista a construção de uma alternativa efetiva. Não é apenas responder o que não queremos e o que queremos – como OWS  já é capaz de dizer -, mas como pôr isso em prática. É hora da tecnologia – em seu sentido mais amplo e, ao mesmo tempo, mais profundo – ser pensada e posta em prática.

Se a direita, em suas várias vertentes, fracassou tremendamente como essa crise nos prova, a esquerda precisa assumir a responsabilidade daquilo que ela, via de regra, se escusa: é preciso delinear claramente como vão ser operacionalizadas suas boas intenções – aquelas doces ideias que estão a abarrotar os infernos -, não adianta dizer que não é preciso pensar em alternativas porque seus princípios são corretos, é preciso fazer as coisas acontecerem.  Depois, não adianta reclamar da ascensão do fascismo, dos governos tacanhos da centro-direita ou da capacidade trôpega da centro-esquerda em responder às demandas – a Primavera Árabe está aí para nos provar, com a junta militar no poder no Egito, a Otan se utilizando da situação e os entraves à jovem democracia tunisiana. É essa tarefa positiva que o movimento tem aqui e agora.

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Um comentario para "Occupy Wall Street: crise e estratégia"

  1. Só corrigindo minha informação: o Bloomberg agora é independente, depois de ter sido do partido republicano por tempos.

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